Setor privado como eixo central da governança climática global

Com a integração da Agenda Global de Ação Climática às discussões da UNFCCC, o setor privado assume um papel mais estruturado como coautor da ação climática

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Créditos: Manbo Photo/ bestdesigns/ Anton Vierietin/ Getty Images

Flora Bitancourt 6 minutos de leitura

O desfecho da COP30, em Belém, não será lembrado apenas pelos acordos diplomáticos entre nações, mas por uma mudança de paradigma sem volta: a entrada definitiva do setor privado na governança global do clima.

O que antes era visto como um esforço voluntário de “responsabilidade social” ou uma agenda paralela de relações públicas passou a ser integrado de forma mais estrutural às negociações climáticas, em alinhamento com o Acordo de Paris.

Nesse contexto, a World Climate Foundation (WCF), que há 16 anos atua facilitando diálogos multissetoriais pelo clima, se mobiliza para apoiar e acelerar a implementação dos investimentos multissetoriais necessários à transição. Sem o capital, a inovação e a agilidade das empresas, as metas nacionais de descarbonização tendem a permanecer como cartas de intenção.

Com a integração formal da Agenda Global de Ação Climática às discussões da  Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o setor privado assume, de forma inédita, um papel mais estruturado como coautor da ação climática.

Uma das grandes guinadas da COP30 para o setor privado reside justamente na institucionalização da Agenda de Ação.

Até a COP29, os compromissos de empresas e coalizões eram frequentemente tratados como “ações paralelas”, que corriam em uma pista separada e com pouca influência sobre as negociações formais entre os países.

logotipo da COP30

A partir de agora, uma nova ponte foi criada. O setor privado passa a ter maior clareza sobre suas responsabilidades em alinhamento direto às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs).

Se antes uma empresa podia anunciar uma meta de “net zero” para 2050 com base em critérios próprios, agora ela pode estruturar metas e apresentar resultados que contribuam diretamente para o cumprimento das metas nacionais dos países onde opera, fortalecendo um esforço coletivo com maior coerência e alinhamento.

A diferença de status é significativa: de “convidado”, o setor privado passa a ser reconhecido como “parceiro responsável”. As implicações desse movimento ainda se desdobrarão nos próximos anos, mas já se manifestam em múltiplas dimensões.

UMA NOVA ERA PARA O ESG

No campo jurídico, cresce o risco de litigância climática e de acusações de greenwashing, à medida que se ampliam as exigências de reporte e transparência, com a adoção progressiva de padrões como o IFRS S1 e S2 e o fortalecimento de normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil.

Do ponto de vista econômico, o acesso ao capital internacional passa a estar cada vez mais condicionado a esse nível de conformidade. Em termos de reputação, não há mais espaço para promessas vazias: a transparência tornou-se um ativo financeiro e, ao mesmo tempo, um mecanismo de proteção jurídica.

Muitos passaram a questionar se os novos contextos geopolíticos estariam sinalizando o fim da era ESG. A meu ver, no entanto, a COP30 marcou o início de um novo momento para esse conceito.

O recado de Belém é claro: a inércia tornou-se um dos maiores riscos financeiros da década.

Ainda que a sigla ESG venha a ser reformulada ou até substituída por novos termos, permanece central a necessidade de equilibrar decisões estratégicas com a mitigação de riscos operacionais, incorporando de forma integrada as dimensões ambiental e de governança diante do avanço dos impactos das mudanças climáticas.

Nesse ecossistema de maior exigência e responsabilidade, a World Climate Foundation amplia ainda mais seu papel como ator de articulação intersetorial, fortalecendo espaços de diálogo, aprendizado e implementação.

Se antes a atuação de organizações como a WCF estava mais concentrada em fomentar redes de contato e sensibilizar lideranças, o presente nos chama para ação e nossa missão de impacto se expande para a entrega de projetos colaborativos e escaláveis por meio de nossas coalizões globais.

PARTICIPAÇÃO DAS EMPRESAS

Um dos elementos centrais da Agenda Global de Ação são os mais de 117 Planos para Aceleração das Soluções (PAS), que orientam o esforço de implementação no que a ONU tem chamado de “Mutirão de Implementação”.

Com um histórico de 16 anos na intersecção entre o setor público e o privado, a WCF tem conduzido diálogos entre governos, empresas e gestores de fundos de investimento, além de contribuir para o desenvolvimento de métricas, modelos de blended finance e uma rede global capaz de operacionalizar projetos complexos em setores como energia renovável, agricultura regenerativa e infraestrutura resiliente.

O Plano de Cinco Anos (2026-2031) da Agenda de Ação busca resultados concretos: a triplicação das energias renováveis, a proteção de biomas críticos por meio de mecanismos financeiros emergentes, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, e a descarbonização das cadeias globais de suprimentos.

presidente Lula discursa na COP30 sobre o Fundo Florestas Tropicais para Sempre
Crédito: Bruno Peres/ Agência Brasil

Os resultados previstos são organizados em objetivos chave, com métodos de mensuração cada vez mais robustos, em alinhamento com o Enhanced Transparency Framework (Estrutura de Transparência Avançada) da UNFCCC, que fortalece a verificação dos resultados nacionais por meio de auditorias independentes e monitoramento por satélite.

A integração da Agenda de Ação às negociações oficiais respondeu a uma necessidade pragmática. O Balanço Global (Global Stocktake) evidenciou que os governos, sozinhos, não conseguem fechar o “gap” de emissões.

Reconheceu-se, assim, que a resposta à crise climática passa por uma transformação estrutural da economia real e a economia real é impulsionada também por empresas e investidores.

IMPORTÂNCIA DA GOVERNANÇA CLIMÁTICA

Olhando para os próximos cinco anos, o comportamento esperado do setor privado é de liderança proativa. Não se espera apenas que as empresas “reduzam danos”, mas que impulsionem a transição por meio da inovação tecnológica e do redirecionamento dos fluxos de capital.

O setor privado é um dos motores da economia de baixo carbono: desenvolve o hidrogênio verde, escala a produção de veículos elétricos e implementa sistemas alimentares mais resilientes.

O efeito dessa movimentação é o que se pode chamar de “efeito cascata”: quando grandes corporações assumem metas de Escopo 3, milhares de fornecedores são induzidos a se modernizar, gerando uma onda de eficiência que começa a redefinir o crescimento econômico sob uma lógica mais sustentável.

de “convidado”, o setor privado passa a ser reconhecido como “parceiro responsável”.

O recado de Belém é claro: a inércia tornou-se um dos maiores riscos financeiros da década. Para as empresas que desejam não apenas sobreviver, mas liderar nessa nova economia, o isolamento é um erro estratégico.

Para a World Climate Foundation, este é um passo decisivo para otimizar resultados dentro desse novo e mais complexo escopo da Agenda de Ação. Por meio da WCF, organizações terão acesso a coalizões de investimento de larga escala, diálogo técnico de alto nível com governos e a credibilidade necessária para navegar no crescente escrutínio da governança climática global.

O plano de cinco anos já começou. O setor privado agora é parte formal da solução e, como em qualquer transição econômica, quem sai na frente tende a gerar impactos mais relevantes para si e para as metas dos países.


SOBRE A AUTORA

Flora Bitancourt é líder da World Climate Foundation no Brasil e co-fundadora da Impact Beyond, ecossistema de plataformas de impacto ... saiba mais