Eu ajudei a eliminar a fricção da sua vida. Agora pago para tê-la de volta

Passei anos tornando entregas e corridas mais rápidas. Depois percebi que estava pagando para recuperar o tempo que ajudava a eliminar

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Carla Vass 6 minutos de leitura
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“Toque em um botão, arranje uma corrida.”

Repetíamos isso como um mantra nos primeiros dias da Uber. Todas as métricas que acompanhávamos obsessivamente estavam a serviço daquela frase: taxas de cancelamento, ETA (tempo estimado de chegada) de dois minutos, solicitações versus viagens concluídas. Em dias de promoção, você podia tocar no botão e conseguir gatinhos.

Parecia mágica, e esse era o objetivo. E, como toda mágica, exigia uma enorme quantidade de trabalho pouco glamouroso, organizado nos bastidores: engenheiros, motoristas, profissionais de operações, todos garantindo que o carro chegasse.

Se conseguíamos entregar um carro em poucos minutos, por que não um jantar? Entrei para a equipe fundadora do Uber Eats e passei anos explicando aos restaurantes parceiros o que aquela mágica exigia.

Éramos obcecados pelos horários de retirada. As batatas fritas precisavam estar dentro de uma sacola em até 10 minutos, ou toda a cadeia se rompia.

Éramos obcecados pelos sistemas de alertas, pelo tempo de entrega e por quantas retiradas e entregas um motorista precisava fazer por hora para ser “produtivo” – o que significava atingir uma meta de ganhos que havíamos estabelecido em mais ou menos o salário mínimo.

Quando minha equipe entrava em parafuso porque os tempos de entrega estavam oito minutos acima do esperado, eu lembrava: "pessoal, estamos apenas entregando hambúrgueres". Estávamos, mas não parecia.

Também estávamos construindo um mundo sem atrito, embora ninguém naquela sala tivesse colocado as coisas nesses termos.

Éramos uma peça de uma confluência – o iPhone, os dados baratos, a geolocalização no bolso – que tornou possível, pela primeira vez, tocar em um retângulo de vidro e convocar praticamente qualquer coisa. Um carro. Um hambúrguer. Um encontro.

Era muito trabalho, e o tempo todo.

Então entrou em cena uma amiga, que sugeriu que talvez eu estivesse exigindo demais de mim mesma. “Você precisa se afastar”, disse ela. “Para bem longe.”

O RALLY

Foi então que fiz algo decididamente cheio de atrito: participei de um rally de carros. Nunca tinha participado de um rally. Não sabia o que esperar, além de que, bem, alguém ia dirigir – e eu não estaria trabalhando.

Então, foi isso que aconteceu: passei uma semana dirigindo pela Europa sem GPS (as regras do rally proibiam GPS). Liberdade! Todas as noites, passávamos um chapéu, sorteando quem dividiria um carro com quem na viagem do dia seguinte. Serendipidade!

Os carros precisavam ser anteriores ao ano da morte de Freddie Mercury (1991), o que parecia poético e, convenientemente, justificava o fato de quebrarem a cada 15 minutos. Caos!

Retiramos o atrito da vida de todo mundo e agora o vendemos de volta para quem pode pagar.

Certa vez, passei oito horas no acostamento de uma estrada na Croácia com um negociador de commodities aposentado, três vezes mais velho que eu, esperando a troca de um pneu furado.

Ele me aconselhou a não deixar meu emprego naquela época (no Goldman Sachs), que eu odiava na maior parte do tempo. Nunca fuja de algo de que você não gosta, ele disse. Corra em direção a algo de que você gosta.

O rally atraía pessoas com semanas livres para matar, que todos os anos percorriam uma rota diferente, sem pressa, em carros antigos que adoravam, simplesmente porque sim.

Pessoas divertidas, aventureiras, ecléticas na maneira de encarar a vida, fabulosamente ricas, adornadas com joias e relógios caros para os quais nunca olhavam. Eu era uma espécie de ponto fora da curva naquele grupo (consciente de que minhas férias estavam acabando, eu olhava o relógio o tempo todo).

Até hoje, não tenho certeza se existe algo melhor do que acelerar por uma rodovia em um Alfa Romeo, com o vento no cabelo, gritando “Bennie and the Jets” a plenos pulmões.

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Ou espremida no minúsculo banco traseiro do Alfa Romeo, passando uma garrafa de prosecco de mão em mão depois de convencer o dono de um beach club a vendê-la antes de a temporada ter começado, porque você estava com fome e precisava almoçar e, com mais urgência, de álcool.

Na maior parte do tempo, o rally custa suas tardes. Pedaços de tempo que você nunca terá de volta, nos quais nada de muito importante acontece. Em termos nominais, tratando o tempo como o luxo que ele é. Sentada no acostamento, dirigindo no limite, conhecendo seus novos amigos da Austrália, do Reino Unido e até de Los Angeles, avançando pelo prosecco, ensinando uns aos outros as danças que fazem sucesso em seus países, enquanto aficionados mexem em motores mais antigos do que você, tentando fazê-los (e a você) voltar à vida.

Não percebi o contraste na época. Eu voltava de avião de um acostamento na Croácia e entrava em uma reunião diária sobre o nível exato de decibéis do toque que avisava a um restaurante que seu motorista havia chegado.

Levei anos para perceber que estava pagando, a um custo considerável, para comprar de volta exatamente aquilo que me pagavam para eliminar.

A INCONVENIÊNCIA COMO AVENTURA

O atrito costumava ser gratuito e universal. Você se debruçava sobre um mapa enorme, com as bordas enroladas, para descobrir como ir do ponto A ao ponto B.

Quando o carro quebrava, você esperava, porque não havia botão. Ninguém vendia isso para você; era simplesmente o preço de ir a algum lugar. A inconveniência e a aventura faziam parte do pacote.

Agora, o atrito é um bem de luxo, reembalado e precificado como glamping (glamour + camping). É a cabana sem Wi-Fi. A escola sem telas para os filhos das pessoas que constroem as telas. O rally de carros clássicos no lugar do veículo autônomo. E você só pode participar se alguém o convidar.

Retiramos o atrito da vida de todo mundo e agora o vendemos de volta para quem pode pagar.

O piso continua descendo. Estamos terceirizando a última coisa que restava: pensar. Você não pensa mais em como formular o e-mail. Pede para a IA. E por que não pediria, quando há tantos e-mails para enviar?

Há muito a ser dito em favor de um mundo sem atrito. Eu ajudei a construí-lo e continuo usando tudo isso. E abrir mão dele não é exatamente algo prático.

Mesmo que você quisesse preparar o jantar em vez de pedir comida, tem uma hora disponível? Seu trabalho exige que você esteja sempre disponível, e não existem viagens de glamping sem o emprego.

No fim, eu me afastei. Passei quase 15 anos sendo paga para eliminar a espera dos outros; usei o dinheiro para comprar de volta a minha própria espera. E o que fiz com ela? Escrevi um romance tendo como pano de fundo um rally de carros clássicos (e, também, um pouco de trapaça corporativa).

Não consigo apontar para nada concreto que tenha surgido daquelas tardes sufocantes em um carro antigo sem ar-condicionado nem airbags, em um acostamento de um país que eu não teria conseguido localizar em um mapa.

Nada foi produzido. Nada chegou em menos de 10 minutos. Mas minha vida certamente ficou mais rica por causa de tudo aquilo – das horas desperdiçadas, dos pneus furados, do trader aposentado que acabou tendo razão.

E acho que, no fim das contas, acabei escrevendo um livro sobre isso.


SOBRE A AUTORA

Carla Vass foi a 150ª funcionária da Uber e membro da equipe fundadora do UberEATS. Mais tarde, foi fundadora e CEO da rede social hip... saiba mais