Como a Adidas criou um tênis de corrida de apenas 97 gramas

Vencedor do Innovation by Design, Adizero Adios Pro Evo 3 ajudou a quebrar a barreira das duas horas na maratona e revela a estratégia da empresa para acelerar novos produtos

Imagem do Adizero Adodos Pro Evo3, tenis da Adidas que ajudou a quebrar a barreira de duas horas de maraotna
Créditos: Heami Lee

Liz Stinson 7 minutos de leitura
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*Com informações de Liz Stinson; reportagem adicional de Camila de Lira, de Nova York.

Um tênis profissional de corrida pesa, em média, 230 gramas. O novo Adizero Adios Pro Evo 3, da Adidas, tem apenas 97 gramas — menos do que algumas barras de sabão.

O modelo levou mais de três anos para ser desenvolvido e combina uma espuma ultraleve, uma estrutura de sustentação em formato de ferradura e um cabedal inspirado nas velas usadas no kitesurf. Em abril, ganhou projeção mundial nos pés do queniano Sabastian Sawe, primeiro atleta a completar oficialmente uma maratona em menos de duas horas.

Agora, o tênis foi reconhecido como vencedor da categoria de design de produto do Innovation by Design Awards 2026, premiação anual da Fast Company.

Por trás do produto, porém, existe uma mudança maior. Na 12 Innovation Festival, realizado em Nova York, o CEO da Adidas, Bjørn Gulden, e Marc Makowski, vice-presidente sênior de operações e implementação de design criativo e inovação, contaram que a empresa precisou rever a própria maneira de desenvolver tecnologia.

O desafio não era apenas fazer um tênis mais leve. Era impedir que processos, planilhas e uma sucessão de negativas bloqueassem ideias antes que elas chegassem aos atletas.

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O TÊNIS QUE QUEBROU A BARREIRA DAS DUAS HORAS

A Adidas estabeleceu dois objetivos para o Evo 3: criar o tênis de corrida mais leve já produzido pela marca e, ao mesmo tempo, aumentar a eficiência dos atletas.

Na corrida, essa eficiência é medida pela chamada economia de corrida: a quantidade de energia necessária para manter determinada velocidade. Quanto menos energia o atleta gasta, maior é sua capacidade de sustentar um ritmo elevado ao longo da prova.

Para isso, a empresa reformulou diferentes partes do calçado. A nova versão da espuma Lightstrike Pro Evo ficou cerca de 50% mais leve e ajudou a reduzir em 30% o peso do tênis em relação à geração anterior. Segundo a Adidas, o conjunto melhora a economia de corrida em 1,6%. “Queríamos ter o tênis mais leve e, ao mesmo tempo, o mais rápido já construído”, afirmou Makowski durante o Innovation Festival.

A espuma consegue se deformar durante a passada e devolver energia ao corredor. Já a estrutura escura visível na lateral, chamada EnergyRim, oferece a rigidez necessária para estabilizar o movimento sem o peso de uma placa tradicional.

A equipe também buscou soluções em outros esportes. O cabedal foi desenvolvido a partir de materiais usados em velas de kitesurf, escolhidos pela combinação entre resistência e leveza. Até os cadarços foram encurtados para retirar alguns gramas do produto.

Os testes foram realizados em laboratórios e com atletas na Alemanha, no Quênia e na Etiópia. O resultado apareceu na Maratona de Londres, quando Sawe completou os 42,195 quilômetros em 1 hora, 59 minutos e 30 segundos.

Sabastian Sawe segura o Adidas Adizero Adios Pro Evo 3 após completar a Maratona de Londres em 1h59min30s.
Sabastian Sawe exibe o Adizero Adios Pro Evo 3 após se tornar o primeiro atleta a completar oficialmente uma maratona em menos de duas horas. Crédito: Matthew Childs/ Reuters

Foi a primeira maratona abaixo de duas horas reconhecida em condições oficiais de competição. Em 2019, Eliud Kipchoge havia superado a marca em um evento experimental, organizado com condições específicas e não homologado como recorde mundial.

MENOS TECNOLOGIA PELA TECNOLOGIA

Ao assumir a Adidas, em janeiro de 2023, Gulden encontrou uma empresa que acabava de registrar seu primeiro prejuízo líquido em três décadas. A crise foi agravada pelo fim da parceria com Kanye West e pela concorrência de marcas como On e Hoka no mercado de corrida. Segundo o executivo, um dos problemas internos era a quantidade de pessoas com poder para interromper decisões.

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“Se há sete, oito ou nove camadas em um processo decisório, basta uma pessoa dizer ‘não’ para tudo parar”, afirmou. A resposta foi descentralizar decisões, reduzir bloqueios e permitir que profissionais mais próximos dos mercados e dos consumidores assumissem maior responsabilidade.

A mudança também chegou aos laboratórios. Makowski disse ter encontrado uma equipe tecnicamente avançada, mas excessivamente concentrada em seus próprios processos e tecnologias.

A inovação pode se transformar em uma câmara de eco.

“A inovação pode se transformar em uma câmara de eco. As pessoas ficam obcecadas pelo próprio trabalho, pelas tecnologias e pelos processos”, afirmou.

A orientação passou a ser começar por duas perguntas: de que o atleta precisa e qual benefício concreto o produto deve entregar?

Makowski resumiu o problema com uma imagem. Segundo ele, o laboratório da Adidas parecia “um pouco com um museu”. Sua determinação foi direta: cada dia sem um atleta dentro daquele espaço deveria ser tratado como um problema.

A aproximação alterou o ritmo dos testes. Atletas passaram a participar do desenvolvimento, experimentar protótipos e indicar se uma solução deveria avançar ou ser descartada.

Gulden citou o próprio tênis da maratona como exemplo de uma ideia que poderia ter permanecido presa na estrutura da empresa.

“Se os melhores corredores querem correr com o produto, por que não deixá-los correr?”, questionou. Para o CEO, a antiga insistência em testar repetidamente cada elemento atrasava produtos que já despertavam o interesse dos atletas.

A PLANILHA PRECISOU SAIR DA SALA

A mudança não significou abandonar testes científicos ou medições de desempenho. O objetivo foi impedir que a busca por previsibilidade eliminasse ideias antes de elas demonstrarem valor.

Gulden contou que, durante a reorganização, decidiu afastar temporariamente as planilhas das discussões e dar mais autonomia a designers e profissionais criativos.

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“Se os designers só podem criar aquilo que está no briefing, não existe inovação”, afirmou.

A crítica também vale para tecnologias que parecem futuristas, mas ainda não resolvem um problema concreto. Makowski citou a impressão 3D, área que despertou grande entusiasmo na indústria de calçados antes de demonstrar uma utilidade clara para os atletas.

A Adidas voltou à tecnologia com outra pergunta: o que a fabricação aditiva permite fazer de uma maneira realmente diferente?

A resposta foi a personalização. Em novos projetos de futebol e basquete, a empresa consegue escanear os pés de um atleta e construir um calçado específico para sua anatomia e para as demandas do esporte. O processo rompe com a lógica convencional de produzir modelos padronizados em grande escala.

“Agora usamos a tecnologia para fazer algo que nos leva a um espaço que ainda não existia: criar produtos sob medida”, disse Makowski.

DO ATLETA DE ELITE PARA AS RUAS

O Evo 3 representa o topo da pirâmide de inovação da Adidas. A edição inicial, vendida por US$ 500, teve lançamento limitado. A previsão é que uma distribuição mais ampla comece durante a temporada de maratonas do segundo semestre.

Adidas Adizero Adios Pro Evo 3, tênis de corrida branco com estrutura lateral preta.
Com apenas 97 gramas, o Adizero Adios Pro Evo 3 combina espuma ultraleve, estrutura de sustentação EnergyRim e cabedal inspirado em velas de kitesurf.

O modelo também funciona como laboratório para produtos voltados a um público maior. Elementos de seu desenho já aparecem no Evo SL, tênis que carrega parte da linguagem visual do modelo profissional, com uma construção adaptada ao uso cotidiano.

Essa transferência é central para o negócio. Gulden reconheceu que o crescimento recente das marcas On e Hoka veio da capacidade de perceber que a maioria das pessoas busca conforto e proteção, e não recordes mundiais.

“É claro que precisamos trabalhar no topo da pirâmide. Mas também precisamos ser inteligentes o suficiente para alcançar as massas”, afirmou.

O mesmo processo ajuda a explicar como antigos produtos de desempenho da Adidas se transformaram em ícones de moda. Samba, Superstar e Stan Smith nasceram ligados ao esporte antes de ganhar as ruas e atravessar gerações.

A empresa espera repetir esse caminho: usar desafios extremos para testar materiais, geometrias e métodos de fabricação e, depois, levar parte desse conhecimento a produtos mais acessíveis.

O PRÓXIMO TÊNIS PODE MUDAR DURANTE A CORRIDA

A próxima fronteira investigada pela Adidas envolve calçados dinâmicos, capazes de alterar suas características enquanto são usados.

Um corredor começa uma prova com os músculos descansados, mas sua passada e suas necessidades mudam conforme o cansaço aparece. Makowski afirma que a empresa estuda maneiras de desenvolver um tênis que responda a essa transformação — tornando-se mais macio, por exemplo, quando as pernas ficam rígidas.

Outras pesquisas envolvem produtos para preparar o corpo antes da atividade física e ajudar na recuperação depois dela.

O princípio permanece o mesmo adotado no desenvolvimento do Evo 3: a tecnologia precisa entregar um benefício perceptível ao atleta. Ser nova, sozinha, já não basta.

O tênis de 97 gramas mostra o resultado dessa mudança. A Adidas não chegou à marca apenas retirando materiais. Também precisou retirar camadas de decisão, excesso de cautela e parte da fascinação interna pela própria tecnologia.


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