O fim das bets virou um “chá revelação” da renda dos influencers

As reações ao fim das apostas mostraram uma contradição da creator economy: por trás da imagem de autonomia, boa parte da renda ainda depende de empresas e contratos publicitários

Montagem em tons de roxo e rosa mostra três influenciadores com expressões de surpresa.
Reações de influenciadores à proibição das bets expuseram o peso dos contratos de apostas em sua renda.

Camila de Lira e Isabella Lura 8 minutos de leitura
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Um chá revelação de R$ 300 mil. Enxoval no exterior. Dívidas e compromissos já assumidos. Foi assim que o streamer e empresário Nobru explicou, durante uma live, por que o fim das bets havia chegado, segundo ele, “no pior momento possível”.

A fala viralizou. Até porque, veio junto de uma série de manifestações de outros influenciadores sobre a proibição das bets no Brasil, anunciada nesta sexta-feira (25). Jon Vlogs, Luqueta, Davi Brito e Rico Melquíades estão entre os influenciadores (que somam alguns milhões de seguidores) que publicaram vídeos criticando violentamente a proibição.

Alguns dos vídeos tem um tom que beira o desespero. O que contrasta com a imagem de autonomia, independência e riqueza que os mesmos tipos de influenciadores ostentam nos seus feeds. Nobru mesmo é streamer e entrou na lista de milionários antes dos 25 anos, fazendo vídeo tour em sua nova mansão.

Influenciadores costumam ser vistos como símbolo de uma nova independência profissional: constroem a própria audiência, transformam o próprio nome em marca e vendem um estilo de vida associado a sucesso, consumo e liberdade financeira. Não é à toa que a carreira virou sonho da geração Alpha.

Quando as bets, e seu investimento de milhões na mídia digital brasileira, saíram de cena, parte da estrutura por trás dessa autonomia apareceu junto. Afinal, se eram tão autônomos e independentes, por que a reação tão visceral ao fim de um grupo de patrocinadores? A resposta é um pouco desconfortável: a estrutura da economia de creators não é tão milionária assim.

OS MILHÕES QUE NUNCA SAEM DO FEED

Na prática, uma parcela significativa dos criadores ainda precisa combinar a produção de conteúdo com outras fontes de renda. A pesquisa Creators & Negócios 2025, da YOUPIX, mostra que 53% dos creators ainda precisam de um trabalho fixo, como CLT ou PJ, para complementar a renda.

A publicidade ocupa um espaço central nesse modelo. Segundo o levantamento, 41,43% dos entrevistados apontam o conteúdo patrocinado como seu principal modelo de negócio, enquanto 28% ainda não haviam conseguido monetizar o próprio trabalho.

Diferente de Jojo Toddynho e Davi Britto, que já eram conhecidos por realities shows e tem mais de milhões de seguidores, 90% dos criadores brasieliros são pessoas que vieram da internet e têm menos de 500 mil seguidores.

Os números mostram uma diferença importante entre audiência e sustentabilidade financeira. Um creator pode ter centenas de milhares — ou milhões — de seguidores e continuar dependendo de outras empresas para transformar essa audiência em dinheiro.

Isso não significa que o influenciador não seja autônomo. Quase 53% dos criadores têm entre um e cinco pedidos de orçamento por mês. Apenas 12% dos influenciadores brasieliros tem mais de cinco cotnratos a longo przo.

Ele controla sua audiência, seu conteúdo e sua marca pessoal. A receita, porém, continua dependendo de alguém disposto a pagar pelo acesso a tudo isso. Quando esse alguém deixa de pagar, a diferença entre ter uma audiência e ter um negócio fica mais evidente.

O DINHEIRO QUE APARECE E O QUE FICA ESCONDIDO

Nas redes sociais, a parte mais visível do trabalho de um influenciador é o conteúdo publicado. Também aparecem as viagens, casas, carros, roupas, restaurantes, festas e produtos que fazem parte da imagem construída em torno daquele creator.

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O que aparece menos é a estrutura financeira necessária para manter essa atividade. Segundo a YOUPIX, 64% dos creators trabalham sozinhos. Entre aqueles com mais de 500 mil seguidores, 61% ainda não contam com assistência ou equipe.

O crescimento da audiência, portanto, não significa automaticamente uma operação financeiramente mais estruturada. A experiência também pesa. Metade dos creators que ganham mais de R$ 10 mil por mês tem mais de cinco anos de carreira.

A monetização aparece, assim, como resultado de um processo de profissionalização, construção de audiência e diversificação de receitas — e não apenas do número de seguidores. É nesse cenário que a saída de um anunciante pode ganhar proporções maiores.

Para quem não construiu outras fontes relevantes de receita, perder um contrato comercial significa mais do que deixar de fazer uma publi: significa retirar uma parte do orçamento.

QUANDO A PUBLICIDADE VIRA O NEGÓCIO

O problema não está em um creator ganhar dinheiro com publicidade. Veículos de comunicação, clubes de futebol, eventos, plataformas digitais e boa parte da indústria cultural também dependem dela.

A questão é outra: o quanto de independência existe quando a maior parte da renda continua condicionada às decisões de outras empresas?

A creator economy mudou quem controla a distribuição. Um influenciador não precisa de uma emissora para falar com milhões de pessoas nem de uma revista para construir uma audiência.

Mas eliminar o intermediário não eliminou necessariamente a dependência econômica. A diferença é que agora não existe salário fixo — e a empresa pode simplesmente decidir não fazer a próxima campanha (e pagar 60 dias depois).

No caso das bets, essa dependência foi alimentada por um mercado publicitário gigantesco.

Em 2025, 15 das maiores empresas de apostas que atuavam legalmente no Brasil investiram mais de R$ 3 bilhões em mídia, segundo dados do Ibope Advertising Intelligence.

Boa parte dessa verba foi para televisão, transmissões esportivas, clubes e outros grandes canais. As bets se tornaram alguns dos patrocinadores mais presentes do futebol brasileiro e passaram a ocupar também streamings, podcasts e redes sociais.

Cerca de 35% dos investimentos publicitários do setor foram destinados ao ambiente digital Não existe um cálculo consolidado de quanto desse dinheiro chegou diretamente aos influenciadores. Mas o tamanho do bolo ajuda a explicar a reação quando ele desapareceu.

#NÓSAPOSTAMOSNONEGÓCIO

O grupo de influenciadores que apoia as bets não só reagiu, mas está contra-atacando as decisões do governo. Alguns entraram na conversa eleitoral. Outros estão fazendo parte de campanhas.

Nobru questionou a decisão de encerrar o mercado regularizado em vez de concentrar os esforços no combate às plataformas ilegais. Para ele, retirar as empresas autorizadas não necessariamente faria o brasileiro deixar de apostar, podendo levar parte desse público para alternativas sem fiscalização.

Jon Vlogs apresentou argumento semelhante. Defendeu que a proibição das empresas regulamentadas poderia favorecer plataformas clandestinas e também colocou a discussão no campo da liberdade individual de quem decide apostar.

Luqueta, por sua vez, aparece entre os criadores cuja relação com o mercado de apostas passou a ser usada para ilustrar a dificuldade de adaptação depois da interrupção dessa fonte de receita. Sua reação foi compartilhada ao lado de outros influenciadores que passaram a discutir o que fazer diante da perda das bets.

Rico Melquíades também criticou a medida. Em suas manifestações, questionou a responsabilização das casas de apostas por problemas sociais e lembrou que essas empresas mantêm contratos com influenciadores, clubes e outros negócios.

As reações ficam ainda mais relevantes quando colocadas ao lado de uma mobilização que ganhou força depois da decisão.

Influenciadores como Jon Vlogs, Davi Brito, Rico Melquíades, Jojo Todynho e outros passaram a compartilhar mensagens associadas ao movimento “Nós Apostamos no Brasil”, em defesa da manutenção do mercado regulamentado e de mais fiscalização em vez da proibição.

Durante anos, algumas das bets apostaram nos influenciadores. As últimas semanas mostraram que alguns influenciadores também tinham apostado nas bets.

O manifesto que deu origem à campanha foi lançado por nove entidades representativas do setor. O documento argumenta que as empresas pagaram outorgas, investiram em tecnologia e compliance, contrataram profissionais e passaram a recolher impostos seguindo regras estabelecidas pelo próprio Estado. Para as associações, a proibição pode levar apostadores para plataformas clandestinas; a alternativa seria ampliar fiscalização, proteção a públicos vulneráveis e restrições à publicidade.

POR QUE AS BETS FORAM PROIBIDAS

A medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, incluindo apostas esportivas e jogos online. A MP entrou em vigor imediatamente, embora ainda dependa da análise do Congresso para continuar valendo de forma permanente.

Na exposição de motivos, o governo justifica a mudança pelos impactos econômicos, sociais e de saúde pública relacionados à expansão das apostas e sustenta que apenas aprimorar as regras existentes já não seria suficiente. A MP também proíbe publicidade, marketing e patrocínio das bets e cria mecanismos para combater a continuidade da operação ilegal.

A decisão ocorre depois de anos de crescimento acelerado desse mercado e em meio a preocupações com endividamento, ludopatia e perdas financeiras das famílias. Órgãos de defesa do consumidor já vinham cobrando maior responsabilidade de celebridades e influenciadores na promoção dessas plataformas.

CHÁ DE REVELAÇÃO BEM AMARGO

O fim das bets funciona, portanto, como uma espécie de teste de estresse para a creator economy.

Ter milhões de seguidores não significa necessariamente ter receita recorrente. Exibir sucesso não significa ter fontes diversificadas de renda. E construir uma marca pessoal não elimina a necessidade de empresas dispostas a financiar aquela audiência.

Foi isso que transformou as reações em um “chá revelação”. Por alguns dias, ficou mais fácil enxergar a estrutura que normalmente permanece escondida atrás do feed.

O nome acaba servindo também para uma leitura involuntária do que aconteceu.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil. Isabella Lura é repórter junior da Fast Company Brasil. saiba mais