Agentes de IA “fofinhos demais”. As big techs entraram na era kawaii?

De robôs peludos a personagens personalizáveis, empresas de tecnologia apostam no apelo emocional para aproximar consumidores de seus agentes de IA

big techs criam elementos "fofos" para representar seus agentes de IA
Créditos: Flandern/ Adobe Stock/ Minh Connors/ Bloomberg/Getty Images/ OpenAI

Grace Snelling 6 minutos de leitura
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Primeiro vieram as formas arredondadas. Depois, os brilhos e os gradientes. Agora, chegou a nova tendência de identidade visual da IA nas grandes empresas de tecnologia.

À medida que os maiores nomes da inteligência artificial apresentam novos recursos de agentes, todos estão convergindo para a mesma fórmula visual: pequenos seres fofinhos.

Em 11 de agosto, a SpaceXAI lançou o GrokBot, uma série de agentes de IA projetados para executar tarefas de forma autônoma, mesmo quando o computador do usuário está desligado. Eles são representados por formas com olhos enormes, semelhantes a esferas.

Em 8 de setembro, a Meta apresentou seu próprio agente, chamado Muse, que se parece com um brinquedo de pelúcia em forma de monstro. Ele também foi integrado a um chaveiro no estilo do Tamagotchi.

Depois, em 29 de setembro, a OpenAI entrou na onda com um conjunto de agentes de IA chamado dots, que se parecem com personagens personalizáveis da Pixar e foram descritos pela empresa como “extraordinariamente capazes” e “extraordinariamente fofos”.

Mas essa simplificação visual tem suas próprias desvantagens. À medida que a IA se consolida como uma ferramenta poderosa para o consumidor em um momento de pessimismo sem precedentes em relação à tecnologia, a tentativa de promover uma tecnologia nova – e, em grande parte, não testada – de forma superficial pode gerar uma reação negativa.

TUDO MUITO PARECIDO

Kevin Walker, diretor de criação da agência Buck, acompanhou de perto a queda das empresas de tecnologia no que ele chama de "poço gravitacional" estético – ou o fenômeno que faz com que as big techs se alinhem em torno dos mesmos símbolos visuais.

Em meados da década de 2010, a Buck foi contratada para ajudar o Facebook, antes de se tornar Meta, a organizar sua identidade visual e sua expressão de marca. Naquela época, diz Walker, não havia “uma ideia coesa do que era o Facebook ou de como a empresa iria se comunicar”.

A marca queria um sistema que destacasse sua capacidade de conectar pessoas do mundo inteiro, sem tentar retratar indivíduos de maneira literal.

A equipe da Buck chegou a um estilo de ilustração que chamou de Alegria. Ele representava pessoas de forma figurativa, com proporções ligeiramente distorcidas e fáceis de reproduzir.

Na época, recorda Walker, era uma “expressão de marca bastante singular”. Em pouco tempo, porém, empresas que iam da Airbnb à Hinge, passando pelo Google e pelo YouTube, adotaram identidades visuais semelhantes.

Assim como o esqueumorfismo nos primeiros anos da internet e a tendência de tornar tudo visualmente genérico no início da era dos aplicativos, o Alegria surgiu em um momento de transformação na relação dos usuários com a tecnologia.

reprodução de telas com os primeiros personagens que representavam o Facebook
Créditos: Adobe/ Google/ TikTok

À medida que a base de usuários do Facebook crescia rapidamente e chegava à casa dos bilhões, a marca precisava encontrar uma maneira de lidar com a narrativa emergente (e cada vez mais controversa) sobre as redes sociais e seu impacto na vida das pessoas. O Alegria foi uma das soluções para esse problema.

Logo, porém, a onipresença daquele tipo de ilustração no setor de tecnologia o transformou em um clichê desgastado e facilmente convertível em meme. O estilo virou uma representação visual de tudo o que havia de errado com a tecnologia.

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Internautas passaram a usá-lo como símbolo da tentativa das grandes empresas de tecnologia de parecer “autênticas” enquanto ampliavam seu controle sobre a vida, a atenção e os dados pessoais do público.

“Quando você tem esse poço gravitacional, parece que tudo acaba convergindo para o mínimo denominador comum. Esse foi um efeito colateral duradouro e lamentável daquele sistema do Alegria”, diz Walker. Em 2026, os mascotes de IA parecem prestes a enfrentar um destino semelhante.

FOFURA IRRESISTÍVEL

Dos olhos gigantes aos membros curtos e à pelagem macia, não há dúvida de que agentes de IA como o Muse, da Meta, o dots, da OpenAI, e os bots do Grok foram projetados para conquistar o afeto dos usuários.

Joshua Paul Dale é professor da Universidade Chuo, em Tóquio, autoproclamado pioneiro de um novo campo de estudos chamado “cute studies” (estudos da fofura) e autor do livro "Irresistible: How Cuteness Wired our Brains and Conquered the World" (Irresistível: como a fofura moldou nosso cérebro e conquistou o mundo, em tradução livre).

Segundo ele, há fundamentos sólidos na psicologia por trás desses designs. “Ver algo fofo estimula os centros de prazer do cérebro antes que você tenha a chance de pensar a respeito. Coisas fofas despertam uma forte motivação para a aproximação, ou seja, queremos mantê-las por perto”, diz Dale.

a tentativa de promover uma tecnologia nova como a IA de forma superficial pode gerar uma reação negativa.

Além disso, pesquisas indicam que tendemos a perdoar coisas fofas quando elas cometem erros. “Essa é uma questão delicada para as empresas de IA porque a IA generativa é conhecida por alucinar. Elas querem que você perdoe os erros, mas não que passe a esperar que eles aconteçam.”

Há, porém, um problema evidente em tornar os agentes de IA fofinhos – e essa é a principal lição que Walker, da Buck, tirou do poço gravitacional das ilustrações tecnológicas do Alegria: se todo mundo tem um mascote antropomórfico de IA, nenhum deles será memorável.

“Costumo dizer aos clientes com quem trabalho hoje: vocês precisam ser únicos. A primeira pergunta é: isso se sustenta por conta própria? Quando as pessoas veem essa identidade, entendem de que marca se trata? Se não entendem, se ficam confusas, vocês já fracassaram nesse ponto.”

O ANTÍDOTO CONTRA A FOFURA ARTIFICIAL

Em 2024, a Buck fez perguntas semelhantes ao trabalhar com a Notion no design do assistente animado de IA da marca.

A agência começou pelo que os usuários mais dedicados adoravam na plataforma: sua interface elegante e fácil de usar e sua estética de marca sofisticada, com ilustrações feitas à mão. A partir daí, transformou esses elementos em um personagem expressivo e elegante, composto por apenas alguns traços e pontos.

A equipe evitou deliberadamente clichês comuns na identidade visual da IA, como os brilhos mágicos, em favor de uma aparência que refletisse a própria plataforma.

“Conheça primeiro a sua marca”, aconselha Walker. “A Notion já havia estabelecido uma identidade tão ilustrativa que criar um mascote bidimensional, bastante minimalista, fazia todo o sentido.”

Outros designers estão seguindo uma abordagem semelhante. Arjun Mahesh é o principal designer da Hebbia, plataforma de IA voltada a instituições financeiras.

Recentemente, ele criou um assistente de IA chamado Max, que representa a infraestrutura proprietária da Hebbia – essencialmente, o sistema de software desenvolvido pela empresa que os clientes podem aplicar a modelos avançados de IA.

Mahesh afirma que projetou Max, que se parece com um robô modular em movimento espiralado, para “parecer vivo sem parecer um animal de estimação ou uma pessoa”.

“Queremos que ele seja marcante porque as pessoas confiam nele e porque funciona, não porque pisca os olhos para você e tenta fazer você se sentir culpado, como acontece com um Tamagotchi, por não alimentá-lo”, diz Mahesh.

Walker acredita que esse momento de convergência estética deveria acender sérios sinais de alerta nas empresas de IA, diante do risco de saturação e fadiga dos usuários, como aconteceu com o Alegria.

“Pequenas luzes de alerta precisam estar piscando: onde estaremos daqui a 12 meses? Como isso vai parecer?”, diz ele.

Por enquanto, porém, os mascotes tecnológicos estão oficialmente de volta e querem conquistar um lugar no seu coração e no seu fluxo de trabalho impulsionado por IA.

“Fofos ou não, os agentes de IA podem invadir nossa privacidade e vigiar cada movimento que fazemos”, diz Dale. “Mas, em um mundo que parece cada vez mais fora de controle, até mesmo a chance passageira de dizer ‘own’ pode parecer uma vitória.”


SOBRE A AUTORA

Grace Snelling é colaboradora da Fast Company e escreve sobre design de produto, branding, publicidade e temas relacionados à geração Z. saiba mais