Será o peso, de fato, deplorável?
Peso também pode ser a disposição para sustentar uma escolha quando ela deixa de ser apenas conveniente

Há algum tempo, parece que fizemos da leveza uma espécie de ideal moral. Queremos relações leves, trabalhos leves, conversas leves, pessoas que não pesem, amores que não cobrem, amizades que compreendam nossas ausências e compromissos suficientemente flexíveis para que possamos abandoná-los quando já não combinarem com a vida que desejamos levar.
Leveza tornou-se quase sinônimo de saúde. Peso, seu contrário: aquilo de que devemos nos livrar.
Mas será o peso, de fato, deplorável?
Essa frase que dá título à coluna vem de uma passagem de um dos meus livros favoritos e eu quero dividir com vocês os pensamentos que me capturam a partir dela.
"A Insustentável Leveza do Ser" foi um dos primeiros livros pelos quais me apaixonei. Milan Kundera se tornou, desde então, um dos meus escritores favoritos, e há alguma coisa naquele livro que nunca deixou de me acompanhar.
Lembro de ficar profundamente impressionada com aquela história e, sobretudo, com a dicotomia entre peso e leveza que atravessa o romance. Eu e minha amiga Elaina Nunes – hoje psicóloga dedicada a pesquisas sobre psique e oráculos – falávamos sobre o livro, discutimos suas ideias, assistimos ao filme e ficamos às voltas com aquela teoria durante muito tempo.
Havia algo de fascinante na possibilidade de pensar a existência a partir de duas forças aparentemente tão simples e, ao mesmo tempo, tão difíceis de separar.
Kundera permaneceu comigo pela poesia, pela delicadeza e pela filosofia que sustenta sua literatura. E talvez seja por isso que, tantos anos depois, tenho voltado com frequência à pergunta que atravessa o livro: será o peso, de fato, deplorável e a leveza, esplêndida?

Tenho pensado nisso porque parece que fizemos da leveza uma espécie de ideal contemporâneo, mas principalmente porque fui pessoalmente impactada por esse imperativo quando meu bebê tinha cerca de nove meses. Fui questionada por uma pessoa muito próxima, por que eu não fazia uma maternidade mais leve?
Quando vi a tal da leveza ser empregada em um apelo a uma situação tão complexa, comecei a analisar em quais dimensões e proporções ela se embrenhou nas relações humanas.
Me parece que, na atualidade, a leveza tornou-se quase sinônimo de saúde, maturidade e liberdade. Peso, seu contrário: aquilo de que devemos nos livrar. Mas será o peso, de fato, deplorável?
Kundera constrói seu romance ao redor de uma questão que talvez tenha se tornado ainda mais perturbadora décadas depois: o que acontece com uma existência quando nada nela tem peso? Quando nada tem densidade? Talvez tenhamos levado nossa resposta longe demais.
Leveza tornou-se quase sinônimo de saúde. Peso, seu contrário: aquilo de que devemos nos livrar.
Ao tentar nos libertar de relações opressivas, estruturas rígidas, obrigações herdadas e modelos de vida que já não nos serviam, começamos também a suspeitar de tudo aquilo que exige permanência, reciprocidade, renúncia, consequência.
Em algum ponto do caminho, compromisso passou a parecer limitação. Responsabilidade ganhou aparência de cobrança. Profundidade começou a ser confundida com intensidade excessiva. E liberdade passou a significar, perigosamente, a possibilidade de não dever nada a ninguém.
Mas existe liberdade sem responsabilidade?
Jean Paul Sartre provavelmente diria que não. Se estamos todas e todos condenados a ser livres, estamos também condenados a responder pelas escolhas que fazemos com essa liberdade.
Escolher não é apenas afirmar aquilo que queremos para nós. É produzir realidade. Toda escolha encontra outras pessoas, modifica relações, cria expectativas, rompe possibilidades, sustenta ou abandona mundos. Somos livres para lidar com a consequência das nossas escolhas.
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Talvez seja justamente isso que pese. E talvez devesse pesar. É essa a densidade que dá contorno à própria experiência da existência.
O peso, nesse sentido, não significa opressão. Peso também pode significar a consequência da escolha feita pela liberdade, pode significar permanência, compromisso, responsabilidade, reciprocidade, palavra dada. Pode ser a disposição para sustentar uma escolha quando ela deixa de ser apenas conveniente.
QUANDO A COMPLEXIDADE PASSOU A PARECER UM PESO
Penso nisso quando observo a maneira como falamos sobre os relacionamentos hoje. Queremos vínculos que respeitem integralmente nossa liberdade, e isso é importante.
Mas, às vezes, parece que começamos a desejar também vínculos que não interfiram demais em nossas escolhas, que não criem expectativas, que não exijam responsabilidade, que não nos obriguem a considerar o impacto de nossas decisões sobre outra pessoa.
Há uma expressão que ganhou espaço na maneira como falamos sobre amizade: low-maintenance friendship. Amizades de baixa manutenção, aquelas em que podemos passar semanas ou meses sem nos falar e, quando nos encontramos, “parece que nada mudou”.
De fato, há certa maturidade nisso; relações não deveriam depender de disponibilidade permanente, respostas imediatas ou demonstrações incessantes de pertencimento. A vida adulta acontece, o tempo se estreita, as pessoas mudam, atravessam cidades, trabalhos, filhos, crises, cansaços. Mas há alguma coisa na expressão que me incomoda muito.

Manutenção é uma palavra curiosa para falar de pessoas. Ela pertence ao vocabulário das coisas que precisam funcionar. Uma máquina pode exigir pouca manutenção.
Mas o que exatamente estamos dizendo quando celebramos uma pessoa porque ela exige pouco de nós? Que talvez a forma mais sofisticada de amar alguém seja poupá-la da experiência de ter de lidar conosco.
Talvez isso diga alguma coisa sobre a nossa busca contemporânea pela leveza. Só que as pessoas são, por definição, high-maintenance. Só que talvez criar vínculos signifique nossa capacidade de sustentar algum peso.
Em algum ponto do caminho, liberdade passou a significar a possibilidade de não dever nada a ninguém.
Conhecer profundamente alguém significa admitir que aquela existência passou a importar. E aquilo que importa pesa. Amar alguém significa reconhecer que nossas decisões já não acontecem em um universo no qual apenas nós existimos.
O mesmo vale para uma amizade. Há um momento em que dizer que alguém é nosso amigo significa mais do que gostar daquela pessoa. Significa criar uma relação na qual presença, confiança e reciprocidade passam a ter algum valor. Uma amizade absolutamente livre de qualquer expectativa talvez seja também uma amizade livre de compromisso.
Uma relação livre de compromisso é mesmo relação? Qual a profundidade de uma conexão em que não criamos densidade? Se tudo é leve e superficial o suficiente para não me atravessar, até que ponto eu sou capaz de me responsabilizar pelas atitudes e ações que partem de mim mas que atravessam vocêEm algum ponto do caminho,
O TRABALHO TAMBÉM PRECISA DE DENSIDADE
Trabalho tem peso porque tem consequência. Há metas, objetivos, prazos, acordos. Há pessoas que dependem umas das outras para realizar aquilo que se comprometeram a fazer. Há clientes, recursos, reputações, carreiras e decisões sendo afetados pelo que fazemos – e também pelo que deixamos de fazer.
Uma relação profissional pode ser respeitosa, generosa, flexível e radicalmente humana sem deixar de exigir compromisso. Aliás, talvez seja justamente essa capacidade que esteja nos faltando: construir relações suficientemente maduras para suportar a exigência sem transformá-la em violência, a responsabilidade sem interpretá-la imediatamente como cobrança excessiva.
Porque trabalhar com outras pessoas significa, inevitavelmente, criar expectativas recíprocas.
Ambientes informais também podem esconder relações de poder. Autonomia sem clareza pode esconder ausência de direção, estruturas horizontais podem tornar difícil descobrir quem decide. E culturas nas quais ninguém quer exercer autoridade podem produzir lugares nos quais, quando alguma coisa dá errado, ninguém sabe exatamente quem responde.
Quando alguém abandona sistematicamente compromissos em nome da própria liberdade, outra pessoa reorganiza a vida.
Quando uma amizade só existe enquanto for de baixa manutenção, alguém aprende que não pode contar com aquela relação.
Quando uma liderança evita uma conversa difícil para preservar a leveza do ambiente, alguém continua convivendo com o problema que não foi enfrentado.
Quando uma organização celebra autonomia sem estabelecer responsabilidade, alguém acaba respondendo por decisões que ninguém quis assumir.
Uma relação livre de compromisso é mesmo relação?
Talvez seja aqui que, ao me socorrer nos pensamentos de Frantz Fanon, eu torne a discussão ainda mais complexa. Porque nossa liberdade nunca acontece no vazio, nós existimos em um mundo que já estava aqui quando chegamos.
Um mundo atravessado por história, poder, desigualdades, expectativas e relações que distribuem de maneira profundamente diferente as possibilidades de escolha e as consequências dessas escolhas.
Por isso, a ideia de que “ninguém deve nada a ninguém” pode soar libertadora enquanto abstração, mas se torna muito menos simples quando encontra a vida concreta.
O que convido vocês a refletir é que, nessa modernidade líquida, talvez tenhamos nos tornado tão preocupados em eliminar aquilo que acreditamos nos oprimir e limitar que começamos também a rejeitar aquilo que nos aterrisa por escolhas que fizemos a partir do nosso próprio livre arbítrio.
DOIS PESOS, MUITAS MEDIDAS
Há pesos que diminuem a vida. E há pesos que dão densidade a ela, e portanto, contorno, tema, tom, trilha sonora – se você gosta de pensar poeticamente, como eu.
Uma amizade pesa porque existe alguém com quem nos comprometemos. Uma palavra pesa porque alguém acreditou nela. Uma decisão pesa porque produz consequências. Uma posição de liderança pesa porque alcança outras vidas. O amor pesa porque a existência do outro passa a participar das nossas escolhas.
Talvez uma vida inteiramente pesada seja, de fato, insuportável. Mas uma vida da qual retiramos todo peso talvez também seja incapaz de produzir significado.
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Décadas depois de ter encontrado Kundera pela primeira vez, continuo às voltas com a mesma dicotomia que me fascinava quando discutia aquele livro com minha amiga. Só que, hoje, formulei a pergunta de outra maneira.
E volto à pergunta que me fizeram, depois de ter sido cortada em sete camadas, ter dividido o DNA, ter toda a rotina e existência modificada e até queimado um pouco da massa cinzenta: por que eu não fazia uma maternidade mais leve?
A resposta é: não tem como. Há coisas que pesam porque importam, e que bom! Porque é a densidade, é a complexidade, é a intensidade que faz de nós, essencialmente, humanos.
