Discos de vinil agora vêm com líquido, cabelo e imagens em movimento
Blood Records aposta em prensagens que misturam cores, líquidos, pós e até cabelo para transformar álbuns em peças de coleção

Quando a cantora e compositora britânica Sienna Spiro lançou seu aguardado álbum de estreia, "Visitor", em julho, ele chegou ao mercado em diferentes formatos: MP3, fita cassete, CD e uma variedade de discos de vinil coloridos – vermelhos, dourados e marrons – exclusivos de diferentes varejistas.
Mas três mil fãs receberam cópias com uma aparência bem diferente: discos com padrões mesclados em laranja e preto, com cores intensas em algumas unidades e quase translúcidas em outras.
A edição especial, criada pela Blood Records, empresa sediada em Londres, começou sua trajetória na fábrica de discos de vinil Press On Vinyl, no norte da Inglaterra.
Para produzi-la, um funcionário extraiu uma espécie de cordão de plástico preto, enrolou-o em torno de um disco de PVC cor de âmbar aquecido a cerca de 107 °C e prensou os dois materiais com uma prensa hidráulica, usando uma matriz com a gravação do álbum.
Vendido por US$ 40, o disco esgotou em 10 minutos no site da Blood Records. Desde 2018, a empresa comercializa prensagens de edição limitada de artistas independentes em ascensão, como Spiro, e de estrelas que lideram as paradas, como Olivia Rodrigo e Elton John. Atualmente, lança novas edições a cada dois dias. A maioria se esgota em menos de 15 minutos.
“Aprendemos desde cedo que nosso público não queria produtos convencionais”, afirma Craig Evans, fundador e CEO da Blood Records. “Queremos provocar uma reação visceral nas pessoas quando elas veem nossos discos pela primeira vez. O pior para mim é quando alguém compra um disco, abre a embalagem e diz: ‘ah, é um LP laranja’.”
PÓ, LÍQUIDO E ATÉ CABELO
À medida que os discos de vinil de uma única cor se tornaram comuns, as prensagens da Blood Records passaram a se destacar. Seus álbuns podem apresentar explosões de estrelas multicoloridas, padrões em espiral ou imagens de zootrópio, que parecem se movimentar quando o disco gira.
Em parceria com a Press On Vinyl, a Blood Records também desenvolveu máquinas capazes de produzir em escala discos de vinil com materiais incorporados.
1. Funcionário retira da máquina um disco de vinil laranja recém-moldado/ 2. Vinil marrom e preto é enrolado em torno do laranja para criar um efeito de ou ondulação/ 3. Acabamento de bordas logo após a prensagem, enquanto o disco ainda está quente/ 4. Sobras são recicladas para criar discos com combinações de cores aleatórias
Sob o selo Bad World, a empresa criou prensagens que contêm pó (uma substância branca sugestiva, em uma versão remixada de "Brat", de Charli XCX), líquido (em tom de café, numa edição lançada para celebrar o segundo aniversário da música “Espresso”, de Sabrina Carpenter) e até cabelo (no single “The Subway”, de Chappell Roan).
Com a expansão do mercado de discos de vinil – cujas vendas totais cresceram 8,6% em 2025, marcando o 19º ano consecutivo de alta –, a procura por edições exclusivas está disparando. Evans afirma que o negócio cresce 30% ao ano desde a fundação da empresa e que a expectativa é repetir esse ritmo em 2026.
Especialistas do setor dizem que o boom do vinil é, em parte, consequência de como o streaming tornou a experiência de ouvir música mais uniforme. “Ouvir no Spotify é a mesma coisa que ouvir na Apple ou na Amazon”, afirma Gary Kelly, gerente geral e diretor de receita da Interscope Capitol.
A empresa fez parcerias com a Blood Records para lançar vinis de tiragem limitada e vende suas próprias edições especiais por meio do Interscope Vinyl Collective. “As pessoas não querem apenas ter acesso à música. A posse ainda é importante para elas”, diz Kelly.
FORMATO VALORIZADO
Mas ter o mesmo disco de vinil preto que todo mundo tem é menos atraente, especialmente para os fãs mais jovens. A Discogs, plataforma online de compra e venda de discos, fitas cassete e CDs, constatou em uma pesquisa recente com seus usuários que 32% das pessoas de 18 a 24 anos colecionam vinis por seu apelo visual.
“Sempre achei que os discos são a forma mais perfeita de arte cinética”, afirma Jen Agosta, vice-presidente de marca e design de produto da Discogs.

Segundo Evans, depois de inicialmente atrair uma proporção maior de homens de meia-idade, a empresa passou a ter como principal público pessoas de 14 a 25 anos e procura manter os preços acessíveis para essa faixa etária.
A Blood Records, que nunca recebeu investimentos externos, financia cada prensagem com encomendas antecipadas. As tiragens podem variar de 250 a 30 mil discos. A maioria dos álbuns custa entre US$ 40 e US$ 60, dependendo da complexidade do projeto visual.
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Ao mesmo tempo, Evans pretende continuar “ampliando os limites” e encontrar novas maneiras de valorizar ainda mais o formato. A Blood Records já está experimentando incorporar peças impressas em 3D e flores aos discos, enquanto trabalha com músicos para transformar suas ideias em edições limitadas.
“Os artistas estão acostumados a procurar suas gravadoras e ouvir: ‘isso nunca vai acontecer’”, diz ele. “Eles vêm até nós e respondemos: ‘sim, provavelmente conseguimos fazer isso. Só precisamos encontrar um jeito’.”



