Quanto ganha um YouTuber no Brasil? (spoiler: não são milhões de reais)
Pesquisa mostra que há dinheiro na plataforma, mas poucos conseguem transformar a produção de conteúdo em renda suficiente para viver

Para muitos jovens, o sonho profissional já não está necessariamente ligado a carreiras tradicionais. Em vez de imaginar o futuro como engenheiro, professor ou médico, uma parcela da nova geração deseja trabalhar diante das câmeras, produzir vídeos e construir uma audiência própria.
Ser youtuber passou de hobby a possibilidade de carreira e, para alguns, a expectativa de alcançar fama, independência e dinheiro.
Em sua dissertação de mestrado defendida no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/ Unicamp), Gabriel Viana Braz analisou 895 canais brasileiros que tinham mais de 50 mil inscritos, começando em 2018 e acompanhando sua trajetória até 2026.
Ao final do estudo, pouco mais da metade permanecia ativa. Entre todos os canais analisados, 72% tinham renda estimada inferior a um salário mínimo (R$ 1.621). Considerando apenas os canais que continuavam ativos, o percentual cai para 58%.

No topo, a realidade é outra. Os 10 canais mais bem monetizados recebiam, em média, o equivalente a 343 salários mínimos por mês – cerca de R$ 500 mil. Entre a 11ª e a 50ª posição, a média caía para 45 salários mínimos (aproximadamente R$ 73 mil). Apenas 10% alcançavam renda equivalente a 10 salários mínimos.
Os dados revelam a principal contradição da economia dos criadores: há muito dinheiro circulando no YouTube, mas ele está concentrado em poucos canais. “Não é todo mundo que fica rico no YouTube. O que os dados mostram é qual a pirâmide que se desenha entre os que ficam”, afirma Braz.
O SONHO DE VIVER DA AUDIÊNCIA
A pesquisa ajuda a entender por que a criação de conteúdo ganhou espaço no imaginário profissional. Segundo Braz, três em cada quatro jovens entrevistados disseram desejar se tornar influenciadores. O Brasil também é apontado pelo pesquisador como o país com maior número de produtores de conteúdo do mundo.
O problema é que a visibilidade não se transforma automaticamente em salário. Visualizações podem abrir portas para publicidade, parcerias e negócios, mas o criador assume os custos e o risco de não ter retorno.
De fato, a audiência é uma das principais moedas desse mercado. Inscritos e visualizações ajudam a dimensionar um canal e podem influenciar o interesse de marcas.
Nesse quesito, uma mudança importante é que, a partir deste domingo (24 de agosto), vídeos longos e transmissões ao vivo passarão a registrar uma visualização assim que o conteúdo começar, aproximando a métrica daquela usada nos Shorts.
O aumento das views, porém, não significa aumento proporcional da audiência ou da renda: tempo de exibição e retenção continuam importantes.
A pesquisa Creators & Negócios 2025, da YOUPIX, reforça o peso da publicidade nesse mercado: 41% dos creators ainda vivem de conteúdo patrocinado. O estudo também analisa como os criadores estão monetizando e como a renda interfere na atividade.
O TRABALHO QUE NÃO APARECE NA TELA
A imagem de alguém sentado em frente a uma câmera e falando diretamente com o público simplifica o trabalho necessário para manter um canal. Por trás de um vídeo publicado existem pesquisas, planejamento, roteiro, gravação, edição, publicação, divulgação e análise dos resultados.
Paulo, um dos cinco casos analisados na dissertação, tem 58 anos, é doutor em ciências veterinárias e professor de uma universidade federal.
Depois das aulas e das reuniões do Comitê de Ética em Pesquisa, dedica parte da semana à produção de vídeos sobre futebol. Um vídeo de 40 minutos exige quase 15 horas de trabalho.
para a maioria, a plataforma funciona como complemento de renda, vitrine profissional ou porta de entrada para outras atividades.
Desde 2017, sua principal parceria é com uma empresa de análise de dados do site Cartola. Para ele, o YouTube funciona como uma vitrine para outras oportunidades.
Pedro, 31 anos, doutor em matemática, também utiliza a plataforma como complemento à carreira. Seu canal sobre ciência de dados ajuda a construir autoridade na área acadêmica e, ao mesmo tempo, gera uma fonte de renda paralela.
Já Gabriel, 27 anos, encontrou no YouTube uma primeira experiência profissional. Ele começou em 2013, depois de gravar uma partida de Yu-Gi-Oh que chegou a 30 mil visualizações. Hoje, mantém o maior canal sobre o tema na América do Sul e, segundo a pesquisa, 65% de sua renda vem de parcerias com marcas.
Essas trajetórias formam os três perfis identificados por Braz: “reconfiguração”, para profissionais que migraram para o ambiente digital; “complemento”, para quem utiliza o YouTube como atividade paralela; e “inserção e horizonte”, para quem encontra na plataforma sua primeira experiência profissional.
A AUTONOMIA QUE TEM REGRAS
O trabalho dos creators combina autonomia e dependência. O produtor escolhe o que gravar e quando publicar, mas não controla completamente a distribuição do conteúdo. Também precisa acompanhar mudanças nas regras de monetização e visibilidade e assumir os custos de produção.
Para Braz, esse modelo representa uma transferência de responsabilidade: o trabalhador assume o risco de investir tempo e dinheiro, enquanto a plataforma mantém o controle sobre distribuição e monetização.
Visualizações podem abrir portas para publicidade, parcerias e negócios, mas o criador assume os custos e o risco de não ter retorno.
A trajetória de Rafael, jornalista de 38 anos com passagens por Band, Record e SBT, mostra outro lado desse processo. Seu canal de vídeos curtos chegou a empregar 22 funcionários, mas o ritmo de produção levou a um burnout, segundo o relato analisado na dissertação de Braz.
“O lado ruim é a instabilidade. Você não pode falhar. Tem dia que eu estou muito ruim da cabeça e tenho que gravar. Você vira um personagem, uma persona”, diz o jornalista.
Para José Dari Krein, orientador da dissertação, essa instabilidade está ligada a um mercado de trabalho em que os riscos são cada vez mais transferidos para o trabalhador. “O discurso é cruel, porque diz que todo mundo tem essa oportunidade – afinal, todo mundo tem um celular na mão. Mas existe um filtro enorme. Poucos conseguem de fato ganhar dinheiro com isso”, analisa.
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A concentração da renda mostra que o YouTube pode, sim, se transformar em profissão. Mas, para a maioria, a plataforma funciona como complemento de renda, vitrine profissional ou porta de entrada para outras atividades, não como garantia de independência financeira.