Há pouco mais de um ano, a casa ganhou uma nova função. O que para muitos era apenas um lugar de repouso – em alguns casos só para dormir mesmo, depois de um dia de trabalho, academia, socialização com os amigos e outras mil atividades realizadas na rua – transformou-se no local onde tudo acontece. Além do descanso, a casa também se tornou o local para trabalhar, estudar e se divertir. O trabalho remoto chegou com tudo e veio para ficar. Pelo menos para uma parte das pessoas. Ou uma parte do tempo, alternando jornadas presenciais e online.

O trabalho em casa está provocando muitas mudanças domésticas, como a necessidade de mobília apropriada, privacidade para cada integrante da família e a necessidade de uma melhor divisão entre a vida profissional e pessoal. O home office também está transformando as cidades e criando novas centralidades. Bairros exclusivamente residenciais começam a se se tornar mais mistos, com comércio e serviços para atender a uma clientela que antes passava o dia fora de casa, em outras regiões da cidade.

“Trabalhando em casa, as pessoas são mais propensas a comprar na vizinhança do que nos grandes centros comerciais ou supermercados”

O primeiro impacto foi o esvaziamento dos edifícios corporativos. A vacância nos prédios comerciais de alto padrão em São Paulo passou de 13,6% no primeiro trimestre de 2020 para 22,4% no fim do ano, segundo dados da JLL, empresa de consultoria imobiliária. Na região da Avenida Chucri Zaidan, em São Paulo, uma área eminentemente de escritórios, a situação é ainda pior: mais de um terço (34,5%, para ser exato) dos espaços corporativos estão vazios, de acordo com um relatório da consultoria Cushman & Wakefield.

Mas isso não quer dizer que as empresas instaladas nesses bairros estejam em dificuldades. Pelo contrário. Boa parte delas, especialmente no setor financeiro e de tecnologia, até aumentaram suas equipes, perfeitamente adaptadas ao home office. O que não está bem é a economia da região, construída em torno das milhares de pessoas que transitavam por ali todos os dias, em almoços de negócios, cafés de networking ou happy hours com os colegas.

O fechamento do Octávio Café, um badalado ponto de encontro de negócios na avenida Brigadeiro Faria Lima, ainda em julho do ano passado, é um símbolo dessa transformação. Mas não o único. Restaurantes que antes da pandemia tinham filas na hora do almoço nem precisaram se esforçar para reduzir a capacidade do salão ou o distanciamento entre os clientes. Outros já fecharam. O mesmo aconteceu no Centro Histórico de São Paulo, onde estão bancos, a Bolsa de Valores e órgãos de governo e do Judiciário. Muitos restaurantes e cafés não resistiram à queda do movimento e já fecharam em definitivo.

Apesar do ritmo lento de vacinação no Brasil, já podemos olhar para outros países e dizer que, com certeza, a pandemia vai passar. Mesmo que demore alguns meses, em algum momento a vida vai voltar ao normal. Mas algumas mudanças vieram para ficar.

Graças às novas tecnologias, uma parte dos profissionais vai continuar atuando de casa. Em 2018, o IBGE estimava que 3,8 milhões de pessoas trabalhavam de forma remota no Brasil. Em novembro de 2020, último dado disponível, o número era quase o dobro: 7,3 milhões, o equivalente a 9,1% das pessoas ocupadas no país. E, fruto da desigualdade de renda no país, essa parcela respondeu por 17,4% da massa de rendimentos daquele mês.

Ou seja, o trabalho remoto não é para todo mundo. Ainda assim, a capacidade de provocar transformações no meio urbano é grande. O Ipea estima que 22,7% dos empregos poderiam ser realizados a distância no país. No Estado de São Paulo o potencial é ainda maior, de 27,7%.

Se os bairros corporativos perdem dinamismo com o esvaziamento dos escritórios, o oposto ocorre nos bairros residenciais. Trabalhando em casa, as pessoas são mais propensas a comprar na vizinhança do que nos grandes centros comerciais ou supermercados. O instituto de pesquisa Kantar já observa os efeitos no deslocamento do consumo em várias pesquisas sobre mudança de hábitos. Em uma delas, realizada em junho de 2020, consumidores brasileiros diziam que a proximidade de casa era um fator determinante para escolher o supermercado. O relatório “Aprendizados do Consumer Insights sobre a América Latina”, de fevereiro deste ano, mostra que, depois do e-commerce, que explodiu em 2020, os estabelecimentos que mais cresceram são os minimercados e os atacados. Também surgiram pequenas lojas de conveniência dentro de condomínios. Para os consumidores de renda média e alta, a proximidade se tornou o fator principal na decisão do local de compra. Tendência que deve continuar, na projeção da consultoria.

O mesmo acontece com os restaurantes. A Abrasel, associação de bares e restaurantes, embora não tenha dados fechados, também verificou, em grandes cidades brasileiras, um movimento de migração do consumo dos restaurantes de regiões centrais para os bairros. Uma pesquisa da Sodexo em meados do ano passado comprova: enquanto o uso de vale refeição aumentou 67% na Vila Mascote, um bairro residencial mais periférico de São Paulo, caiu 89% na Vila Olímpia, região nobre da cidade com grande concentração de empresas de tecnologia e finanças.

O relatório A Casa e a Cidade, elaborado pela plataforma A Vida no Centro em setembro do ano passado, já mostrava essa tendência: 56% diziam preferir o comércio local. Sobre o home office, 41,3% queriam trabalhar parte do tempo na empresa e parte em casa e 16,2% gostariam de continuar atuando de casa. Pesquisa do Grupo Zap também mostra que 65% gostariam de viver em um bairro com mais comércios e serviços.

São dados apontam para uma mudança na lógica que moldou as cidades brasileiras nas últimas décadas. Até pouco tempo atrás, bairro nobre era bairro residencial. Agora, cada vez mais as pessoas começam a perceber que a compartimentação da vida não funciona. É o começo de uma grande transformação, com o potencial de criação de bairros onde realmente a vida acontece em toda a sua plenitude.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Denize Bacoccina é jornalista, cofundadora da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital, redes sociais e faz estudos de cenários futuros. Atuou em redações como O Estado de S. Paulo, BBC e Istoé Dinheiro e foi correspondente em Londres e Washington.