Quando a cópia feita por IA tem mais views que o criador original

Vídeos gerados por inteligência artificial reproduzem o trabalho de influenciadores, conquistam milhões de visualizações e levantam dúvidas sobre direitos autorais e remuneração.

Ilustração de homem olhando para o celular, ao lado de uma escultura clássica e ícones de curtidas, sobre fundo abstrato azul e roxo.
créditos: magnific.com

María José Gutierrez Chavez 6 minutos de leitura
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Descendo uma escadaria em estilo Tudor, coberta por um tapete vermelho, um homem ruivo de cabelo chanel dança enquanto equilibra uma delicada xícara de chá. Ele parece estar se divertindo quando uma mulher sorridente entra em cena e se junta à coreografia.

Em outro vídeo, o mesmo personagem, conhecido como Duke of Ashcombe, dança à beira-mar, com o vento soprando e a mesma xícara branca nas mãos. A legenda começa com uma saudação aos usuários que passam pelo feed.

Apesar de todo o cuidado na criação desse personagem, há um problema: os vídeos são praticamente réplicas, geradas por inteligência artificial, de conteúdos publicados por Kjetil Krogstad, criador de conteúdo e palestrante que faz sucesso no Instagram.

Desde que começou a publicar seus vídeos, há cinco anos, Krogstad conquistou 1,9 milhão de seguidores somando diferentes plataformas. Seu estilo é bastante reconhecível: ele costuma dançar vestido com um terno escuro, camisa branca e gravata vermelha, segurando uma xícara e um pires. O acessório faz referência à expressão spill the tea, usada na internet quando alguém vai contar uma fofoca.

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“Já tive pessoas recriando meu trabalho e adoro isso. Acho incrível”, conta Krogstad à Fast Company. “Mas, de repente, aparece um ‘criador’ muito diferente roubando meus vídeos e transformando tudo em vídeos de IA. Acho isso muito estranho.”

Recentemente, ele manifestou sua insatisfação nas redes sociais. Publicou dois vídeos colocando suas gravações originais lado a lado com as versões produzidas por IA e fez uma pergunta: “Quando é inspiração? E quando é roubo?”

A reação foi intensa. Juntas, as duas publicações ultrapassaram um milhão de visualizações, com a maioria dos comentários concordando que as cópias representavam uma forma de apropriação indevida do trabalho.

“Isso é roubo e é conteúdo lixo feito por IA”, escreveu um usuário do Instagram.

Outro comentou: “É muito revoltante. Precisamos fazer alguma coisa a respeito. Não é aceitável que alguém continue se aproveitando do trabalho e da criatividade de outra pessoa sem permissão ou o devido crédito.”

QUANDO A CÓPIA FAZ MAIS SUCESSO QUE O ORIGINAL

A conta Duke of Ashcombe já não aparece nas buscas do Instagram. É possível que o responsável tenha tornado o perfil privado ou que ele tenha sido removido após denúncias de seguidores de Krogstad.

Mas o problema está longe de ser um caso isolado. O uso de inteligência artificial para reproduzir o estilo e o conteúdo de outros criadores está se espalhando pelas plataformas.

Outro influenciador, conhecido por gravar vídeos cantando debaixo de um ventilador de teto enquanto a câmera gira ao seu redor, relatou uma experiência semelhante.

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Ao compartilhar uma cópia de seu vídeo produzida por IA, escreveu: “Não é a primeira vez que meus vídeos são usados como base, mas é a primeira vez que minha casa aparece sem nenhuma alteração.”

Ele acrescentou: “Imagine se seu parceiro ou parceira visse um vídeo de outro homem ou mulher dentro da sua casa. Perturbador, não?”

No primeiro semestre de 2026, Krogstad também encontrou uma série de vídeos gerados por IA em que coelhos reproduziam suas coreografias. Nesse caso, as cópias tinham mais visualizações que seus próprios vídeos.

“O que pode acontecer, se deixarmos isso continuar, é que o criador original acabe parecendo ser aquele que está copiando”, afirma.

A descoberta mais estranha, porém, veio quando Krogstad começou a investigar o motivo da multiplicação dessas contas.

Segundo ele, alguns dos perfis parecem utilizar os vídeos copiados para vender cursos que ensinam outras pessoas a reproduzir conteúdos de terceiros usando inteligência artificial e lucrar com isso.

postagem de Ellie Frazier no TikTok
Créditos: Ellie Frazier/ Tiktok / Andrey Matveev/ Unsplash

“Eu pensei: vocês estão falando sério?”, conta. “Estão usando meus vídeos e os de outros criadores, que nós produzimos, para lucrar vendendo aulas em que as pessoas aprendem a continuar roubando conteúdo?”

A prática também começa a aparecer fora das contas dedicadas a publicar vídeos gerados por IA.

O videoclipe Shroom Clouds, do rapper A$AP Rocky, chamou a atenção de usuários que apontaram uma possível reprodução, por inteligência artificial, de uma sequência criada por outro artista em 2019.

O vídeo original mostrava uma pessoa saltando sobre a grama, com um efeito caleidoscópico produzido por uma câmera de 360 graus.

O criador da sequência se manifestou no Instagram após a repercussão. “A notícia está realmente se espalhando. Orgulhoso da comunidade criativa por se posicionar”, escreveu.

A Fast Company procurou A$AP Rocky para comentar o caso.

A LEI CONSEGUE PROTEGER OS CRIADORES?

À medida que os casos se multiplicam, a legislação parece ter dificuldades para acompanhar a tecnologia.

As leis de direitos autorais já protegem obras criativas originais, mas os limites são menos claros quando se trata de vídeos gerados por IA que reproduzem elementos do trabalho de outra pessoa.

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“O principal desafio para a indústria neste momento é que a tecnologia de IA está avançando mais rapidamente do que o arcabouço jurídico que a regula”, explica Joe Bogdan, especialista em propriedade intelectual e sócio do escritório de advocacia Rimon Law, à Fast Company.

“Isso significa que os criadores estarão cada vez mais sujeitos ao uso e à exploração não autorizados de seu trabalho e, talvez, até de suas identidades, enquanto os limites da proteção jurídica permanecem incertos.”

Mesmo que as leis americanas avancem, elas não necessariamente oferecerão proteção a criadores de outros países. Por isso, parte dos usuários cobra regras mais claras das próprias plataformas.

As diretrizes da Meta, controladora do Instagram, também deixam dúvidas. A empresa define conteúdos que podem receber proteção autoral como aqueles criados pelo próprio autor e que apresentam um grau mínimo de criatividade.

Mas as regras não detalham especificamente o uso da inteligência artificial para reproduzir o trabalho de outros criadores. Em vez disso, orientam os usuários a denunciar conteúdos que possam violar seus direitos.

Krogstad afirma que tentou entrar em contato com o Instagram repetidas vezes, sem sucesso. Ele chegou a enviar perguntas para as sessões semanais de perguntas e respostas realizadas por Adam Mosseri, responsável pela plataforma.

“Acho que já perdi a conta de quantas vezes tentei perguntar como identificar esses bots de IA e como reconhecer os vídeos gerados por inteligência artificial”, diz.

Depois de sua publicação mais recente, um representante do TikTok entrou em contato para reunir informações sobre o problema, que também ocorre em outras plataformas, e tentar encontrar uma solução.

Procurada pela Fast Company, a Meta não quis comentar.

Enquanto aguardam respostas, os criadores tentam chamar a atenção para as consequências mais amplas dessas reproduções.

“Alguém me escreveu dizendo que estamos vendo isso acontecer com criadores, artistas e pessoas que trabalham com arte, mas que também está acontecendo nas universidades, com estudantes e até com políticos”, conta Krogstad.

“Muita gente está tendo seu conteúdo roubado e utilizado por outros. Não acontece só com criadores nas redes sociais. Está acontecendo em toda parte.”


SOBRE A AUTORA

María José Gutierrez Chavez é editora associada da Inc. e da Fast Company. Antes de ingressar na Mansueto Ventures, estagiou no The Bo... saiba mais