A ponte mais antiga de Paris virou uma caverna
Projeto transforma a histórica Pont Neuf em uma instalação sensorial inspirada na arte monumental de Christo e Jeanne-Claude

A ponte mais antiga de Paris ganhou uma aparência completamente nova.
Ao envolver a Pont Neuf, de 419 anos, com uma estrutura inflável revestida por lona, o artista francês JR – muitas vezes chamado de "Banksy francês" – transformou um dos principais cartões-postais da cidade em uma obra de arte monumental.
Intitulada La Caverne du Pont Neuf (A caverna da Pont Neuf), a instalação pode ser visitada gratuitamente até domingo (28 de junho).
A inspiração remonta à época em que JR tinha apenas dois anos de idade, quando Christo e Jeanne-Claude – conhecidos por suas instalações ambientais em grande escala – envolveram a mesma ponte em tecido na obra The Pont Neuf Wrapped (A Pont Neuf Empacotada).
"Mais tarde descobri o trabalho deles, esses projetos monumentais no espaço público, e eles me mostraram que esse caminho era possível", afirma JR. "Enquanto eles destacavam o real, revelando as linhas e as formas da ponte, eu quis fazer o oposto: fazê-la desaparecer e trazer o surreal para o coração de Paris."
A instalação transforma a ponte do século 17 em uma caverna artificial que pode ser explorada pelos visitantes, ao mesmo tempo em que converte a estrutura em um trompe-l'œil – uma ilusão de ótica hiper-realista.
Os quase 19 mil metros quadrados de lona de poliéster impressa que revestem a ponte exibem a imagem do calcário luteciano, também conhecido como Pedra de Paris, material utilizado tanto na construção da Pont Neuf quanto de boa parte da cidade.
A realização de La Caverne começou quando Vladimir Yavachev, sobrinho de Christo, convidou JR para criar uma obra em homenagem aos 40 anos da instalação original. O artista aceitou imediatamente. Christo morreu em 2020, enquanto Jeanne-Claude faleceu em 2009.

O projeto mobilizou cerca de 850 profissionais e parceiros. Os materiais também foram produzidos regionalmente: o tecido foi fabricado na Europa, impresso na França e costurado manualmente por artesãos da Bretanha.
"Por baixo dela existe algo muito antigo. Desde as primeiras pinturas nas paredes das cavernas, os seres humanos transformam a realidade em narrativa. Talvez tenha sido aí que o fantástico começou", diz JR.
"Essa capacidade de criar, contar e compartilhar histórias talvez seja o que nos diferencia do restante do mundo vivo. La Caverne deve ser encarada como uma história e uma aventura."

Ao caminhar pelo interior da caverna escura, os visitantes encontram uma fragrância criada pela jornalista e especialista em perfumes Sarah Bouasse, uma trilha sonora composta por Thomas Bangalter (integrante da dupla Daft Punk) e experiências de realidade aumentada desenvolvidas pelo estúdio de AR da Snap.
Para JR, é justamente o encontro entre todos esses elementos e o público que completa a obra.

"Prefiro que ela pertença a todos do que permaneça sendo minha", afirma. "Quero que as pessoas saiam da escuridão para a luz levando consigo a sensação de que é no desconhecido que estamos mais vivos."
La Caverne du Pont Neuf dá continuidade a projetos anteriores do artista em Paris, como Chiroptera, de 2023, quando ele cobriu o Palais Garnier – a histórica casa de ópera da cidade – com a imagem de uma enorme caverna.

Com a nova instalação, JR convida cada visitante a construir sua própria interpretação da obra, inspirado pela filosofia de Christo e Jeanne-Claude de que a missão da arte é "nos fazer pensar".
"O debate que uma obra de arte pública provoca tem o mesmo valor que sua realização", diz o artista. "A arte é uma transformação, uma maneira de renovar a forma como enxergamos o mundo ao nosso redor."
UMA OBRA MARCADA PELO PRÓPRIO PROCESSO
Criar uma instalação desse porte ao ar livre também significa ficar sujeito aos caprichos da natureza – e JR experimentou isso na prática.
Poucos dias antes da inauguração, fortes rajadas de vento acompanhadas de granizo rasgaram parte da lona, obrigando a equipe a adiar a abertura ao público. Para o artista, porém, o episódio acabou acrescentando uma nova camada de significado ao trabalho.

"Não havia outra opção além de consertar tudo ali mesmo, em público, no coração de Paris, diante dos olhos de pedestres e jornalistas. A equipe foi incansável e os escaladores subiram na estrutura para restaurá-la, dando ainda mais vida à nossa ficção", afirma.
"No meu trabalho, o processo de criação faz parte da própria obra. Agora ela carrega uma cicatriz, uma memória do seu reparo."

