A eleição de 2026 termina. Nas redes, a campanha de 2030 já começou
A disputa digital marcou o segundo turno, mas, para os políticos influencers, a campanha não começa em agosto nem termina na apuração. O calendário eleitoral ainda tem dificuldade de acompanhar esse tempo.

Neste domingo (25), a eleição de 2026 chega ao fim nas urnas. Nas redes sociais, porém, uma nova disputa já está em andamento: a de 2030.
Canais de WhatsApp de apoiadores, convocações de “exércitos” e “tropas” digitais, cortes de debate distribuídos em minutos. Nas últimas semanas, a mobilização nas redes virou tema da própria campanha e chegou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que precisou mudar uma regra no meio do segundo turno.
Para o sociólogo Sérgio Abranches, ouvido pela Fast Company Brasil, essa intensidade não é exclusiva da reta final. Na leitura dele, já existe um “partido digital”, que atravessa as legendas tradicionais e não para quando a eleição acaba. “Ele faz campanha 24 horas por dia. Está o tempo todo na rede, bombando, e isso tem impacto. É inevitável”, afirma.
Autor de A Terceira Margem do Ipiranga: Povo, Democracia e Futuro, Abranches vê a eleição deste ano como uma nova etapa da presença digital na política brasileira. E projeta uma transição longa: para mudanças mais profundas, “você precisa de oito ou de doze anos”. Os candidatos à Presidência, segundo ele, “vão se digitalizar por necessidade”.
As urnas encerram oficialmente a disputa de 2026. No feed, não há encerramento previsto.
POLÍTICOS INFLUENCERS
Quem melhor encarna esse partido digital são os chamados políticos influencers. E o fenômeno atravessa campos políticos diferentes: Nikolas Ferreira (PL-MG), Erika Hilton (PSOL-SP), Ana Elisa (PT-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) chegaram às urnas com audiências construídas muito antes do período oficial de campanha.
“Todo mundo na sociedade digital vai ser influenciador, da sua maneira.”
Ser um político influencer envolve mais do que publicar vídeos ou acumular seguidores. É manter uma presença contínua, comentar os acontecimentos, responder a críticas, participar de debates, interagir com o público e procurar o engajamento. A relação com a audiência não se limita ao período em que o político está pedindo votos.
Em sua coluna na CNN Brasil, o cientista político Renato Dolci, da PUC-SP, captou esse processo numa comparação. Se o político tradicional precisava formar uma base, “o político influencer vive diariamente dentro dela”.
Para Dolci, esses políticos não aparecem a cada quatro anos: estão no celular do eleitor todos os dias e, por isso, chegam à eleição sem precisar se apresentar de novo.
Os números citados na coluna ajudam a dimensionar o fenômeno. Pavanato saiu de 161 mil votos para vereador de São Paulo, em 2024, para 3.038.438 votos para deputado federal dois anos depois.
Dolci também cita um levantamento do Instituto Democracia em Xeque com o NUPMOS-PUC-SP, que analisou mais de 65 mil publicações de candidatos jovens. Entre os 15 com maior engajamento digital, dez foram eleitos. Considerando o conjunto de 831 candidatos jovens da pesquisa, a taxa de sucesso foi de 7,1%.
Os dados mostram uma associação entre engajamento digital e desempenho eleitoral, embora não permitam atribuir os resultados exclusivamente às redes sociais.
O caso de Pavanato chamou a atenção da Fast Company Brasil por duas razões. Ele foi o deputado federal mais votado de São Paulo e o segundo mais votado do Brasil em 2026, atrás apenas de Nikolas Ferreira. Ambos ultrapassaram o recorde nacional anterior de votação para o cargo.
Além disso, Pavanato já havia destacado o papel das plataformas em sua trajetória política. Após ser eleito vereador em 2024, afirmou à CNN ter feito “a maior campanha de rede social da história da cidade de São Paulo para um vereador”.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, em setembro deste ano, ele explicou como alterna conteúdos de humor, comentários políticos, debates e entrevistas de rua para manter o interesse do público. Também afirmou que vídeos de confronto costumam atrair mais atenção do que a divulgação de projetos de seu mandato.
A Fast Company Brasil analisou a atividade de Pavanato nas redes para observar como essa presença foi construída ao longo do tempo, antes e durante os períodos eleitorais.
Leia também: O que os deputados mais votados de 2026 têm em comum nas redes sociais?
No YouTube, ele publicou 170 vídeos ao longo de 2024 e 2025. De janeiro a agosto de 2026, antes do início oficial da campanha, foram identificados mais 102 vídeos, a maioria no formato Shorts.
No TikTok, os dados permitem observar com mais detalhes as mudanças de ritmo, frequência e alcance.
Na leitura de Abranches, o caminho entre fazer política e virar influenciador é curto. “Se eu faço sucesso nas redes com a minha campanha política, imediatamente me torno um influenciador. Não tem jeito”, diz. “Todo mundo na sociedade digital vai ser influenciador, da sua maneira.”
ANATOMIA DE UM CANDIDATO DIGITAL
Os vídeos de Pavanato no TikTok, disponíveis desde agosto de 2022, mostram que a fama não veio do volume. Veio depois dele.
Até março de 2024, ele publicava cerca de 20 vídeos por mês, com pico de 43 em maio de 2023, mas poucas publicações alcançavam grandes audiências: a mediana ficava entre 30 mil e 100 mil visualizações por vídeo.
“Você começa a testar discursos que colam mais e que, portanto, aumentam a sua audiência.
A virada aconteceu no segundo trimestre de 2024, com menos posts, não mais. A mediana saltou de 74 mil para 606 mil visualizações, e a fatia de vídeos com mais de 1 milhão de views passou de 6% para 32%.
Para acompanhar essa trajetória, o levantamento comparou a atividade do perfil ao longo de 2024 e 2025 e dividiu 2026 em dois períodos: de 1º de janeiro a 15 de agosto, antes do início oficial da propaganda eleitoral, e de 16 de agosto a 22 de outubro, data final da coleta.
Em 2024, quando disputou uma vaga de vereador, Pavanato publicou 74 vídeos entre janeiro e 15 de agosto. Durante a campanha, até 6 de outubro, foram outros 35. O ritmo médio praticamente dobrou.
Em 2025, um ano sem eleições no Brasil, a atividade continuou. Entre janeiro e 15 de agosto, foram 81 vídeos no TikTok.
No mesmo intervalo de 2026, Pavanato publicou 85 vídeos. O ritmo era quase igual ao do ano anterior.
A mudança veio a partir de 16 de agosto, quando a propaganda eleitoral foi liberada. Entre essa data e 22 de outubro, foram 59 vídeos em 68 dias, uma média de 26 por mês, mais que o dobro do ritmo anterior.
Esse último intervalo inclui os 18 dias posteriores à eleição de Pavanato, em 4 de outubro. Portanto, os dados mostram a atividade durante a campanha e também depois da votação.
| Período | Vídeos no TikTok | Média por mês | Mediana de views por vídeo |
|---|---|---|---|
| 1º/jan a 15/ago de 2024 | 74 | 10 | 188 mil |
| 16/ago a 6/out de 2024 | 35 | 20 | 690 mil |
| 1º/jan a 15/ago de 2025 | 81 | 11 | 755 mil |
| 1º/jan a 15/ago de 2026 | 85 | 11 | 372 mil |
| 16/ago a 22/out de 2026 | 59 | 26 | 164 mil |
Fonte: levantamento da Fast Company Brasil com os vídeos disponíveis no perfil @lucaspavanato em 23 de outubro de 2026. A tabela apresenta intervalos selecionados, não a totalidade das publicações de cada ano. Os números de visualizações refletem o momento da coleta. Vídeos mais antigos tiveram mais tempo para acumular audiência.
A tabela também mostra que o aumento da frequência não corresponde necessariamente a mais visualizações por vídeo. As medianas, porém, precisam ser lidas considerando o tempo de circulação de cada publicação. Um vídeo publicado há dois anos teve mais oportunidades de alcançar novos públicos do que outro que entrou no ar há poucas semanas.
O dado mais interessante para esta análise é a continuidade da atividade. O volume aumenta durante as campanhas, mas as publicações permanecem nos intervalos entre elas.
Abranches descreve essa curva sem conhecer os números. “Se você tem a partir de um milhão de seguidores, inevitavelmente você vai bombar. Quando você tem menos, precisa fazer mais esforço”, diz.
Na fase de esforço, o político aprende o que funciona: “Você começa a testar discursos que colam mais e que, portanto, aumentam a sua audiência”.
Depois que a audiência está formada, a lógica muda. “Você começa a precisar impulsionar menos”, explica o sociólogo, que cita Nikolas Ferreira como exemplo de quem “já está na campanha permanente”.
O nome de Nikolas, aliás, aparece na trajetória digital de Pavanato bem antes da campanha deste ano.
Em 2023, apenas 5% das legendas dos vídeos de Pavanato citavam o deputado mineiro. Entre fevereiro e março de 2024, a hashtag #nikolasferreira começou a aparecer em praticamente todos os posts, e o salto de alcance veio logo depois, em abril.
A regra eleitoral está toda formatada para a campanha analógica.
Em 2024, os vídeos com a hashtag tiveram mediana de 474 mil visualizações, contra 160 mil dos que não a utilizavam.
A coincidência não prova que a associação tenha provocado o aumento de audiência. Mas mostra que a presença de Nikolas nos conteúdos de Pavanato vem de antes desta eleição.
A relação entre os dois, que também apareceu nos anúncios impulsionados da campanha de 2026, vinha sendo construída publicamente havia anos.
E O TSE? E A GENTE?
Se a presença desses políticos é de 24 horas por dia, sete dias por semana, como fica o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)?
A propaganda eleitoral tem um período definido em lei, que começa em 16 de agosto. A atividade política nas plataformas não segue necessariamente esse calendário.
Isso não significa que tudo o que acontece fora da campanha esteja livre de regras. A legislação eleitoral também estabelece limites para a propaganda antecipada, embora permita atividades de pré-campanha, como a apresentação de propostas, ideias e pré-candidaturas, observadas as restrições legais.
O desafio aparece quando atuação parlamentar, opinião, construção de audiência, pré-campanha e propaganda eleitoral circulam pelos mesmos perfis.
“A regra eleitoral está toda formatada para a campanha analógica”, diz Abranches. “Ela não vê a campanha digital. Só vê quando um candidato reclama que foi atacado.”
A disputa sobre os canais de WhatsApp no segundo turno mostra como essas fronteiras podem se tornar motivo de controvérsia.
O canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado André Janones (Rede-MG), foi alvo de decisões conflitantes no TSE. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, determinou sua suspensão até que a campanha de Lula registrasse o endereço como propaganda eleitoral.
A campanha realizou o registro, mas ressalvou que não era responsável pela administração do canal. Nunes Marques passou a exigir uma espera de 48 horas para a retomada das atividades.
Janones contestou as restrições. Argumentou que o canal era formado por apoiadores, e não pela campanha, e cobrou tratamento igualitário em relação aos canais de apoio a Flávio Bolsonaro.
Em 14 de outubro, Nunes Marques liberou o canal. No dia seguinte, o plenário do TSE alterou as regras para dispensar o prazo de 48 horas para endereços registrados entre o primeiro e o segundo turno.
A controvérsia continuou.
Na sexta-feira (23), o ministro Floriano de Azevedo Marques concedeu uma liminar impedindo que a presidência do TSE suspendesse ou restringisse novamente o canal por decisão administrativa, sem manifestação do plenário.
A medida foi tomada após um pedido preventivo da campanha de Lula. O tribunal informou que não havia determinado uma nova retirada do canal do ar.
Em menos de duas semanas, a Justiça Eleitoral discutiu o vínculo entre canais digitais e campanhas oficiais, mudou um procedimento de registro e delimitou a possibilidade de suspensão administrativa de um canal.
Nos meses sem campanha, esses mesmos perfis e comunidades podem continuar ativos, publicando conteúdo e reunindo seguidores.
O descompasso também afeta quem acompanha a política de fora, inclusive a imprensa. Num tempo acelerado, em que uma pauta atropela a outra em questão de horas, fica difícil acompanhar tudo o que os políticos dizem, e mais difícil ainda checar.
A cobertura política, em geral, também se intensifica durante o calendário eleitoral. Esses perfis mantêm atividade ao longo de todo o ciclo.
À primeira vista, a presença constante pode ampliar a transparência: o eleitor acompanha o político em casa, no plenário, na rua, nas discussões e nos acontecimentos cotidianos.
Mas prestação de contas, opinião, divulgação do mandato e mensagens eleitorais aparecem misturadas no mesmo feed. Nem sempre é simples separar uma coisa da outra.
A ERA DA HIPERPOLÍTICA
O historiador belga Anton Jäger, professor da Universidade de Oxford, deu nome a uma das contradições desse cenário.
Leia também: Redes sociais fazem bem à democracia? Brasileiros acreditam nisso mais que a média global
Em Hyperpolitics: Extreme Politicization without Political Consequences (Verso, 2026), ele descreve uma política que está em todo lugar, com opiniões cada vez mais intensas, mas pouco ancorada em instituições como partidos, sindicatos e associações.
O conceito parte de uma aparente contradição: há uma grande quantidade de debates políticos, protestos, opiniões e mobilizações, mas nem sempre essa intensidade se transforma em organização coletiva duradoura.
Em entrevista ao podcast de Ezra Klein, no The New York Times, Jäger explicou que o “hiper” tem uma dimensão espacial e outra temporal.
Espacial porque a política chega a todos os lugares e consegue mobilizar multidões. Temporal porque o interesse por uma causa pode durar pouco.
Ele compara a dinâmica a algo “quase como um mercado político”: a pessoa investe numa causa e, quando seu valor despenca, vende as ações e passa para a próxima.
Jäger situa a hiperpolítica depois da chamada pós-política dos anos 1990, quando a política deixou de parecer um caminho para grandes mudanças sociais.
Em entrevista ao The Guardian, explicou que as formas de liberdade disponíveis naquele período ficaram “mais privadas, mais íntimas, mais individuais”, enquanto a ideia de se juntar a outras pessoas para mudar a sociedade se tornava mais distante.
Durante boa parte do século 20, partidos, sindicatos e outras organizações davam continuidade à participação política. Havia líderes carismáticos, protestos e disputas intensas, mas também programas e vínculos institucionais que permaneciam depois das mobilizações.
Na hiperpolítica, multidões podem se organizar rapidamente em torno de uma causa e se dispersar pouco tempo depois. A intensidade das manifestações convive com a dificuldade de sustentar organizações e projetos de longo prazo.
O que permanece é a presença no feed, mesmo quando os temas mudam.
O texto Hiperpolítica, de André Alves e Lucas Liedke, publicado na newsletter floatvibes, apresenta esse debate no contexto brasileiro. Os autores chamam atenção para a velocidade das mobilizações e para o “curto-prazismo como o modo padrão de grande parte da ação política”.
Jäger, porém, evita colocar toda a responsabilidade pelas mudanças nas plataformas. Para ele, as redes funcionaram como lupa e acelerador de tendências anteriores. As pessoas já vinham se afastando das organizações políticas tradicionais.
Também seria um erro tratar toda mobilização nas redes como superficial. Protestos e campanhas digitais podem partir de problemas concretos, reunir pessoas e produzir resultados fora das plataformas.
A hiperpolítica ajuda a observar uma diferença entre a intensidade do debate e a continuidade da organização política.
A trajetória dos políticos influencers ganha outro contorno quando olhada a partir dessa ideia.
O público se move por ondas de indignação, interesse e mobilização. Os perfis permanecem ativos de uma onda para a outra, comentando assuntos, reagindo aos acontecimentos e procurando manter o contato com suas comunidades.
O que permanece é a presença no feed, mesmo quando os temas mudam. Essa continuidade de audiência não significa que exista necessariamente um programa político igualmente contínuo.
Abranches vê o risco de a conversa pública ficar presa a esse ambiente privado. Para ele, será preciso criar incentivos e desincentivos “para a expansão do hiperprivado”, abrindo um espaço mais coletivo dentro do universo digital.
COMPARTILHA, CURTA E COMENTE
A eleição de 2026 termina neste domingo. A atividade dos políticos que construíram suas audiências nas redes continua.
A campanha oficial tem datas, regras e etapas definidas. A presença nas plataformas é construída todos os dias, com publicações, comentários, compartilhamentos, discussões e respostas.
Para um político influencer, a audiência acompanha seu trabalho, suas opiniões e sua participação nos acontecimentos. A campanha eleitoral é uma parte dessa relação, que pode durar anos.
O calendário das redes também tem suas próprias métricas: visualizações, curtidas, comentários, compartilhamentos. Tudo isso é reunido numa palavra que já fazia parte do vocabulário político muito antes da internet.
Engajamento.
