O agronegócio e os ambientalistas sempre estiveram de lados opostos. De um lado, os ambientalistas usam como argumento o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que aponta a atividade agropecuária e o desmatamento como responsáveis por 20% das emissões dos gases de efeito estufa. Do outro, o setor produtivo se defende ao lembrar que a lei ambiental brasileira é uma das mais rigorosas do mundo e que não podem ser acusados de não preservar o meio ambiente, ainda mais em um momento em que o país tem sido chamado a produzir mais para abastecer a crescente demanda por alimentos do mundo.

O ponto é que ambos os lados têm suas razões. Podemos questionar os critérios e metodologias do IPCC, mas, assim como muitos outros índices, é o que temos e é o usado como referência mundial para medir as mudanças climáticas. Do lado produtivo, o código florestal brasileiro, é efetivamente um dos mais duros já criados, mesmo com seus pontos de melhora. Já imaginou ter uma casa de 100 metros quadrados e só poder fazer uso de 80% dela? É o que acontece com quem tem fazendas no bioma Amazônico.

“Para tentar fugir das acusações dos ambientalistas, muitas empresas resolveram trazer as discussões sobre o meio ambiente para dentro de casa.”

Para tentar fugir das acusações dos ambientalistas, muitas empresas resolveram trazer as discussões sobre o meio ambiente para dentro de casa. Entre os frigoríficos, os três grandes players anunciaram recentemente suas metas para zerar suas emissões. A discussão aqui é complexa e envolve uma série de variáveis, mas foi a primeira vez que uma ação nesse sentido foi tomada. No caso das tradings de grãos, a ideia é eliminar o desmatamento de sua cadeia, ou seja, comprar soja de quem não desmata. Não mesmo complexa, a estratégia é também ambiciosa, visto que no Brasil é possível desmatar e ainda assim cumprir a lei ao mesmo tempo.

Até agora, muito da discussão sobre o meio ambiente vinha ficando restrita à Amazônia. Mais recentemente, alguns ambientalistas iniciaram uma pressão sobre a produção no Cerrado, seguindo uma estratégia semelhante à adotada com a Amazônia. O Cerrado é outro importante bioma brasileiro e onde se localiza a maior parte da produção agropecuária do país. Restringir ainda mais a produção no Cerrado é limitar o aumento da produção de carnes e grãos no Brasil.

Para evitar que as discussões sobre o Cerrado cheguem aos níveis das alcançadas sobre a Amazônia, a Cargill lançou recentemente um programa para fomentar o desenvolvimento de tecnologias para se produzir soja livre de desmatamento. Com R$ 2,2 milhões aportados no Land Innovation Fund, um fundo internacional criado com aporte inicial da Cargill e sob gerenciamento da Chemonics International, e com a parceria estratégica da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), a ideia é estimular startups a criarem soluções que permitam uma produção sem desmatamento no Cerrado.

Seja por meio do anúncio de metas de zerar emissões, eliminar o desmatamento das cadeias de produção ou financiar o desenvolvimento tecnológico para se inovar na forma de produzir, o que está por traz de todas essas estratégias é o plano do setor privado de assumir as discussões sobre o meio ambiente. Na prática, as empresas não querem mais ser surpreendidas pelas ONGs com relatórios, documentos e afins.

Obviamente que o papel de monitoramento das ONGs continuará existindo, mas ele ocorrerá sobre as metas e compromissos assumidos pelas empresas e no tempo e nas formas estabelecidos pelas empresas. Há quem diga que os prazos são longos, as ações insuficientes e os métodos questionáveis. Mas, assim como qualquer índice, é o que existe agora e, até que nada melhor seja proposto, é o que será olhado de agora em diante.

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SOBRE O AUTOR

Alexandre Inacio é consultor, jornalista e atua no agronegócio há quase 20 anos