O que os deputados mais votados de 2026 têm em comum nas redes sociais?
Levantamento da Fast Company Brasil cruza resultados do TSE com perfis digitais de parlamentares e mostra como a disputa por atenção continua depois da votação

Os dois deputados federais mais votados da história do Brasil têm algo em comum além dos mais de 3 milhões de votos recebidos nas eleições de 2026: ambos construíram grandes audiências nas redes sociais.
Nikolas Ferreira (PL-MG) recebeu 3.119.318 votos, enquanto Lucas Pavanato (PL-SP) somou 3.038.438. No Instagram, os dois acumulam milhões de seguidores e fazem parte de uma geração de políticos para quem a comunicação digital ocupa um espaço central na construção da imagem pública.
O fenômeno também apareceu nas Assembleias Legislativas. Em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL) conquistou 1.956.238 votos, tornando-se a deputada estadual mais votada do país nas eleições de 2026. Nas redes, reúne cerca de 2,4 milhões de seguidores no Instagram.
Para entender a relação entre presença digital e desempenho eleitoral, a Fast Company Brasil comparou a lista de candidatos mais votados, divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com a atuação de políticos nas redes sociais. A observação dos perfis foi realizada entre segunda-feira (5) e quarta-feira (7), nos três primeiros dias após o primeiro turno das eleições.
O levantamento identificou trajetórias distintas: influenciadores que conquistaram cargos eletivos depois de ganhar visibilidade na internet, políticos que ampliaram suas audiências durante a carreira e parlamentares que utilizam as plataformas para manter contato permanente com seus eleitores.
Os casos mostram como a comunicação digital se tornou parte importante das carreiras políticas. E também ajudam a entender por que, mesmo depois da apuração dos votos, as disputas continuam nas plataformas.
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A FORÇA DIGITAL NAS URNAS
O desempenho de candidatos com grandes audiências foi especialmente expressivo entre políticos de direita.
Um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo identificou influenciadores desse campo político entre os candidatos com votações recordes para deputado em nove estados.
Além de Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, nomes como Bruno Engler (PL-MG), Ana Campagnolo (PL-SC) e Índia Armelau (PL-RJ) também se destacaram.
A vantagem digital da direita já havia aparecido em um levantamento da Ativaweb Datalab, divulgado pela Veja em junho. A pesquisa acompanhou perfis políticos durante 60 dias e registrou 82,4 pontos para a Direita Digital, contra 74,8 para a Esquerda Digital, em um indicador desenvolvido para medir força nas plataformas.
O estudo identificou vantagem da direita no X e no TikTok, enquanto o Instagram apresentou um cenário mais equilibrado.
Mas grandes audiências políticas não são exclusividade de um campo ideológico.
Erika Hilton (PSOL-SP) recebeu 1.596.472 votos e foi a terceira candidata a deputada federal mais votada do país. Com cerca de 5,3 milhões de seguidores no Instagram, tornou-se também a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados.
Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que conquistou 583.107 votos, ficou na quinta posição nacional e reúne aproximadamente 2 milhões de seguidores no Instagram.
Os resultados mostram que candidatos de diferentes posições políticas chegaram às eleições com grandes comunidades digitais. Isso não significa, porém, que seguidores sejam automaticamente convertidos em votos.
Uma audiência pode reunir pessoas de diferentes estados, usuários que não votam no candidato e até aqueles que acompanham suas publicações por discordarem de suas posições.
Ainda assim, as redes oferecem aos políticos canais para conquistar visibilidade, mobilizar apoiadores e manter contato com o público para além do período eleitoral.
DO INFLUENCIADOR AO POLÍTICO DIGITAL
Embora sejam frequentemente chamados de influenciadores, os parlamentares com grandes audiências digitais não construíram suas carreiras da mesma maneira.
Nikolas Ferreira e Eduarda Campopiano, por exemplo, ganharam visibilidade nas plataformas antes de ocupar cargos eletivos.
Nikolas começou a produzir conteúdo no YouTube em 2016 e foi eleito vereador de Belo Horizonte em 2020. Sua audiência continuou crescendo durante a atuação política.
Em janeiro de 2025, um vídeo publicado pelo parlamentar com críticas à fiscalização de transações via Pix alcançou centenas de milhões de visualizações no Instagram. O episódio mostrou a capacidade de uma publicação política circular muito além da base de seguidores de seu autor.
Eduarda também desenvolveu sua presença pública na internet antes de ser eleita vereadora de Praia Grande, no litoral paulista, em 2024. Aos 23 anos, conquistou a maior votação para deputada estadual do país em 2026.
Em entrevista ao UOL após a eleição, ela atribuiu parte de seu desempenho à comunicação direta com o público e afirmou não utilizar estratégias elaboradas de marketing. Suas declarações e sua atuação digital têm forte associação com pautas conservadoras e críticas ao feminismo.
Lucas Pavanato seguiu outro caminho. Ele já participava do ambiente político antes de alcançar milhões de seguidores e disputou sua primeira eleição em 2022. Durante essa trajetória, ampliou sua projeção nas redes e passou a combinar a atividade institucional com a produção de conteúdo.
Já Erika Hilton e Sâmia Bomfim iniciaram suas trajetórias na militância e na política institucional antes de alcançar a dimensão atual de suas audiências.
Nesses casos, as plataformas também funcionam como canais para comunicar posicionamentos, apresentar propostas e dar visibilidade à atuação parlamentar.
As diferentes trajetórias mostram que a expressão “político influenciador” reúne fenômenos distintos. Há quem transforme a popularidade digital em carreira política e quem utilize a própria atuação política para ampliar sua influência nas plataformas.
A ELEIÇÃO TERMINOU, MAS A DISPUTA CONTINUA NAS REDES
O resultado das urnas não encerrou os embates políticos nas plataformas.
Um exemplo ocorreu logo após o primeiro turno, quando Eduarda Campopiano publicou no X uma mensagem direcionada a Erika Hilton, comparando os resultados eleitorais das duas parlamentares.
Na publicação, Campopiano questionou a identidade de gênero de Erika, uma mulher trans, e reivindicou para si o reconhecimento como a mulher mais votada de São Paulo. As duas, no entanto, disputaram cargos diferentes: Campopiano foi eleita para a Assembleia Legislativa, enquanto Erika conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados.
A publicação gerou repercussão e questionamentos sobre transfobia e violência política de gênero. Posteriormente, Campopiano classificou sua mensagem como uma “manifestação provocativa”. Parlamentares do PSOL acionaram o Ministério Público em razão do episódio.
O caso ilustra como resultados eleitorais também podem ser utilizados como conteúdo político depois do fim da votação, alimentando novos debates, confrontos e mobilizações.
Em outro episódio, na quinta-feira (8), Lucas Pavanato publicou um vídeo de uma discussão com Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, no aeroporto de Brasília. Os dois trocaram acusações sobre o início do confronto, que ganhou repercussão nas redes.
Os episódios mostram que a comunicação desses políticos não se limita à apresentação de propostas ou à divulgação de atividades parlamentares. Confrontos e controvérsias também passam a circular como conteúdo, prolongando as disputas políticas no ambiente digital.
A votação termina, mas a busca por visibilidade continua.
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O QUE OS SEGUIDORES REVELAM SOBRE A POLÍTICA
Para a socióloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade de Dublin, na Irlanda, o sucesso eleitoral de políticos com grandes audiências digitais já era esperado.
“Vivemos em um país com um dos maiores números de influenciadores autodeclarados do mundo. Esses candidatos estão no topo de uma pirâmide aspiracional de como as pessoas se representam e almejam ser”, afirmou a pesquisadora à Folha de S.Paulo.
A presença desses nomes entre os mais votados indica que a visibilidade nas plataformas se tornou um componente importante da comunicação política brasileira.
Mas alcance digital e desempenho eleitoral não são medidas equivalentes. O sucesso nas urnas também depende de identificação ideológica, organização partidária, alianças, atuação territorial e capacidade de mobilização.
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Os resultados de 2026 não permitem determinar quantos votos foram conquistados diretamente pelas redes sociais. Mostram, porém, que parte dos candidatos eleitos já chega ao Legislativo com grandes audiências e uma comunicação que se estende muito além dos espaços institucionais.
Para esses parlamentares, a disputa por atenção, reconhecimento e influência continua mesmo depois da eleição. E a maneira como essas audiências serão mobilizadas durante o mandato passa a ser uma questão relevante para compreender a relação entre tecnologia e política no Brasil.