Antes da pandemia, em 2019, o Instituto Locomotiva contabilizou 45 milhões de brasileiros desbancarizados, responsáveis pela movimentação de cerca de R$ 900 bilhões. Esse público já estava na mira dos grandes bancos e de algumas fintechs, mas, ao longo de 2020 houve uma aceleração de produtos voltados para o segmento, provocada pelo isolamento social (que intensificou a necessidade do acesso digital a serviços bancários) e a distribuição de auxílio emergencial.

A Caixa, banco que distribuiu o auxílio emergencial à população, ampliou as funções do app Caixa Tem e passou a oferecer microcrédito e microseguro. Neste ano, o Bradesco lançou uma carteira digital com foco em sub e desbancarizados, enquanto a iti, conta digital do Itaú, dobrou o número de clientes de 3 milhões para 6 milhões entre dezembro e o final de abril – a expansão foi impulsionada, em parte, pela chegada do Pix.

No ano passado, uma pesquisa realizada pela Americas Market Intelligence em parceria com a Mastercard apontou que o número de brasileiros que não possuem contas em bancos e fintechs caiu 73% entre maio e outubro de 2020. O estudo mostrou que, em maio, menos de 5% das transações eram feitas online e 35% eram de saque. Em agosto, as transações realizadas por apps chegaram a 63% e os saques recuaram 15%.

Diante de tanta movimentação nessa fatia nada modesta do setor, as fintechs não ficaram indiferentes. Por meio da combinação entre tecnologia e conhecimento in loco, algumas das startups do segmento têm como missão não somente simplificar o acesso da população desbancarizada a serviços financeiros, mas também garantir eficiência e estabelecer relações de confiança com o consumidor.

EFICIÊNCIA
“Bancarizar não é só digitalizar”, afirma Felipe Felix, CEO do will bank, fintech em atividade desde 2017 e que cresceu 70% em 2020 em relação a 2019. O objetivo da empresa é atender às necessidades não somente dos desbancarizados, mas das pessoas que não podem arcar com as taxas médias cobradas por private labels e cartões de crédito – 20% e 13% ao mês, respectivamente. “Segundo o Banco Central, 70 milhões não têm acesso a crédito no país”, comenta Felix. De 2017 para cá, o will bank emitiu mais de 1,6 milhões de cartões que transacionaram R$ 4,5 milhões no ano passado. Quase metade do público da fintech (40%) não tinha cartão de crédito e 60% deles estão no Nordeste do país. O produto oferecido pela startup é resultado de repetidas visitas a locais como Feira de Santana, na Bahia, onde observaram e conversaram com os locais para entender suas necessidades. “Muito se fala sobre a falta de educação financeira das pessoas no país. Mas será que quando você ganha R$ 600 morando no interior do Rio Grande do Norte, consegue pagar escola para seus filhos e tomar cerveja no final de semana, te falta educação financeira? Não necessariamente. É mais uma questão sobre como produtos não são criados para ajudar a vida dessas pessoas, mas para fazer com que essas pessoas se encaixem nos produtos. A gente começou a ver que não adiantava explicar o que era CDI, LCA”, explica Daniel Feitoza, CMO do will.

Cartões do will bank (Crédito: Divulgação)

Eficiência financeira também foi a tônica para o Impact Bank. Antes de fundar a startup, Gabriel Ribenboim montou a Welight, empresa da qual é CEO, voltada para a captação e gestão de financiamento de ONGs. Por meio dessa atuação, ele começou a pensar em como aproveitar melhor o recurso do fundo filantrópico por meio de repasses e pagamentos mais eficientes, que beneficiassem as pessoas por trás das ONGs. “A ONG está no centro para atingir esferas de negócio, cooperativas, associações e numa outra esfera, estão as pessoas, tanto as cooperadas quanto os colaboradores. Nosso foco é falar com as organizações e estruturar o processo com as pessoas físicas”, explica. Na prática, o Impact Bank oferece serviços bancários online para pessoa física e jurídica por meio de três pacotes mensais: mensalidade grátis, o básico, que custa R$ 15 e o premium, a R$ 26 (pessoa jurídica há mensalidade gratuita, básico de R$ 29 e premium de R$ 40).

O banco conta ainda com um Fundo de Transformação para o qual são destinados R$ 0,10 das transações realizadas pelas maquininhas do Impact Bank. As arrecadações são utilizadas para apoiar iniciativas com foco nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

CONFIANÇA
Assim como o Impact Bank, a Elleve finca um pé na filantropia, porém em outra área: a do crédito educacional. Mirando em estudantes das classes C e D, a fintech, que recebeu aporte de R$ 28 milhões em abril, utiliza inteligência artificial para fazer a análise financeira dos alunos. A proposta é conceder crédito a estudantes negativados ou sem nenhum histórico de crédito para que possam fazer cursos profissionalizantes e técnicos. “Queremos viabilizar o acesso ao mercado de trabalho por meio da educação especializada. Entendemos que independentemente do nível técnico necessário para qualquer função, cabe a especialização”, explica André Dratovsky, fundador da Elleve. Para isso, a empresa tem programas de financiamento junto a instituições de ensino como Impacta, Mentorama, Be Academy e 4ED. As taxas vaiam de 0% a 1,99% ao mês, permitindo que o aluno conclua o curso que as escolas reduzam os índices de evasão, além de captar mais estudantes. A expectativa da empresa é encerrar o primeiro ano de operação impactando seis mil estudantes e espera chegar a mais de 30 mil em 2022.

Dentre a série de análises de dados realizada pela fintech está a análise comportamental do estudante e a previsão de pagamento quando ele se formar. “A gente quer ter uma relação próxima com o aluno, apostando que ele vai ter sucesso e conseguir honrar o pagamento, simplesmente porque eu conheci a pessoa e entendi o propósito dela”, diz Dratovsky.

LUCRO X PROPÓSITO
Para Ribenboim, do Impact Bank, ainda é mais difícil para empresas grandes mudarem o mindset para um olhar mais próximo do desenvolvimento social atrelado ao lucro, mas que é algo que vem mudando com gerações e tendências. “Porém, é mais fácil criar uma empresa nova do que converter uma grande empresa e ter mudanças”, afirma.

Feitoza, do will bank, observa que, assim como várias outras indústrias, a descentralização do mercado financeiro era inevitável. Com qualquer outro bem de consumo ou serviço, o consumidor passou a exigir mais da experiência ofertada, afirma ele. “As buscas deixam de ser massificadas para serem específicas. Os bancos digitais vêm para atender grupos específicos de pessoas mal assistidas e insatisfeitas com as experiências que vinham tendo nesse segmento.”

Dratovsky também enxerga na especialização das fintechs a possibilidade de entregar condições mais atrativas para o consumidor final. “O mercado de fintechs tende a se especializar”, diz. No entanto, apesar de concordar que mudanças envolvem movimentações complexas para os bancos grandes, a associação com starturps é um bom caminho para que esses players captem inteligências específicas, em vez de construir internamente alguma capacidade muito nichada.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.