O corpo humano dá diversos sinais antes de entrar em colapso. Por exemplo, antes de um infarto, é comum ter dores no peito. Tonturas no decorrer do dia e dor na região frontal da cabeça são sintomas que surgem semanas antes de um AVC. Com a síndrome de burnout, não é diferente. Mesmo conhecendo os sinais que meu corpo particularmente dá, eu ignorei. Semanas antes minha cabeça começou a pulsar, por conta da enxaqueca por estresse diagnosticada há algum tempo. Meu corpo deu um sinal amarelo e eu não respeitei. Dei burnout com menos de 25 anos.

Ao contrário do que muitos pensam, a síndrome de burnout não é uma doença nova, fruto da globalização e das novas tecnologias do século XXI. Caracterizada por um desgaste que prejudica os aspectos físicos e emocionais, levando a um esgotamento profissional, a síndrome foi mencionada na literatura médica pela primeira vez em 1974, pelo psicólogo norte-americano Freudenberger. Segundo pesquisas realizadas pela International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), esse distúrbio acomete cerca de 33 milhões de brasileiros. São milhões de pessoas chegando ao seu nível máximo de esgotamento, muitas vezes sem se dar conta de que estão doentes.

Entender quais são os nossos limites físicos e psicológicos faz parte do processo de autoconhecimento. Muitos sintomas prévios de burnout são emocionais e se assemelham a um quadro depressivo. Desmotivação, irritabilidade, falta de concentração para completar tarefas. Esses quadros vão aumentando com o tempo e, se não tiver uma atenção com a saúde mental, você colapsa. É importante se atentar aos sinais de que a gente vai quebrar. Aprendemos com o mundo corporativo que paradas estratégicas fomentam a produção. Ou seja, há o tempo de iniciar e o de parar. No sentido reverso, aprendemos que a parada para cuidar da engrenagem mais valiosa, nossa mente, nos impulsiona a saltos mais precisos. O aprendizado mais importante é que você vem em primeiro lugar e desistir para se autopreservar é um sinal crítico de autoconhecimento.

É difícil ser perfeita o tempo todo. Tudo o que eu faço é observado e não posso errar. Se eu erro, maximizo e acho que vai ser muito mais impactante do que realmente é. Me preocupo com cada passo, porque nós, mulheres negras, somos as primeiras nesse lugar, está todo mundo olhando para nós. É uma carga injusta? É. Mas trazer para a consciência deixa a jornada mais fácil. A questão é que às vezes, quando erramos, outras não vão poder ocupar aquele espaço. Por isso, quando vi a primeira ginasta brasileira, entre homens e mulheres, a conquistar uma medalha de ouro em uma edição do Campeonato Mundial, Daiane dos Santos, gaúcha como eu, falando sobre a conquista de Rebeca Andrade, campeã olímpica que conquistou duas medalhas para nosso país, me identifiquei. “Durante muito tempo disseram que as pessoas negras não poderiam fazer nenhum esporte e a gente vê a primeira medalha olímpica do Brasil de uma menina negra”, disse. Sempre que eu falo que diversidade é chamar a gente para fazer o que nos faz feliz, é sobre isso. É sobre reescrever uma história que não nos permitiu estudar, não nos permitiu jogar, não nos permitiu trilhar nosso próprio caminho com plenitude. Rebeca é resultado da luta de Daiane e agora, muitas outras serão o legado de Rebeca.

É uma preocupação que as outras pessoas não têm, e provavelmente a ginasta Simone Biles e a tenista Naomi Osaka tiveram quando optaram por se colocar em primeiro lugar, trazendo luz para um assunto visto como tabu.  É esse cuidado com a saúde mental eu venho observando em profissionais de alta performance há tempos. Altamente disciplinados, para além da rotina intensa, eles buscam fazer coisas que tragam bem-estar no dia a dia, não somente terapia. A maioria se dedica a algum tipo de esporte como uma válvula de escape, porque têm uma grande energia que precisam dissipar, e essa é a razão que explica por que faço tanto. E quando o assunto é resultado, são consistentes. Não é um pico que acontece de vez em quando. E, além disso, mesmo tendo uma função de contribuidores individuais, conseguem extrair o melhor das pessoas que estão em volta deles. E isso sempre me marcou bastante. Eu considero que o atingimento de números, cotas, são sempre termômetros, mas o impacto que a gente causa no negócio e nas pessoas, é o que, para mim, faz com que o profissional seja de alta performance.

E para alcançar meu potencial máximo, eu tento seguir esses pontos. Mas também entendo que em um momento de quarentena, entender os altos e baixos que eu tenho como pessoa faz parte também dessa performance. Acredito que o nível de autoconhecimento de eu entender que eu não vou ser sempre 100%, que às vezes serei 98%, 97%, ou estabelecer um plano que seja estratégico, tático, colaborativo entre áreas, que consiga realmente trazer o resultado que a companhia traz, mas não a custo de tudo, é o que me faz ser essa profissional de alta performance. Eu tento nesse momento entender também o que é prioridade, fazer uma grande lista. E, antes de profissionais mega qualificados, somos pessoas. Precisamos nos priorizar como tais e, quando necessário, dar um passo atrás enquanto é tempo.

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SOBRE A AUTORA

Lisiane Lemos é advogada, cofundadora do Conselheira 101 e gerente de novos negócios para agências no Google.