Um futuro humano (e pela vida), em parceria com a IA

Fórum reúne comunidade global de empreendedores na Grécia para discutir democracia, economia e conexões humanas

futuro humano em parceria com a IA
Créditos: Ali Aksu/ Bartosz Kwitkowski/ Europeana/ Laura Cleffmann/ Unsplash

Carol Romano 5 minutos de leitura

Não demorou muito para perceber que aquele não seria apenas mais um evento sobre tendências, tecnologia e negócios. Afinal, quantas vezes você já viu mais de mil pessoas, vindas de 40 países, reunidas em Atenas para discutir inteligência artificial, democracia e o futuro da humanidade em um teatro estruturado como uma tragédia grega?

O World of Beautiful Business Forum 2026 chegou à sua edição mais simbólica celebrando os 10 anos da House of Beautiful Business, comunidade global que conecta negócios, filosofia e cultura para repensar o papel das empresas em meio à transformação tecnológica e às múltiplas crises do nosso tempo.

Durante quatro dias, empreendedores, pesquisadores, artistas, executivos e ativistas circularam entre diferentes espaços da cidade discutindo não apenas IA, mas também exaustão emocional, economia regenerativa, polarização, pertencimento e o enfraquecimento dos vínculos humanos.

Ao todo, mais de 150 vozes participaram da programação em torno de uma pergunta comum: como construir um futuro tão humano quanto tecnológico?

Embora distribuído em dezenas de trilhas simultâneas, o encontro tinha uma espécie de espinha dorsal narrativa construída em cinco atos, inspirados na estrutura clássica da tragédia grega.

Em momentos específicos, todos retornavam ao teatro principal para acompanhar uma reflexão coletiva sobre o momento civilizacional que atravessamos, como se o fórum inteiro estivesse tentando elaborar, em tempo real, os dilemas emocionais, políticos e culturais da era da inteligência artificial.

POLICRISE E O COLAPSO DA PROFUNDIDADE HUMANA

Os primeiros atos estabeleceram o pano de fundo do encontro: vivemos uma era de “policrise”, em que mudanças climáticas, polarização, ansiedade econômica, aceleração tecnológica e perda de confiança institucional deixaram de ser crises isoladas para se tornarem sintomas interligados de um mesmo sistema sob pressão.

O autor Luke Kemp alertou para uma nova concentração de poder baseada em tecnologia e dados: “quem controla o código controla a espada”. Já a filósofa Carissa Véliz comparou a IA ao novo Oráculo de Delfos e defendeu menos fascínio pelo futuro e mais responsabilidade ética no presente.

Leia mais: Ninguém prevê o futuro. Alguns leem o presente melhor

Ao longo das discussões, ficou evidente uma crítica comum ao modelo corporativo contemporâneo: passamos décadas otimizando eficiência, produtividade e escala enquanto desmontávamos profundidade humana, capacidade de reflexão e até a própria democracia.

Como resumiu o filósofo Roger Berkowitz, “a crise da política não é uma crise da verdade, mas uma crise da amizade”.

O TEATRO CORPORATIVO

O terceiro ato trouxe o momento mais simbólico do encontro: uma encenação fictícia de uma reunião de conselho de administração. Pressionados por queda de margem, acionistas e competição acelerada, executivos discutiam demitir metade da empresa e cortar investimentos em sustentabilidade. A sátira funcionava justamente porque parecia familiar demais.

A crítica mais potente surgiu na fala da consultora Zoe Scaman ao apresentar o conceito de “heartwood”, o núcleo vivo de conhecimento acumulado dentro das organizações.

World of Beautiful Business Forum 2026

Segundo ela, ao adotar os mesmos modelos de IA, os mesmos benchmarks e os mesmos processos analíticos, empresas começam a pensar de forma perigosamente parecida. “O risco não é apenas automação. É homogeneização cognitiva em escala”, afirmou.

Para provar seu ponto, Zoe convidou a plateia a pedir para qualquer IA escolher aleatoriamente um número entre 0 e 10. Faça o teste você também. Em boa parte das respostas, o número escolhido será 7.

O exercício simples revelava algo maior: quando treinamos sistemas com os mesmos padrões e referências, começamos também a reproduzir os mesmos caminhos mentais.

No fim da encenação, o conselho rejeitou os cortes e decidiu usar IA não para mascarar problemas estruturais, mas para enfrentar desafios reais do negócio. A mensagem era clara: não se constrói uma empresa saudável desmontando sua inteligência coletiva em nome do trimestre.

QUANDO A TECNOLOGIA REORGANIZA EMOÇÕES

O quarto ato mergulhou no impacto emocional da tecnologia. A etnógrafa Pamela Pavliscak descreveu como a IA já começa a reorganizar nossas emoções – da sensação de potência ao expandir ideias rapidamente junto às máquinas até a culpa por terceirizar criatividade e conversas pessoais, além do desconforto de fechar aplicativos de IA como se realmente houvesse alguém do outro lado.

A mesma tensão apareceu em uma demonstração artística em que uma música sobre luto e esperança foi criada instantaneamente a partir de um prompt. Embora tecnicamente impressionante, o resultado parecia emocionalmente vazio.

“a crise da política não é uma crise da verdade, mas uma crise da amizade.”

A questão deixou de ser apenas o que a IA consegue produzir e passou a ser o que acontece com a experiência humana quando terceirizamos criatividade, reflexão e presença.

Em outra sessão, a neurocientista Hannah Critchlow apresentou estudos sobre sincronização cerebral em grupos colaborando profundamente, reforçando a ideia de que talvez nossa maior vantagem evolutiva não esteja na inteligência individual, mas na capacidade coletiva de imaginar, cooperar e construir significado juntos.

FUTUROS POSSÍVEIS

O quinto ato abandonou previsões utópicas ou distópicas para defender uma visão mais incremental de futuro. Inspirados no conceito de “protopia”, de Kevin Kelly, participantes argumentaram que o futuro talvez não seja um destino perfeito nem um colapso inevitável, mas uma construção imperfeita, contínua e coletiva.

A fala mais provocadora veio do filósofo Bayo Akomolafe ao criticar a obsessão contemporânea por controle, eficiência e soluções definitivas. Para ele, talvez o maior erro da civilização moderna seja tentar “completar” o mundo o tempo inteiro, seja através da tecnologia, da política ou da economia.

O futuro, sugeriu ele, pode não pertencer aos sistemas mais eficientes, mas aos mais capazes de conviver com complexidade, incerteza e humanidade sem tentar eliminar tudo o que é imperfeito.

Leia mais: O que se previa para o futuro há 50 anos e o que se tornou (ou não) realidade

Dos muitos eventos de que participei nos últimos anos, este foi provavelmente o que mais convocou a minha esperança. Talvez porque, em meio a tantas discussões sobre IA e futuro, ele tenha conseguido mostrar que ainda é possível reunir pessoas para imaginar coletivamente um futuro tão humano quanto tecnológico.

No fim, o World of Beautiful Business pareceu menos um evento sobre tendências e mais um espaço de reconstrução de sentido, pertencimento e imaginação coletiva sobre o futuro que queremos preservar.


SOBRE A AUTORA

Carol é cofundadora da consultoria de inovação Futuro Co. É estrategista de negócios, especialista em cultura organizacional e futuro ... saiba mais