O fato de eu trabalhar com pacientes em uso de Cannabis para fins medicinais me permitiu testemunhar muitas experiências relacionadas ao universo psicodélico. Não somente pelos relatos de pacientes sensíveis ao THC (tetrahidrocanabinol, a substância conhecida pelos efeitos psicoativos da Cannabis), mas por permitir que meus pacientes me relatassem as mais diversas histórias relacionadas às suas experiências com substâncias que podem alterar os padrões da consciência. A mente ao seu estado “natural” pode ser bastante desafiadora, principalmente se você carrega um vício, uma mágoa profunda, um trauma ou uma sensação de abandono. 

Os psicodélicos são uma série de compostos, princípios ativos, plantas, fungos e secreções animais que induzem estados alterados de consciência. O termo “psicodélico” é derivado das palavras gregas “psyche” (alma, mente) e “delein” (manifestar), entende-se então por “manifestação da mente”.

Embora o termo “alucinógeno” seja comumente usado na literatura científica, alguns autores consideram o termo pejorativo porque se refere a algo que é patológico, o que não é o efeito principal dessas drogas (ou seja, alucinações). Nesse sentido, a chamada experiência psíquica é “real” e não uma alucinação e, de fato, pode ter benefícios psicológicos se for conduzida de maneira adequada.

“As substâncias psicodélicas poderiam ser tratamentos mais rápidos, seguidos sempre de reeducação do estilo de vida e acompanhamento com uma infinidade de modalidades terapêuticas”

Diversos pacientes em uso de THC, por exemplo, referem não somente benefícios conhecidos na ansiedade, depressão, dor crônica e náuseas, mas uma maior compreensão de si mesmo, da situação negativa endereçada. Conseguem perdoar, a si e ao próximo. E ter mais empatia. Isso é tão verdadeiro que comecei a perguntar para todos os meus pacientes os motivos emocionais que os faziam utilizar o THC, ou outras substâncias cujo efeito principal é a alteração da percepção da realidade. A maioria, quando aprofundamos o assunto, refere relatos de eventos marcantes do passado, cujo uso dessas substâncias os ajudou no entendimento maior daquela situação considerada ruim. Ao entender melhor a situação, um sentimento de paz surge, ressignificando aquela experiência.

Qual é o valor desse tipo de tratamento, tão subjetivo, e inexplorado na medicina?

Com os avanços da química moderna, os princípios ativos de diferentes plantas psicodélicas foram isoladas. O primeiro composto isolado foi a mescalina, em 1897, do cacto peiote. Em 1938, o LSD foi sintetizado pela primeira vez pelo químico Albert Hofmann. Em 1955, o DMT foi identificado na Virola peregrina, e em 1958 Albert Hofmann isolou a psilocibina dos cogumelos Psilocybe. O isolamento da mescalina e a descoberta do LSD e da psilocibina inaugurou a era moderna da psicoterapia psicodélica na década de 1950. O paradigma de administração de altas doses para induzir experiências espirituais foi denominado paradigma “psicodélico”. Esse método era predominante nos Estados Unidos e era usado para todos os tipos de doenças e distúrbios psicológicos, principalmente depressão, transtornos obsessivo-compulsivos, ansiedade e depressão em doenças do fim da vida, dor por câncer e dependência de drogas, entre outros.

A pesquisa científica com psicodélicos foi interrompida por algumas décadas por motivos técnicos e políticos mas, no início da década de 1990, a pesquisa psicoterapêutica e neurofarmacológica com essas drogas começou novamente, no que alguns autores chamaram de “Renascimento psicodélico”. Desde então, vários estudos foram conduzidos, e os principais compostos atualmente investigados são LSD, psilocibina e ayahuasca / DMT para o tratamento de transtornos depressivos, de ansiedade e dependência de drogas.

A suposição geral é que os psicodélicos aumentam o processo psicoterapêutico em vez de ter propriedades terapêuticas intrínsecas, embora existam alguns mecanismos biológicos de ação que podem explicar suas propriedades terapêuticas e, em particular, seus efeitos antidepressivos. 

Esses efeitos precisam ser confirmados em estudos maiores e comparados aos tratamentos padrões, mas a psicoterapia apoiada em psicodélicos já nasceu com um mercado avaliado em US$ 100 bilhões anuais.

Esse número é enorme, pois as doenças mentais são umas das maiores epidemias da vida moderna, assim como o estresse e a obesidade, que estão silenciosamente adoecendo a sociedade.

As substâncias psicodélicas então poderiam ser tratamentos mais rápidos, seguidos sempre de reeducação do estilo de vida e acompanhamento com uma infinidade de modalidades terapêuticas. Uma vez que sabemos que nossos hábitos se relacionam diretamente com quem somos e nos expressamos, podemos utilizar ferramentas para mudar aquilo que se faz necessário.

A medicina está caminhando rapidamente em direção a tratamentos mais eficazes e com menos efeitos colaterais e os tratamentos com essas substâncias estão ganhando cada vez mais atenção, em parte devido à necessidade de tratamentos inovadores em psiquiatria, onde ainda a recorrência é maior que a cura.

Uma das grandes diferenças no tratamento com essas substâncias psicodélicas é que tudo indica que não há necessidade de utilizá-las diariamente para se obter uma boa resposta terapêutica a longo prazo, o que pode significar uma grande revolução na forma como conduzimos os tratamentos psiquiátricos.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Paula Dall’Stella é médica e fundadora da Sativa Global Education e integra a equipe do Núcleo de Cannabis medicinal do Hospital Sírio Libanês. Em seu podcast, New Normal, ela fala sobre o uso terapêutico da Cannabis.