Microdramas viram aposta da Fox — mas nem todos são iguais

No Innovation Festival, executivos e criadores mostraram como o formato pode nascer em aplicativos, campanhas ou redes sociais; no Brasil, a Globo tenta adaptar a experiência das novelas para a tela do celular

Celular vertical enquadra rosto de estátua em colagem sobre microdramas e novelas produzidas para as redes sociais.
Fox, Globo, aplicativos e criadores apostam em histórias curtas desenvolvidas para a tela vertical dos celulares.

Camila de Lira 8 minutos de leitura
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Histórias verticais, capítulos de poucos minutos e um gancho antes que o público deslize a tela. Esses elementos aparecem em quase tudo o que hoje recebe o nome de microdrama. A semelhança, porém, termina rápido.

Algumas produções são feitas para aplicativos que cobram por episódio. Outras funcionam como publicidade para marcas. Há criadores que usam séries curtas para desenvolver personagens e testar uma propriedade intelectual. No Brasil, a Globo tenta transportar para o celular a experiência acumulada em quase 60 anos de novelas.

Microdrama, micronovela e novela vertical passaram a ser usados como termos quase intercambiáveis. Na prática, descrevem produtos, estratégias de distribuição e modelos de negócio diferentes.

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A distinção foi apresentada por Christina Richardson, criadora, roteirista e diretora da série Besties, durante a 12ª edição do Fast Company Innovation Festival, realizada em Nova York. Segundo ela, existem pelo menos três grandes categorias de microdramas. A entrada de empresas como Globo e Fox torna esse mapa ainda mais complexo.

TRÊS TIPOS DE MICRODRAMA

O modelo mais conhecido é o dos aplicativos especializados. São produções feitas para maratonas, construídas em torno de conflitos imediatos, arcos emocionais e sucessivos ganchos. O público geralmente assiste aos primeiros capítulos de graça e depois precisa pagar uma assinatura ou comprar moedas para continuar.

É o território de plataformas como ReelShort, GoodShort e My Drama. Os episódios costumam durar entre 45 segundos e dois minutos. Uma temporada pode ter dezenas deles, liberados em sequência para estimular o consumo contínuo.

O segundo modelo é o dos microdramas de marcas. Nesse caso, as empresas financiam as próprias séries e incorporam produtos ou serviços à narrativa. A produção precisa funcionar como entretenimento, embora nasça vinculada a um objetivo comercial. Aqui entram os teasers, os trailers e, até mesmo, conteúdos seriados de bastidores.

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O terceiro usa o conteúdo curto para construir propriedade intelectual. Em vez de encerrar a história dentro de um aplicativo ou de uma campanha, o criador desenvolve personagens, universo e comunidade com a expectativa de levar aquele projeto para outros formatos.

É onde Christina posiciona Besties. Concebida em 2018 e lançada no IGTV em 2019, a série acompanha Rayven e Eric, dois amigos que atravessam conflitos amorosos enquanto tentam responder se homens e mulheres podem manter uma relação apenas platônica. “Minha visão original para Besties era criar um caminho do conteúdo até o longa-metragem: construir o universo, desenvolver os personagens, envolver o público e fazer com que ele quisesse mais. Depois, faríamos um filme”, afirmou Christina durante o evento.

Para os estúdios, o conteúdo curto também funciona como campo de teste para personagens, histórias e futuras franquias.

O percurso de Besties ajuda a mostrar o que esse modelo significa na prática. Segundo Christina, a primeira fase foi gravada com uma câmera DSLR antiga, sem equipe fixa e sem estrutura própria de luz ou som. Após um intervalo de seis anos, o projeto voltou à produção. Hoje, seus 22 episódios podem ser vistos no Instagram e no YouTube Shorts.

Essa terceira categoria ajuda a explicar o interesse da Fox. Em vez de usar os vídeos apenas para acumular visualizações, o estúdio procura criadores que já tenham construído histórias, formatos e uma relação direta com a audiência.

A FOX BUSCA AS PRÓXIMAS FRANQUIAS ENTRE CRIADORES

O Fox Creator Studios foi criado para desenvolver projetos com talentos que cresceram no ambiente digital. A empresa oferece acesso a capital, produção, publicidade e distribuição. Os criadores entram com a linguagem, o formato e a comunidade que construíram de maneira independente.

Durante o Innovation Festival, Rob Wade, CEO da Fox Entertainment, disse que as possibilidades de monetização, distribuição e investimento de marcas amadureceram a ponto de justificar novas apostas em conteúdo original.

Billy Parks, diretor do Fox Creator Studios, afirmou que os criadores passaram os últimos 10 ou 15 anos construindo propriedade intelectual, programas, negócios e públicos na internet. Agora, a empresa tenta conectar esse trabalho à estrutura de um estúdio tradicional.

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O critério não se resume ao tamanho da audiência. A Fox trabalha com nomes de escalas muito diferentes, incluindo Josh Richards, que reúne dezenas de milhões de seguidores. Em setembro de 2026, o perfil de Besties no Instagram tinha cerca de 28,5 mil seguidores. Ainda assim, o Fox Creator Studios passou a apoiar a terceira e a quarta temporadas da série.

O contraste sugere que o estúdio observa mais do que alcance. Também pesam a linguagem, os personagens e a possibilidade de ampliar uma história.

Cena de Novela tudo por uma segunda chance
Novela vertical da Globo, um tipo de microdrama. Crédito: Globo

Christina pretende transformar Besties em uma franquia, com versões ambientadas em Los Angeles e Atlanta e a possibilidade de levar o formato a outros países. “Estamos realmente procurando esses contadores de histórias”, disse Parks.

Para o executivo, criadores como Christina oferecem elementos que os estúdios sempre buscaram: voz própria, personagens e uma relação comprovada com o público. A diferença é que agora eles não precisam esperar a autorização de uma emissora para colocar a primeira versão de uma história no ar.

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A Fox também participa do modelo mais próximo aos aplicativos. A companhia fechou um acordo com a Holywater Tech, dona do My Drama, para produzir mais de 200 títulos verticais em troca de uma participação na empresa, segundo a Reuters.

Uma mesma companhia, portanto, pode operar em mais de uma categoria. No Brasil, a Globo usa com frequência as expressões micronovela e novela vertical. Normalmente optando por atores que tem grande base de audiência nas redes sociais.

UM MERCADO BILIONÁRIO EM BUSCA DE LINGUAGEM

O interesse dos grandes grupos acompanha o crescimento da audiência. Os microdramas devem gerar US$ 1,5 bilhão em receita nos Estados Unidos em 2026 e se aproximar de US$ 2 bilhões no próximo ano, segundo estimativas da consultoria Omdia reunidas pela Reuters.

O número de usuários mensais no país passou de 26 milhões, em 2024, para 66 milhões em 2025.

O custo e o ritmo de produção são parte do apelo. Uma temporada pode reunir de 50 a 75 episódios, custar entre US$ 100 mil e US$ 300 mil e ficar pronta em cerca de três meses. Um único episódio de uma sitcom tradicional de meia hora custa de US$ 2 milhões a US$ 4 milhões.

Também há diferenças de público e de distribuição. Os aplicativos costumam depender de romances melodramáticos, capítulos pagos e anúncios agressivos nas redes sociais.

As plataformas abertas funcionam como vitrines e permitem que criadores acompanhem comentários e respostas quase em tempo real. Emissoras como a Globo podem usar personagens conhecidos da televisão para levar audiência de uma tela a outra.

O PÚBLICO PARTICIPA, MAS NÃO ESCREVE TUDO

A resposta imediata da audiência é uma das vantagens das produções digitais. Christina afirmou que lê comentários e mensagens enviados pelos espectadores de Besties.

Como a história foi concebida antes de sua publicação, porém, essas respostas funcionam mais como confirmação de que os personagens continuam relevantes do que como uma sala de roteiro aberta.

“Minha visão para a história é muito forte. O público acaba reafirmando essa história e nos incentivando a continuar contando”, explicou.

O controle criativo também foi uma condição para a parceria com a Fox. Questionada sobre o que a faria rejeitar uma proposta, Christina respondeu que não aceitaria um acordo que retirasse dela a condução da obra. Ao mesmo tempo, ressaltou que criadores precisam colaborar ao entrar em uma estrutura tradicional de mídia.

“Você pode ter seus pontos inegociáveis e sua visão, mas ainda precisa ouvir”, afirmou.

Essa negociação também estará presente nos projetos dos grandes grupos. A linguagem das novelas, a lógica dos aplicativos e a relação dos criadores com suas comunidades não se encaixam automaticamente.

Cada empresa terá de decidir o que preservar e o que abandonar ao reduzir uma história a dois ou três minutos.

VERTICAL É A TELA, NÃO A HISTÓRIA

Chamar todas essas produções de microdramas ajuda a identificar uma mudança de hábito: mais histórias seriadas estão sendo pensadas para o celular. O termo, sozinho, diz pouco sobre quem produz, quem paga, onde o conteúdo circula ou o que poderá nascer dele.

Para Christina, tratar todas as produções verticais como uma única categoria esconde essas diferenças. “Vertical é a proporção da tela”, resumiu durante o painel.

A tela é a mesma. Os produtos, as estratégias e os modelos de negócio são diferentes.

A Globo quer descobrir como a novela brasileira se comporta nessa proporção. A Fox procura criadores cujas histórias possam crescer até se tornar franquias. Os aplicativos querem transformar o próximo gancho em pagamento.

Todos disputam a mesma tela, mas ainda estão construindo produtos diferentes.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil e jornalista formada pela ECA-USP. Cobre tecnologia, inteligência artificial, in... saiba mais