Eu sei que você deve estar achando que houve um erro na idade, que era para ser 40 anos, porque é a partir dessa faixa que o mercado vem cada vez criando mais barreiras para contratação.

Mas não.

É isso mesmo: 70 anos.

Então? Contrataria?

Antes que você me dê os diversos, e bem ajustados motivos, quero que você conheça um pouco da história dessa pessoa que tem hoje 70 anos.

Nasceu em 1951, ainda sentindo os efeitos da Segunda Guerra Mundial e o começo da polarização entre os Estados Unidos e a então União Soviética.

Com seis anos viu os “russos” lançarem o Sputink 1, primeiro satélite a percorrer a órbita da Terra, evento que ampliou sobremaneira a preocupação americana quanto aos riscos de uma possível guerra e levou à criação do DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), onde foi criada, entre outros projetos voltados para a defesa e objetivos militares, a primeira rede de computadores que garantia a descentralização de informações estratégicas para que não fossem destruídas  em um ataque inimigo se permanecessem num único local.

Rede de computadores lembra alguma coisa? Tecnologia conhecida?

Da televisão incipiente, rádio, telefone e telégrafo, a vida dessa pessoa foi uma sucessão de inovações que desafiaram ao longo dos anos sua capacidade de aprendizado e adaptação: telex, computador pessoal, fax, floppy disquete, pager, palm, cd, cd-rom, pen drive, internet, tela azul, vírus, e-commerce, redes sociais, smartphone.

Com cada uma dessas inovações, uma curva de aprendizado e mais repertório.

Só como exemplo de como as histórias se repetem, quando a gente fala de dupla verificação hoje, com o fax o processo era similar. Com algum exagero, é claro.

Como a transmissão volta e meia dava problemas, ao fim de cada envio era preciso ligar para confirmar não só o recebimento, mas a clareza do recebimento. Dupla verificação, não era?

E acredite, esse aparelho, o fax, ficava ligado numa linha de telefone fixo. 

E era um sucesso.

Isso para ficarmos apenas na tecnologia do nosso dia a dia.

Na vida, de maneira mais ampla, as transformações, e até revoluções de verdade e não apenas como discurso bonito, se sucediam em velocidade e dimensões que no momento a gente nem percebia.

“Essa pessoa não pode ser objeto de exibição para mostrar como você e sua empresa são legais e alinhados com o zeitgeist”

Mas são experiências reais, vividas, sentidas, que estão guardadas para uso imediato se necessário na memória emocional. 

Para ficarmos apenas em algumas, essa pessoa de 70 anos, logo ali na década de 60 viu a crise dos mísseis entre Estados Unidos e URSS dar uma chacoalhada no Relógio do Apocalipse, criado em 1947 para acompanhar, simbolicamente, por conta das ações dos homens, o tempo que faltava para a destruição da Terra por uma guerra nuclear. 

Ao longo dos anos, o relógio vem sendo adiantado ou retardado dependendo do comportamento da humanidade. Só para constar, ao ser criado, marcava 7 minutos para o fim do mundo. Em 2020, 100 segundos.

Ainda na década de 60 viu o surgimento da contracultura se espalhar pelo mundo todo gerando não só revoluções e passeatas, mas novos comportamentos. 

É possível que essa pessoa de 70 anos tenha escrito um cartaz com algumas das frases da juventude de 68 em Paris: “corram camaradas, o velho mundo está atrás de você!”, “sejam realistas, exijam o impossível” ou a clássica “é proibido proibir”.  

Provavelmente, mais como inspiração para olhar para o dia seguinte e achar-se empoderado para mudar o mundo a sua volta. 

Aliás, empoderado foi outra inovação que aprendeu anos mais tarde.

Olhando fora de contexto, e com certa boa vontade, as frases de 68 podem circular ainda hoje em dias de maior emoção nas redes do momento.

E foi por aí, vendo o mundo mudar, vendo o Brasil mudar.

Não viu apenas o Brasil mudar, mas viveu o Brasil entrar e sair de modelos de governo.

Passar pelo Milagre Econômico, ou como queiram chamar, e atravessar com muito sacrifício, a década perdida de 80, quando num espaço de 10 anos até meados de 90, nos capacitamos para qualquer mudança econômica ao encararmos 6 planos econômicos.

E a exemplo do subprime de 2008, muitos deles tinham suas origens em crises em outros países com consequências para o mundo inteiro.

Aprendemos a conviver com mudanças repentinas, profundas, aparentemente sem solução.

Saímos de uma inflação de 86% ao mês, incrivelmente, para menos de 2% ao ano.

Vimos o mundo mudar várias vezes, o muro de Berlim cair, a URSS dar lugar a vários novos países.

Ouvimos que a história tinha acabado.

Mas cá estamos.

Essa pessoa de 70 anos poderia passar horas, dias, relatando suas histórias.

E não é isso que buscamos trazer para as marcas? Boas histórias que consigam tocar no emocional dos clientes e consumidores?

Talvez você continue achando que essa pessoa com 70 anos talvez não tenha espaço no seu negócio que tem como premissa a busca contínua da inovação, da ruptura, da transformação.

Transformação. É isso. Buscar novas soluções a partir de novos pontos de vista, novas e múltiplas vivências.

Não é essa a essência da diversidade como criadora de valor?

Acrescente esse olhar novo de quem já viveu mais.

A proposta que eu trago é olhar para o que a gente chama de 60 + e aproveitar o sinal matemático como inspiração e regra: soma.

É pela soma que vamos construir equipes mais poderosas.

É pela adição dos que já viveram mais com quem está começando que vamos encontrar soluções a um só tempo poderosas e resilientes.

Um ponto de atenção: se você está convencido de que deve contratar, não cometa um “age washing”, que eu nem sei se existe como termo, mas que é bem fácil de entender o significado.

Essa pessoa que você vai contratar, que tem mais idade, não pode ser objeto de exibição para mostrar como você e sua empresa são legais e alinhados com o zeitgeist.

Aproveite a experiência, o repertório, a competência, a vontade, a dedicação.

Enfim, me responda: você contrataria uma pessoa de 70 anos?

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Marco Antonio Souto é head de estratégia do Grupo Dreamers e ativista da causa do Idadismo.