Apatia versus FOMO, medo de perder algo, na sigla em inglês. A maioria de nós fica dividida entre esses extremos diante do volume avassalador de novidades em nossas áreas de interesse. Quaisquer que sejam elas. A apatia é paralisante: como não vou dar conta de tudo mesmo, melhor começar mais uma série meia-boca na Netflix. A ansiedade do fear of missing out é estéril. Como dizia o visionário Adoniran, “nós FOMO e não encontremo ninguém” – sim, este colunista tem um fraco por trocadilhos e afins… É o FOMO que leva tantos de nós a, por exemplo, ir abrindo espaço na rotina diária a um número crescente de mídias sociais, de forma irrefletida. ClubHouse é a bola da vez. Marty Dickinson, americano que dá (boas) dicas de uso dessa plataforma de conversas em áudio, conta que tem na agenda: “6 AM – checar ClubHouse”.

Sugestão: trocar o FOMO pelo FOCO: Fazer O que o Coração Obriga. Vale dieta e exercícios, embora aí o cardiologista é que obrigue, mas me refiro a pôr na área eletiva da agenda aquilo que realmente faz sentido para nós. Temos muitos interesses, tem muita coisa bacana surgindo todo dia e é legal explorar, mas a proposta do FOCO é fazer (só) algumas coisas de cada vez.

“Faltaram escapadas defensivas. Que tendem a ser sacadas simples e adoráveis, como a do “Um CD no Almoço”. Qual a ideia? Ouvir (com atenção) um álbum inteiro na hora do almoço. Sem interrupções, sem checar e-mail e WhatsApp.”

Superestimamos o que podemos realizar num sprint (hackathons, virar a noite trabalhando ou estudando). Subestimamos o que podemos construir homeopaticamente (uma hora por dia de leitura, 20 minutos por dia de meditação). Ainda há quem acredite no multitasking, um tratamento sem eficácia comprovada, já devidamente desacreditado pela ciência neurológica.

O FOCO é uma ideia que brota na intersecção entre meus dois últimos livros, Rotinas Criativas e Aprendiz Ágil. Uma ideia ancorada no conceito de “escapadas”, respiros em nossas rotinas, projetados para manter a sanidade, pensar e aprender. Considere três variedades de respiros:

  • Escapadas defensivas (pausas para evitar o Burnout). Remeto aqui a meu texto anterior para esta coluna, em que fiz um chamado às armas contra a lógica do trabalho 24×7.
  • Escapadas criativas. Tempo para pensar, tempo para escrever, micro e macro retiros.
  • Escapadas educativas. Tempo para aprender, seja aprendizagem formal ou informal.

Quem me conhece ou me lê há mais tempo sabe que não sou guru. De nada. Nas últimas quatro semanas fui reprovado no meu teste MRMP (Monitoramento da Rotina pela Música Pop). É bem fácil de aplicar. Se você chegar à sexta-feira no mood “It’s Friday I’m in Love”, parabéns, passou no teste. Se, como tem sido meu caso, terminar a semana cantarolando “By Friday, Life Has Killed Me” (esta é do Morrissey, obscura, chama-se “I Have Forgiven Jesus”), está reprovado.

Faltaram escapadas defensivas. Que tendem a ser sacadas simples e adoráveis, como a do “Um CD no Almoço”, perfil no Instagram do jornalista e consultor de PR Mauricio Guedes, baixista da banda Os Esporádicos. Qual a ideia? Ouvir (com atenção) um álbum inteiro na hora do almoço. Sem interrupções, sem checar e-mail e WhatsApp. Escapada defensiva que tangibiliza o FOCO.

Espantar a apatia e trocar o FOMO pelo FOCO exige um exercício de design de rotina. Projetar os dias da forma mais engenhosa possível, para conciliar trabalho, demais obrigações e interesses, com escapadas devidamente agendadas. No meu design, elas estão concentradas nas manhãs. Nas semanas em que passo no MRMP, os dias começam às 5 da matina, com 20 minutos de meditação; uma hora de caminhada ouvindo o podcast “Ten Percent Happier”, do Dan Harris, e uma hora de leitura (tenho 20 livros numa lista, que não para de crescer, de obras sobre meditação e budismo, temas de aprendizagem intencional no momento). Às 8 em ponto, troco o sofá pela mesa e começo o “expediente”. O relevante aqui não é a receita. É o método.

Uma boa escapada educativa, por exemplo, demanda autoconsciência sobre como aprendemos melhor. No meu caso, sempre por meio da leitura – grifo furiosamente (seja no papel ou em e-book), tomo notas usando caderno e caneta ou lápis. Quase não absorvo conhecimento em vídeo. Pior: não tenho paciência para vídeos. Semanas atrás, um conhecido recomendou no Instagram um livro sobre design de rotinas. Diante do meu interesse, ofereceu: “te mando uns links de TED Talks dos autores”. Agradeci, mas prefiro baixar uma amostra no Kindle. De modo semelhante, podcast, para mim, serve mais para inspirar/entreter. Retenho pouco do que ouço.

De novo, o que importa não é a receita. É o método. Abaixo o FOMO. Viva o FOCO. Fora 24 x 7!

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Alexandre Teixeira é jornalista, escritor e cofundador da ODDDA – O Dia Depois De Amanhã.