A ponte mais antiga de Paris virou uma caverna

Projeto transforma a histórica Pont Neuf em uma instalação sensorial inspirada na arte monumental de Christo e Jeanne-Claude

instalação artística na Pont Neuf, em Paris
Crédito: Atelier JR

María José Gutierrez Chavez 4 minutos de leitura

A ponte mais antiga de Paris ganhou uma aparência completamente nova.

Ao envolver a Pont Neuf, de 419 anos, com uma estrutura inflável revestida por lona, o artista francês JR – muitas vezes chamado de "Banksy francês" – transformou um dos principais cartões-postais da cidade em uma obra de arte monumental.

Intitulada La Caverne du Pont Neuf (A caverna da Pont Neuf), a instalação pode ser visitada gratuitamente até domingo (28 de junho).

A inspiração remonta à época em que JR tinha apenas dois anos de idade, quando Christo e Jeanne-Claude – conhecidos por suas instalações ambientais em grande escala – envolveram a mesma ponte em tecido na obra The Pont Neuf Wrapped (A Pont Neuf Empacotada).

"Mais tarde descobri o trabalho deles, esses projetos monumentais no espaço público, e eles me mostraram que esse caminho era possível", afirma JR. "Enquanto eles destacavam o real, revelando as linhas e as formas da ponte, eu quis fazer o oposto: fazê-la desaparecer e trazer o surreal para o coração de Paris."

A instalação transforma a ponte do século 17 em uma caverna artificial que pode ser explorada pelos visitantes, ao mesmo tempo em que converte a estrutura em um trompe-l'œil – uma ilusão de ótica hiper-realista.

Os quase 19 mil metros quadrados de lona de poliéster impressa que revestem a ponte exibem a imagem do calcário luteciano, também conhecido como Pedra de Paris, material utilizado tanto na construção da Pont Neuf quanto de boa parte da cidade.

A realização de La Caverne começou quando Vladimir Yavachev, sobrinho de Christo, convidou JR para criar uma obra em homenagem aos 40 anos da instalação original. O artista aceitou imediatamente. Christo morreu em 2020, enquanto Jeanne-Claude faleceu em 2009.

Christo e Jeanne-Claude na "Pont Neuf Embalada"
Christo e Jeanne-Claude na "Pont Neuf Embalada"/ Paris, 1985 (Crédito: Wolfgang Volz/ Fundação Christo e Jeanne-Claude)

O projeto mobilizou cerca de 850 profissionais e parceiros. Os materiais também foram produzidos regionalmente: o tecido foi fabricado na Europa, impresso na França e costurado manualmente por artesãos da Bretanha.

"Por baixo dela existe algo muito antigo. Desde as primeiras pinturas nas paredes das cavernas, os seres humanos transformam a realidade em narrativa. Talvez tenha sido aí que o fantástico começou", diz JR.

"Essa capacidade de criar, contar e compartilhar histórias talvez seja o que nos diferencia do restante do mundo vivo. La Caverne deve ser encarada como uma história e uma aventura."

"La Caverne du Pont Neuf", instalação artística na ponte mais antiga de Paris
Crédito: Laurent Caron/Hans Lucas/ AFP/ Getty Images

Ao caminhar pelo interior da caverna escura, os visitantes encontram uma fragrância criada pela jornalista e especialista em perfumes Sarah Bouasse, uma trilha sonora composta por Thomas Bangalter (integrante da dupla Daft Punk) e experiências de realidade aumentada desenvolvidas pelo estúdio de AR da Snap.

Para JR, é justamente o encontro entre todos esses elementos e o público que completa a obra.

"La Caverne du Pont Neuf", instalação artística na ponte mais antiga de Paris
Crédito: Owen Franken/Corbis/ Getty Images

"Prefiro que ela pertença a todos do que permaneça sendo minha", afirma. "Quero que as pessoas saiam da escuridão para a luz levando consigo a sensação de que é no desconhecido que estamos mais vivos."

La Caverne du Pont Neuf dá continuidade a projetos anteriores do artista em Paris, como Chiroptera, de 2023, quando ele cobriu o Palais Garnier – a histórica casa de ópera da cidade – com a imagem de uma enorme caverna.

"La Caverne du Pont Neuf", instalação artística na ponte mais antiga de Paris
Crédito: Gauthier Bedrignans/ Hans Lucas/ AFP/ Getty Images

Com a nova instalação, JR convida cada visitante a construir sua própria interpretação da obra, inspirado pela filosofia de Christo e Jeanne-Claude de que a missão da arte é "nos fazer pensar".

"O debate que uma obra de arte pública provoca tem o mesmo valor que sua realização", diz o artista. "A arte é uma transformação, uma maneira de renovar a forma como enxergamos o mundo ao nosso redor."

UMA OBRA MARCADA PELO PRÓPRIO PROCESSO

Criar uma instalação desse porte ao ar livre também significa ficar sujeito aos caprichos da natureza – e JR experimentou isso na prática.

Poucos dias antes da inauguração, fortes rajadas de vento acompanhadas de granizo rasgaram parte da lona, obrigando a equipe a adiar a abertura ao público. Para o artista, porém, o episódio acabou acrescentando uma nova camada de significado ao trabalho.

processo de reparo da instalação artística "La Caverne du Pont Neuf"
Crédito: Éléa Jeanne Schmitter/ Atelier JR

"Não havia outra opção além de consertar tudo ali mesmo, em público, no coração de Paris, diante dos olhos de pedestres e jornalistas. A equipe foi incansável e os escaladores subiram na estrutura para restaurá-la, dando ainda mais vida à nossa ficção", afirma.

"No meu trabalho, o processo de criação faz parte da própria obra. Agora ela carrega uma cicatriz, uma memória do seu reparo."


SOBRE A AUTORA

María José Gutierrez Chavez é editora associada da Inc. e da Fast Company. Antes de ingressar na Mansueto Ventures, estagiou no The Bo... saiba mais