A Sagrada Família virou o Lego mais complexo já criado

Projeto segue a história da basílica peça por peça e reproduz até os efeitos visuais dos famosos vitrais do arquiteto Antoni Gaudí

conjunto Lego que reproduz a igreja Sagrada Família, de Barcelona
Crédito: Lego

Jesus Diaz 4 minutos de leitura

Há 12.060 razões para deixar a agenda livre no fim de semana. Esse é o número de peças do novo Lego da Sagrada Família. Trata-se do maior e mais complexo conjunto já produzido pela empresa em quantidade de peças, inspirado em um dos edifícios mais ousados da história da arquitetura.

Com preço de US$ 800, o modelo não é para qualquer bolso. Ainda assim, sai mais barato do que comprar uma passagem para Barcelona e enfrentar as multidões de turistas que cercam esse marco arquitetônico.

Transformar a basílica de Antoni Gaudí – uma obra que atravessa séculos, parece crescer organicamente e desafia qualquer lógica matemática convencional – em um objeto de decoração capaz de caber em uma estante não é um simples exercício de estilo. É um enorme desafio de design, e os projetistas da Lego o resolveram de forma magistral.

Com dimensões de aproximadamente 61cm x 47cm x 38cm, o conjunto representa o ápice da linha Lego Arquitetura, dedicada a recriar em blocos algumas das maiores maravilhas arquitetônicas do mundo.

conjunto Lego que reproduz a igreja Sagrada Família, de Barcelona
Crédito: Lego

Mais do que uma réplica, trata-se de uma tentativa genuína de condensar um dos edifícios visualmente mais complexos já concebidos em um objeto decorativo que captura sua essência de maneira impressionista, mas com aparente precisão absoluta.

A missão, segundo o designer da Lego Rok Žgalin Kobe, não era simplificar a visão de Gaudí, mas homenageá-la. "Sentimos uma enorme responsabilidade em fazer justiça à Sagrada Família por meio deste projeto", afirma Žgalin Kobe.

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"Nosso objetivo era honrar a visão de Gaudí com o máximo respeito, capturando o ritmo da construção da basílica, sua extraordinária complexidade e ambição, e traduzindo tudo isso em uma experiência de montagem imersiva."

A chave dessa tradução, explica o designer, está na sugestão psicológica. O agrupamento de peças usado para construir as torres, por exemplo, não recria literalmente cada detalhe da estrutura de pedra. Em vez disso, fornece ao cérebro informação geométrica suficiente para que ele complete a imagem mentalmente.

conjunto Lego que reproduz a igreja Sagrada Família, de Barcelona
Crédito: Lego

O Lego funciona porque nossa mente preenche as lacunas. E quanto melhor o designer, menos esforço o cérebro precisa fazer para concluir a ilusão.

Na Sagrada Família, as torres criadas por Gaudí são cobertas por ornamentações orgânicas inspiradas na natureza – uma pedra que parece ter crescido espontaneamente, e não sido esculpida.

UMA OBRA-PRIMA SURREAL

A Sagrada Família é uma das grandes histórias inacabadas da civilização moderna. A construção começou em 19 de março de 1882, encomendada pelo livreiro e filantropo catalão Josep Maria Bocabella.

O primeiro arquiteto do projeto, Francisco de Paula del Villar, abandonou a obra em 1883, após divergências com o conselheiro arquitetônico de Bocabella, Joan Martorell. Naquele momento, pouco mais do que a cripta havia sido concluído.

conjunto Lego que reproduz a igreja Sagrada Família, de Barcelona

Nesse mesmo ano, Antoni Gaudí, então com apenas 31 anos, assumiu o projeto e praticamente recomeçou do zero. Ele transformou a igreja em uma floresta vertical de torres orgânicas, arcos parabólicos e vitrais concebidos para inundar o interior com luz colorida. Sabia, desde o início, que jamais veria a obra concluída.

Em 7 de junho de 1926, aos 73 anos, Gaudí foi atropelado por um bonde na Gran Via de les Corts Catalanes. Morreu três dias depois, em 10 de junho. Neste ano, completa-se o centenário de sua morte. Na época, cerca de 15% do edifício estava concluído.

A sequência de montagem do conjunto acompanha a ordem real de construção da basílica ao longo dos últimos 144 anos.

A Guerra Civil Espanhola agravou ainda mais os desafios da construção. Em 1936, anarquistas invadiram o canteiro de obras, destruíram os planos originais e modelos de gesso de Gaudí e incendiaram seu estúdio.

Foram necessários 16 anos de reconstrução meticulosa, baseada em fotografias e fragmentos sobreviventes, antes que os trabalhos pudessem avançar novamente.

Em 20 de fevereiro de 2026, os operários instalaram finalmente o braço superior da cruz que coroa a Torre de Jesus Cristo, a torre central que Gaudí sempre imaginou como a mais alta do conjunto, alcançando 172 metros de altura.

Com isso, a Basílica da Sagrada Família tornou-se oficialmente a igreja mais alta do mundo, superando a Catedral de Ulm, na Alemanha.

UM LEGO QUE SEGUE A VERDADEIRA HISTÓRIA DA OBRA

O conjunto da Lego reflete essa longa trajetória histórica de maneira literal. A sequência de montagem acompanha a ordem real de construção da basílica ao longo dos últimos 144 anos.

O processo começa pela abside e pela cripta. Em seguida, o construtor avança pela Fachada da Natividade e pela dramática Fachada da Paixão, sobe pelas grandes naves e pela Sacristia Ocidental, completa as seis torres icônicas e encerra a montagem com a Sacristia Oriental e a Fachada da Glória.

detalhe do conjunto Lego que reproduz a igreja Sagrada Família, de Barcelona
Crédito: Lego

Mas talvez o detalhe mais impressionante seja o efeito dos vitrais. Gaudí projetou as janelas da Sagrada Família segundo uma lógica cuidadosamente orientada: tons quentes, como âmbar e vermelho, voltados para o oeste para capturar a luz do pôr do sol; azuis e verdes voltados para o leste para refletir a luminosidade da manhã.

O resultado é um ambiente interno que muda constantemente ao longo do dia. Obviamente, a versão da Lego não pode acompanhar o movimento do Sol. Ainda assim, os designers incorporaram essa sugestão cromática diretamente à estrutura do modelo.

vista do interior do conjunto Lego que reproduz a igreja Sagrada Família, de Barcelona
Crédito: Lego

Ao final temos um conjunto que transmite sensação de luminosidade em vez de simplesmente exibir elementos decorativos. Um objeto pensado para ser admirado de todos os ângulos – inclusive por dentro.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais