Cortes de vídeo x hashtags: o debate entre Lula e Flávio nos canais do WhatsApp

Fast Company Brasil acompanhou 247 mensagens em canais de apoio aos candidatos durante o debate da Band e identificou diferentes estratégias para ampliar a circulação de conteúdos nas redes sociais

Ilustração sobre a mobilização digital em aplicativos de mensagens durante as eleições brasileiras de 2026.
Créditos: Prostock-studio via Adobe Stock / Dima Solomin, TopSphere Media via Unsplash

Isabella Lura 9 minutos de leitura
Favoritar no Google

Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentavam no debate da Band, no domingo (18), outra disputa acontecia no WhatsApp. Em canais de apoio aos dois candidatos, vídeos, fotos, hashtags e instruções eram compartilhados em tempo real para levar o confronto televisivo às redes sociais.

A Fast Company Brasil acompanhou, desde a tarde de domingo (18) até o encerramento do debate da Band, a movimentação de dois canais de WhatsApp de apoio aos candidatos: Tropa do Flávio e Exército do Lula. Nesse intervalo, foram contabilizadas 247 mensagens: 68 no primeiro e 179 no segundo. A análise considerou os conteúdos publicados, as orientações aos seguidores e os registros de reações e encaminhamentos.

Os registros revelam diferenças na organização das ações. Na Tropa do Flávio, canal de WhatsApp de 2,07 milhões de pessoas, a mobilização se concentrava na distribuição rápida de cortes de vídeo do debate, muitas vezes com diferentes edições do mesmo trecho.

Já no Exército do Lula, que tem 7,18 milhões de seguidores, os participantes recebiam orientações mais detalhadas sobre quais hashtags usar, quais vídeos priorizar e como interagir com publicações de outras pessoas.

Os dois canais também incentivaram seguidores a pesquisar termos relacionados aos adversários no Google, em uma tentativa de ampliar a visibilidade de determinados assuntos nos mecanismos de busca. A movimentação mostra duas formas diferentes de se fazer uma mobilização digital.

TROPA DO FLÁVIO: VÍDEOS PARA COMPARTILHAR

No canal ligado a Flávio Bolsonaro, predominavam vídeos curtos com trechos das falas do senador, editados para circular dentro e fora do WhatsApp. Os “cortes” são vídeos curtos, de até um minuto, feitos para serem compartilhados em redes sociais como o Instagram, o YouTube Shorts e o TikTok. Uma forma de estar presente em quatro das cinco redes mais utilizadas no Brasil.

Leia também: O feed virou palanque: como as redes sociais estão mudando a campanha eleitoral

Alguns dos vídeos contavam com efeitos especiais e trilhas sonoras dramáticas, típicas da linguagem do TikTok, especificamente. Dados mais recentes do TikTok mostram que o Brasil tem 134 milhões de usuários mensais do aplicativo. Diferente da Meta, o aplicativo chinês não libera o pagamento de propaganda impulsionada por parte de candidatos políticos.

Os vídeos do debate, no entanto, entram como notícias quentes ou vídeos opinativos.

No grupo, a mobilização começou antes do confronto da Band. Às 18h38, o influenciador Pablo Marçal publicou um vídeo ao lado do senador, dizendo que estava a caminho do debate e orientando os integrantes a replicar os conteúdos enviados ao canal. A mensagem registrou 18,1 mil reações e 17,4 mil encaminhamentos, segundo os dados coletados pela reportagem.

Durante a transmissão, chamou a atenção a rapidez com que os participantes do grupo em produzir conteúdos em vídeo. Entre 20h47 e 20h55, por exemplo, foram publicados quatro vídeos sobre o preço dos alimentos e propostas apresentadas por Flávio. As versões retomavam um trecho divulgado anteriormente, mas com abordagens visuais diferentes. Uma delas utilizava trilha sonora épica, enquanto outra destacava o rosto do candidato.

Capturas do canal Tropa do Flávio no WhatsApp mostram vídeos do debate e orientações para que seguidores compartilhassem os cortes.
No canal Tropa do Flávio, apoiadores recebiam diferentes cortes do debate e orientações para compartilhá-los nas redes sociais. Crédito: Reprodução/WhatsApp.

Juntos, os quatro vídeos somaram aproximadamente 8,2 mil reações e 8 mil encaminhamentos, de acordo com o levantamento.

A sequência continuou. Às 20h57, mais cinco vídeos foram enviados ao canal, abordando temas como aposentadoria, Bolsa Família e corrupção. Nos minutos seguintes, outros cortes foram disponibilizados aos participantes.

A estratégia permitia que os seguidores escolhessem entre diferentes materiais para compartilhar, conforme os temas de maior interesse.

Às 21h35, uma mensagem reconheceu a quantidade de vídeos publicados e pediu que os integrantes assistissem aos conteúdos antes de selecionar aqueles que considerassem mais adequados às suas pautas.

Expressões como “bora pra guerra”, “gás total” e “manda pra todos os grupos e listas” também eram usadas para incentivar o compartilhamento.


EXÉRCITO DO LULA: HASHTAGS E CONTEÚDOS PRIORITÁRIOS

No Exército do Lula as mensagens trocadas apresentavam mais orientações explícitas sobre comportamento nas redes sociais, bem como indicações de hashtags, de imagens e de temas para repercutir em outros espaços que não o WhatsApp. O tipo de conteúdo compartilhado neste grupo é compatível com o compartilhamento no feed do Instagram, no Threads, no Facebook e em redes como X (ex-Twitter) e BlueSky.

O X é a décima rede social mais usada no Brasil, com um estimado de 16 milhões de usuários no país.

Vídeos estavam ali, mas não na mesma quantidade que no grupo de Flávio Bolsonaro. O deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pelo canal, participava diretamente da movimentação com áudios, fotografias, hashtags e pedidos de engajamento.

Capturas do canal Exército do Lula mostram mensagens com hashtags, pedidos de encaminhamento e fotografia de André Janones no estúdio da Band.
O Exército do Lula utilizou hashtags, mensagens e orientações de engajamento para coordenar a divulgação de conteúdos durante o debate. Crédito: Reprodução/WhatsApp.

Às 19h41, uma fotografia do parlamentar no estúdio da Band foi publicada com a legenda “General chegou tropa sintam-se representados”. A mensagem acumulou 259 mil reações e 26,1 mil encaminhamentos, conforme os registros consultados.

Pouco antes do início do debate, os participantes receberam orientações para continuar compartilhando conteúdos de imagem e hashtag e ajudar a “furar a bolha”. Tais tipos de formato são mais compatíveis com redes

Ao longo da noite, hashtags eram apresentadas como prioridades. Às 20h28, o canal divulgou #LulaDandoShowNaBand, acompanhada de pedidos para que os seguidores aumentassem sua circulação. Outras expressões relacionadas a temas e acusações levantadas durante o debate também foram compartilhadas.

Uma diferença observada pela reportagem estava no controle dos materiais distribuídos.

Às 20h48, uma mensagem informou aos participantes que determinado vídeo havia sido apagado por não ser prioritário. No minuto seguinte, os administradores orientaram os seguidores a substituir o material e compartilhar apenas os conteúdos disponíveis no canal.

Às 20h50, uma nova publicação pediu que os participantes verificassem se os vídeos publicados em seus próprios perfis também estavam presentes no canal. Caso contrário, a orientação era substituí-los.

As mensagens indicam uma tentativa de padronizar os conteúdos que seriam distribuídos em outras plataformas.

Os seguidores também recebiam instruções específicas sobre onde publicar. Durante o debate, foram incentivados a utilizar os stories e o X para ampliar a circulação das mensagens.

Às 21h14, uma orientação pediu que os integrantes evitassem interagir com publicações de apoiadores da direita e de veículos de imprensa, concentrando o engajamento nos conteúdos considerados prioritários.

Entre os vídeos destacados estava um trecho do debate em que Lula questionava Flávio sobre a compra de um imóvel. O material, publicado às 21h05, registrou 64,7 mil reações e 115 mil encaminhamentos no momento do levantamento.

Um minuto depois, os administradores classificaram a publicação como o principal corte do debate até aquele momento.

Ao final do debate, Janones deixou de postar no grupo. A notícia que chegou na segunda-feira de manhã é que o deputado federal teve uma arritmia cardíaca na noite de domingo e teve que ser internado em uma Unitade Intensiva de Tratamento (UTI) em um hospital de São Paulo.

A DISPUTA TAMBÉM CHEGOU ÀS BUSCAS DO GOOGLE

Além de incentivar publicações nas redes sociais, os dois canais tentaram direcionar a atenção dos participantes para determinados termos de busca.

Na Tropa do Flávio, uma mensagem publicada às 21h45 mencionou pesquisas exibidas pela Band durante o intervalo do debate e incentivou os integrantes a procurar no Google expressões críticas a Lula e a integrantes de sua família.

No Exército do Lula, uma orientação semelhante apareceu às 22h10. Um áudio pediu que os participantes pesquisassem termos críticos a Flávio Bolsonaro, incluindo expressões relacionadas a acusações e a pessoas mencionadas durante o confronto.

Essas orientações mostram que a mobilização não se limitava à distribuição de vídeos. Havia também tentativas de influenciar quais assuntos ganhariam visibilidade nas buscas e nas conversas online.

Os registros, porém, não permitem afirmar que as ações tiveram efeito direto sobre os resultados exibidos pelo Google.

A MOBILIZAÇÃO CONTINUOU APÓS O DEBATE

O encerramento do programa não interrompeu a circulação de conteúdos.

Na Tropa do Flávio, os administradores continuaram a distribuir vídeos de entrevistas e publicações de aliados. No Exército do Lula, novas mensagens e hashtags foram divulgadas, incluindo conteúdos relacionados ao sigilo bancário do senador e à avaliação do desempenho dos candidatos.

A movimentação também aparecia nas discussões do X.

Em um ranking de tendências políticas consultado pela reportagem na terça-feira (20), dois dias após o debate, a hashtag #LulaAbriuOSigiloFlavioArregou ocupava a sexta posição. A expressão “LULA PELO BRASIL” aparecia em sétimo lugar, enquanto “VOTE FLÁVIO BOLSONARO 22” estava na 18ª posição.

A presença dos termos mostra que assuntos relacionados aos dois candidatos continuavam circulando na plataforma. O ranking, no entanto, representa um momento específico e não permite estabelecer uma relação direta entre as mensagens dos canais e a posição das expressões entre os assuntos mais comentados.

Da mesma forma, o número de reações e encaminhamentos registrado no WhatsApp não equivale ao alcance final dos conteúdos em outras plataformas, nem representa necessariamente usuários únicos.


CANAIS DE WHATSAPP ENTRARAM NO DEBATE DO TSE

A importância desses espaços de mobilização também chegou à Justiça Eleitoral.

Nesta quarta-feira (21), veio a público uma minuta de resolução que previa restringir canais políticos de WhatsApp com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores ao segundo turno, marcado para domingo (25).

A proposta atingiria tanto o Exército do Lula quanto a Tropa do Flávio. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou que não pretende colocar a medida em votação antes das eleições. O ministro André Mendonça, responsável pela elaboração do texto, declarou que o assunto depende de deliberação do colegiado.

A discussão ocorre em meio a questionamentos sobre o funcionamento de canais ligados às candidaturas e sobre os limites da propaganda eleitoral nas plataformas digitais.

O acompanhamento realizado pela Fast Company Brasil durante o debate da Band oferece um retrato da campanha digital: fechada a nichos, organizada e focada nas redes sociais.

Com outro debate presidencial marcado para sexta-feira (23), na TV Globo, a movimentação observada no WhatsApp mostra uma dimensão da disputa eleitoral que se desenvolve simultaneamente às transmissões televisivas.”


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais