A jaqueta criada para ser desmontada e reaproveitada

Com o programa System 0, a Arc’teryx quer mostrar que é possível combinar desempenho técnico, circularidade e um modelo de negócios lucrativo

jaqueta reciclável e desmontável da Arc’teryx
Crédito: Jeremy Lee/Arc’teryx

Elizabeth Segran 4 minutos de leitura
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Há uma década, a melhor maneira de vender um produto era dizer que ele era sustentável. Uma nova geração de startups prometia um futuro mais verde com tênis de lã merino, vestidos feitos de tecidos de estoque parado e jaquetas impermeáveis sem nenhum traço de plástico virgem.

Hoje, a indústria da moda parece um cemitério dessas marcas idealistas. A Allbirds, que já chegou a ser avaliada em mais de US$ 4 bilhões, foi obrigada a aceitar uma aquisição em uma liquidação. A Amour Vert entrou com pedido de falência. A Everlane foi adquirida por uma marca de ultrafast fashion.

Às vezes, parece que a moda sustentável é uma causa perdida. Mas, nos bastidores, um grupo de marcas tradicionais continua investindo tempo e capital para reduzir a pegada ambiental de suas roupas e cadeias de suprimentos. A Arc’teryx é uma delas.

Sediada em Vancouver, no Canadá, e fundada no universo do montanhismo, a Arc’teryx passou os últimos três anos desenvolvendo um ambicioso programa de circularidade chamado System 0.

Agora, acaba de anunciar o novo programa com o lançamento de uma jaqueta impermeável de proteção totalmente reciclável, a Sperro SV.

A peça foi projetada como uma prova de conceito para a transformação mais ampla da marca, combinando desempenho técnico com materiais que podem ser totalmente reciclados ao fim de sua vida útil. Nos próximos anos, a empresa pretende aplicar a mesma abordagem a todos os seus produtos.

“Todo produto que fabricamos começa com a solução de um problema para o atleta de montanha”, diz Stuart Haselden, CEO da Arc’teryx. “Se conseguirmos resolver problemas para pessoas que nem sequer se importam com circularidade e só querem uma ótima jaqueta, poderemos transformar a indústria.”

A JAQUETA MAIS COMPLEXA DE DESENVOLVER

Para provar que o System 0 poderia funcionar, a equipe escolheu de propósito um produto muito difícil de reinventar: a jaqueta técnica impermeável. Para montanhistas, ela é um equipamento essencial de segurança, além de ser uma jaqueta.

Ela é usada por equipes de busca e resgate, de montanha e atletas de modalidades alpinas. Por isso, precisa ser resistente às intempéries e durável, além de ter recursos funcionais, como capuzes para tempestades e bolsos compatíveis com o uso de arnês.

Quando a equipe começou a criar uma versão reciclável da jaqueta, concentrou-se em torná-la o mais básica possível, para facilitar sua desmontagem.

Mas os designs mais simples não atendiam aos padrões de segurança para montanhismo. Então, a Arc’teryx escolheu o caminho mais difícil, passando anos reengenheirando os materiais com a ajuda de parceiros técnicos da cadeia de fornecimento, como Gore-Tex e Aquafil.

A jaqueta resultante usa um tecido especial de náilon desenvolvido para durar e resistir a vários consertos. Quando a peça finalmente chega ao fim de sua vida útil, os componentes removíveis, como zíperes, reguladores dos punhos e refletores, são retirados.

Às vezes, parece que a moda sustentável é uma causa perdida.

Depois, o tecido principal pode passar pelo processo de regeneração química da Aquafil, sendo transformado novamente em náilon com qualidade equivalente à matéria-prima virgem.

“Sabíamos que era o problema mais difícil, mas começar pelo ponto mais complicado parece fazer sentido”, diz Alexandra Plante, vice-presidente de conceitos avançados da Arc’teryx.

“Resolver todos os problemas que precisávamos solucionar para criar um sistema para uma jaqueta técnica criaria um caminho mais fácil para outros produtos no futuro. Agora temos um roteiro de como fazer isso.”

A VANTAGEM ECONÔMICA DA ARC’TERYX

A Arc’teryx está mais bem posicionada para embarcar em uma estratégia de circularidade que exige vários anos e muito capital, algo em que startups menores fracassaram.

A empresa já opera em uma escala considerável e, como seus produtos são caros, trabalha com margens elevadas. Isso significa que dispõe de um orçamento significativo para inovação.

jaqueta reciclável e desmontável da Arc’teryx
Crédito: Achille Mauri/ Arc’teryx]

Também é uma empresa grande, o que lhe dá poder de negociação para convencer parceiros da cadeia de suprimentos a ajustar seus materiais para que possam ser processados por recicladores.

A Arc’teryx conta ainda com um robusto modelo de venda direta ao consumidor (DTC), que responde por cerca de 75% das vendas. Com uma rede global de mais de 200 lojas, é mais fácil para a marca se comunicar com seus clientes e incentivá-los a entregar seus próprios produtos usados.

Haselden quer que os consumidores enxerguem seus equipamentos usados como produtos que ainda têm valor, como acontece com um iPhone usado. Mas, em última análise, ele não acredita que a Arc’teryx possa contar com consumidores comprando a Sperro SV por boa vontade com o meio ambiente.

“Não esperamos que as pessoas a comprem porque ela é produzida de maneira circular”, diz ele. “Esperamos que a comprem por causa de seu design e desempenho.”

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Enquanto muitas marcas de roupas reduziram suas iniciativas ambientais por causa dos custos e da complexidade, a Arc’teryx espera que o System 0 se torne um farol para os setores de atividades ao ar livre e da moda de maneira mais ampla.

Ao provar que roupas técnicas de alto desempenho podem ser projetadas para alcançar a circularidade completa sem sacrificar a qualidade – e sustentadas por um modelo de negócios lucrativo e escalável –, a empresa pretende inspirar outras marcas a se juntarem a essa missão.


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais