A transformação digital está ultrapassando formatos e conceitos inescrupulosamente. São inúmeros os benefícios das mudanças em decorrência da era digital, mas precisamos estar cientes de que esta ainda não é uma realidade para todos. Uma das minhas missões é tentar desburocratizar todos esses “tecnologiquês”. Temos uma cultura de tornar a tecnologia inalcançável, mas tecnologia é você poder ler esse texto agora, do seu aparelho. É conversar com seu cliente pelas redes sociais. É usar uma planilha no computador para controlar o fluxo de caixa do seu negócio. É enviar uma proposta por e-mail. Robôs e drones são também inteligência artificial, mas não somente isso.

De uma maneira geral, a inovação tecnológica é pensada nos grandes centros e se pressupõe que o acesso é democrático, mas não é.  É necessário falar de um elemento básico que muitos ainda não têm e que, sem ele, é impossível manter-se no fluxo e acompanhar a revolução: a internet. Morei em Moçambique, em um local completamente sem acesso, sem CEP, onde para me conectar com o mundo precisava comprar dados por meio de um chip, em um modelo pré-pago.

No Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC), de 2018, mostrou que 25,3% da população não têm acesso à internet. Isso corresponde a 45,9 milhões de brasileiros à margem da sociedade, que não podem, por exemplo, vender seus produtos na esfera virtual para se manter durante a pandemia nas fases em que o comércio fica obrigatoriamente fechado. 

“Inovar é correr riscos, mesmo que controlados, mas essa inovação precisa ser pautada na diversidade”

Durante a quarentena, se evidenciou também o abismo social na educação do país. Em período de ensino domiciliar, familiares precisaram se tornar “professores”, aliados ao digital. Para quem tem ferramentas e diferentes aparelhos, já é um tanto difícil. Mas e aquela criança que precisa dividir o celular com mais quatro irmãos? A gente pressupõe que todo mundo tem acesso à internet, mas a realidade é muito desigual. 

Estamos em um período em que a forma de ensinar, aprender, comprar e vender está sendo revista. Eis que, do dia para noite, tivemos que nos reinventar tecnologicamente. Atendendo a inúmeros clientes nos últimos anos, percebi que os projetos mais bem-sucedidos iniciavam ouvindo as dores dos consumidores e pensando como a tecnologia poderia saná-las. As piores práticas estavam em empresas que entendiam que simplesmente criando um aplicativo – nem sei quantas vezes já ouvi isso – o problema estaria resolvido.

São inúmeras as ferramentas e soluções que só beneficiam pequenos grupos e não atingem aqueles que mais necessitam. Como exemplo, temos o aplicativo Caixa Tem, principal meio de acesso às informações referentes ao auxílio emergencial. Lá, os valores são disponibilizados, com escalonamento de transferências, como forma de evitar filas e aglomerações nas agências da Caixa e nas lotéricas. Uma das ferramentas disponíveis é a leitura do QR Code para realizar esses trâmites financeiros, e o banco ainda custeia a navegação no aplicativo, mesmo para os que não possuem plano de dados. O problema é que muitos não têm celulares com a funcionalidade do QR Code, muito menos memória para baixar um aplicativo, e mais, boa parte do público que a Caixa tenta atingir não possui computador – que dirá internet. 

Vejo uma evolução no entendimento sobre a necessidade de ser digital first, mas ainda há uma trava quanto a correr riscos e um bloqueio enorme quanto a compreender pessoas e diferentes contextos. Inovar é correr riscos, mesmo que controlados, planejados e pensados, mas essa inovação precisa ser pautada na diversidade em seus mais amplos aspectos. Existe uma oportunidade enorme das empresas se transformarem cultural, social e digitalmente neste momento. Eu impulsiono novos negócios e desenvolvo pipelines de longo prazo, trabalho diretamente com o marketing digital, mas reforço aqui que o principal agente de transformação é o capital humano. 

A tecnologia vai alçar voos cada vez maiores, permitir conexões em lugares inimagináveis, mas, ainda assim, a desigualdade não permitirá que essa revolução atinja a todos e precisamos estar atentos. A inclusão se dá por cada indivíduo que pensa fora da caixa, mas não apenas na criação de um novo app, site ou até mesmo um robô. É na democratização do acesso, imaginando quem poderá ser impactado positivamente, pensando à frente de seu tempo e completamente fora da bolha. É importante que não nos deixemos cegar pelos privilégios. E, para você, que está lendo este texto agora, do seu aparelho, com a sua internet, saiba que este é um privilégio.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Lisiane Lemos é advogada, cofundadora do Conselheira 101 e gerente de novos negócios para agências no Google.