SXSW discute o humano fora do centro
Em um mundo onde prototipar é instantâneo e produção virou commodity, o diferencial humano é a capacidade de decidir o que vale fazer, para quem e por quê

Durante décadas, toda revolução tecnológica, do vapor à eletricidade, do computador à internet, funcionou como extensão das capacidades humanas. A máquina ampliava o que o corpo e a mente já faziam, como carregar, calcular, conectar. O ser humano permanecia no centro.
A grande discussão do festival South by Southwest (SXSW) deste ano foi que, pela primeira vez, isso mudou. Com a chegada da IA agêntica, a internet do futuro não está sendo desenhada para nós. Está sendo projetada para os agentes.
Segundo Matthew Prince, CEO da Cloudflare, 20% do tráfego da internet hoje já é gerado por bots. Até 2027, eles devem superar os humanos.
Em julho de 2025, o ChatGPT já processava 2,5 bilhões de perguntas por dia. O Google, que por duas décadas foi sinônimo de busca, enfrenta uma queda de 50% na capacidade de gerar cliques para links externos. Os usuários param na resposta do Modo IA e não clicam mais.
A escala de investimento acompanha a velocidade da mudança. Só em 2026, quatro empresas (Amazon, Microsoft, Meta e Alphabet) vão investir US$ 650 bilhões em desenvolvimento de IA. Para efeito de comparação, é o equivalente ao PIB da Suécia, uma das 20 maiores economias do mundo. Nunca houve tanta concentração de capital para moldar uma única tecnologia.
ONDE FICA O HUMANO?
Há, no entanto, quem enxergue nesse deslocamento não o fim do protagonismo humano, mas uma reconfiguração radical de papéis. Ian Beacraft, um dos consultores mais requisitados em futuro do trabalho, foi direto ao ponto em Austin: “a execução ficou barata. Um protótipo hoje custa menos tempo do que uma reunião para planejá-lo.”
A tese de Beacraft é que, em um mundo onde prototipar é instantâneo e a produção virou commodity, o diferencial humano migra para o julgamento, a capacidade de decidir o que vale fazer, para quem e por quê. O papel do profissional deixa de ser o de executor e passa a ser o de orquestrador.
O caso mais emblemático dessa transição é a Medvi, startup de telemedicina para medicamentos de emagrecimento. Fundada por Matthew Gallagher em Los Angeles, a empresa atingiu avaliação de US$ 1 bilhão em um ano e meio, com um único funcionário, o próprio fundador.

Mas a transição está longe de ser suave. Beacraft apresentou dados que deveriam acender alertas em qualquer comitê executivo: 95% dos projetos corporativos de IA estão falhando. O motivo não é tecnológico, é cultural. Empresas substituem funções por agentes sem redesenhar processos, incentivos ou governança.
A Klarna, fintech sueca que virou case global ao cortar 40% do time e substituir 700 funcionários por IA, é o exemplo mais eloquente. No primeiro ano, a eficiência de atendimento disparou. No segundo, a empresa começou a perder mercado para concorrentes e agora tenta recontratar parte do time que demitiu.
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O problema é que o bot respondia “não entendi, repita” até transferir para um humano, que ouvia a história toda de novo. Eficiência nos indicadores, fracasso na experiência.
O Fórum Econômico Mundial projeta que, até 2030, 92 milhões de empregos serão extintos, mas 170 milhões serão criados. A conta parece otimista diante das manchetes, já que, recentemente, a Oracle anunciou a demissão de 30 mil colaboradores. A pergunta que ninguém responde com precisão é: onde estão as 170 milhões de novas vagas?
ATROFIA COGNITIVA
As respostas também convergiram para um território incômodo. O que sobra é justamente aquilo que estamos atrofiando. Um estudo do MIT monitorou 36 áreas do cérebro de 56 voluntários enquanto usavam IA para realizar tarefas.
Todas as 36 áreas registraram queda de atividade. Mas o mais preocupante é que, uma hora depois de encerrado o uso, a capacidade cognitiva continuava reduzida.
Empresas substituem funções por agentes de IA sem redesenhar processos, incentivos ou governança.
A hipótese dos pesquisadores é de que o cérebro se desenvolve pelo atrito, pela tentativa. Terceirizar o raciocínio pode estar nos tornando menos capazes de pensar e de aprender.
Na Universidade Cornell, um experimento com estudantes divididos em três grupos tornou o fenômeno ainda mais tangível. O primeiro escreveu redações sem qualquer tecnologia. O segundo utilizou ferramentas de busca tradicionais. O terceiro contou com o apoio do ChatGPT.
Algum tempo depois, ao serem convidados a lembrar do conteúdo que haviam produzido, a diferença foi expressiva: 89% dos estudantes que não usaram IA conseguiram lembrar partes do texto, enquanto entre os que utilizaram esse número caiu para 12%.
DESCONEXÃO
Jennifer Wallace, jornalista da CBS e autora do livro "Mattering: The Secret to a Life of Deep Connection and Purpose", trouxe uma equação que resume o mal-estar contemporâneo: “se eu sou o que eu tenho, sempre vou precisar ter mais. Se eu sou o que eu faço, sempre vou precisar entregar mais. Se eu sou o que os outros pensam de mim, preciso ser perfeito.” É a fórmula, diz ela, para a infelicidade, o burnout e a solidão.
Os números sustentam a tese. As redes sociais nos colocaram para administrar, em média, 1,5 mil conexões, um número incompatível com qualquer capacidade humana de vínculo real.
O resultado é que 8% dos norte-americanos declaram não ter nenhum amigo próximo. Vinte por cento passam tempo significativo com amigos no máximo duas vezes por ano. Três em cada quatro pedidos de restaurante são para delivery: as pessoas não querem mais comer juntas.

A pesquisadora Kasley Killan foi categórica: “a saúde social é hoje o que a saúde mental era há 15 anos”, uma crise cada vez mais visível e prestes a explodir.
E a IA, paradoxalmente, está preenchendo esse vazio. Quarenta e nove por cento da geração Z já relatou ter tido algum tipo de “relacionamento” com uma inteligência artificial. Trinta e sete por cento acreditam que vão se apaixonar por uma. No Japão, uma mulher celebrou publicamente seu casamento com um assistente virtual.
A terceirização emocional em escala (validação, escuta, afeto) encontra nas máquinas uma oferta infinita de disponibilidade e zero fricção.
OUTRAS INTELIGÊNCIAS
O ser humano saiu do centro do desenho tecnológico. Mas duas palestras no SXSW sugeriram que talvez a pergunta errada seja “o que a tecnologia vai fazer por nós” e a certa seja outra, bem mais antiga.
Aza Raskin, cofundador do Earth Species Project, apresentou o que pode ser um dos usos mais perturbadores e ao mesmo tempo mais humildes da inteligência artificial: decodificar a linguagem de outras espécies.
“a execução ficou barata. Um protótipo hoje custa menos tempo do que uma reunião para planejá-lo.”
Ian Beacraft
Com modelos treinados em milhões de horas de vocalizações de baleias, pássaros e golfinhos, a equipe de Raskin começa a identificar padrões que sugerem sintaxe, contexto, até intenção.
O que a IA revela não é apenas que os animais se comunicam, mas que eles se comunicam com uma complexidade que os humanos, por séculos, não tinham ferramentas para ouvir.
A provocação de Raskin foi direta. Se estamos usando IA para nos tornar mais eficientes, talvez devêssemos usá-la também para nos tornar mais atentos. Há organismos que evoluíram por centenas de milhões de anos resolvendo problemas de sobrevivência, cooperação e adaptação.
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Talvez o caminho não seja apenas construir inteligências artificiais. Talvez seja, finalmente, aprender com as inteligências que sempre estiveram aqui.