Você sabe descansar?

Crédito: Fast Company Brasil

Cristina Naumovs 2 minutos de leitura

Aliás, você sabe dormir? Eu não sei dormir. Levei anos e um casamento para entender que precisava me preparar para dormir. Eu só deitava e não dormia.

Sempre achei graça de falar disso, que eu cochilo, mas não durmo.

Pela primeira vez, desde que comecei a trabalhar, aos 13 anos (meu primeiro “emprego” foi distribuir folheto no semáforo de empreendimentos imobiliários), me vejo capaz de escolher que trabalhos quero fazer. Isso aos 45 anos. E isso é um baita privilégio, eu sei. De alguma maneira, posso fazer isso hoje.

Sei escolher trabalhos, mas não sei descansar. E nem dormir direito.

Que barulhão tem na nossa cabeça que faz com que a gente aumente o volume do lado de fora para disfarçar?

Mesmo exausta e com horas livres, me vejo querendo ocupar tudo. Não sei só deitar e relaxar. Alguém sabe fazer isso?

Sempre me pareceu coisa de monge tibetano essa capacidade de “não fazer nada”. Eu ocupo o tempo, ouço música, rolo um feed eterno em aplicativo, vou atrás de exposições, vejo séries, encontro amigos. Mas não sei ficar sozinha com a minha cabeça. E pergunto de novo: alguém sabe fazer isso? Nossa geração sabe não fazer nada?

Por que a gente perdeu essa capacidade? E digo “a gente” porque não quero me sentir sozinha nesse lugar. Que barulhão tem na nossa cabeça que faz com que a gente aumente o volume do lado de fora para disfarçar?

Estou tentando entender isso em mim há muitos anos na análise, no candomblé (religião que afino, mas não me considero praticante), no mapa astral, mas não achei essa resposta. Seja em São Paulo ou numa ilha em Angra dos Reis, de onde escrevo essa coluna, onde vim, teoricamente, fazer nada por quatro dias.

Você não tem medo de a sua cabeça, um dia, parar, do nada? Eu tenho.

Muita gente fala dos teóricos, de sociedade do cansaço, do excesso de coisas que acessamos hoje em dia, que a cabeça não para. Você não tem medo de a sua cabeça, um dia, parar, do nada? Eu tenho.

Aliás, tenho dois medos na vida: minha cabeça parar e o que eu chamo de delírio persecutório de pobreza, que é meu medo de ter problemas de grana na velhice. Tenho outros milhares de medos, claro, mas esses dois são os mais persistentes.

Será que é por isso que nunca não faço nada? Que tenho dois grandes medos antagônicos? Mas pera, eles são opostos? Eu não sei responder essa pergunta.

Minha vontade hoje é conseguir aliar meus medos todos com uma boa noite de sono ou horas de frente para o mar, sem nada por perto. Vou ali tentar fazer nada ou dormir. Até já.


SOBRE A AUTORA

Cristina Naumovs é consultora de criatividade e inovação para marcas como Ambev, Doritos e Havaianas, entre outras. Tem passagens pela... saiba mais