Aeroportos agora estão sendo projetados para o caos nas filas

Os aeroportos são projetados para grandes multidões, mas filas de horas não podem ser resolvidas apenas com design e arquitetura

Aerporto Intercontinental George Bush em Houston, Texas
Aerporto Intercontinental George Bush em Houston, Texas (Créditos: Stantec/ Grimshaw)

Nate Berg 5 minutos de leitura

As filas de segurança historicamente longas que hoje serpenteiam pelos aeroportos dos Estados Unidos são o resultado doloroso de circunstâncias extremas, como greves e cancelamento de voos. Mas, segundo alguns dos designers desses espaços, os aeroportos vêm incorporando cada vez mais soluções de projeto capazes de lidar melhor com essas situações no futuro.

As filas, na prática, são geridas pelos próprios aeroportos – e, portanto, são responsabilidade deles. Mas controlar o fluxo até o ponto de checagem de segurança exige muito mais do que montar um labirinto de divisórias retráteis.

Os aeroportos planejam cuidadosamente suas áreas pré-segurança – ou “lado terra” – para administrar fluxos de passageiros que variam drasticamente ao longo do dia e do ano, explica Ty Osbaugh, sócio e líder global de aviação da empresa de arquitetura e design Gensler.

Incorporar flexibilidade a esse espaço, que muitas vezes compartilha área com os balcões de check-in, permite que as filas se adaptem aos diferentes níveis de demanda.

A Gensler está trabalhando atualmente em um redesenho de US$ 9,5 bilhões do Terminal 1 do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, e, segundo Osbaugh, o lado terra foi projetado com limites mais “suaves” para acomodar transbordamentos.

“Temos um jardim ao lado. Se a fila começa a crescer, as pessoas têm esse espaço extra para se organizar, em vez de invadir a área de check-in”, diz.

SITUAÇÕES QUE FOGEM DO PADRÃO

Os aeroportos são projetados levando em conta a possibilidade de filas gigantes, mas isso não significa que sejam dimensionados para esses cenários extremos. Jonathan Massey, diretor-geral e líder do setor de aviação da empresa de arquitetura Corgan, diz que a abordagem é reconhecer eventos fora da curva, mas projetar para situações mais realistas.

“Você sempre sabe que algo vai acontecer. Vai ter uma nevasca em algum lugar, uma greve, uma pandemia”, afirma.

Ainda assim, aeroportos raramente são construídos para suportar multidões anormalmente grandes que podem surgir apenas uma vez a cada vários anos. Eles são pensados para picos previsíveis, como a alta temporada de férias ou o Natal.

saguão do Aerporto Intercontinental George Bush em Houston, Texas
Aerporto Intercontinental George Bush em Houston, Texas (Créditos: Stantec/ Grimshaw)

“Esses são os cenários que usamos como base de planejamento. Pandemias, greves, paralisações do governo, grandes eventos climáticos – tudo isso foge desse padrão”, diz. “A indústria simplesmente não está disposta a gastar valores altíssimos por metro quadrado para ampliar espaços por algo que talvez nem aconteça.”

Além disso, há uma certa cautela em tentar resolver problemas imprevisíveis de superlotação em estruturas que precisam durar décadas, especialmente em um contexto no qual as tecnologias de segurança evoluem rapidamente e mudam o próprio processo de inspeção.

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Quando for inaugurado ainda este ano, o novo Terminal 1 do JFK vai integrar tecnologias biométricas de verificação de documentos que podem, no futuro, eliminar a necessidade de funcionários checando manualmente identidade e cartões de embarque.

“Isso reduz praticamente a zero a necessidade de equipes das companhias aéreas e também diminui a área necessária nos saguões de check-in”, diz Osbaugh. As filas antes desse ponto podem “expandir e contrair” como uma sanfona, de acordo com o volume de passageiros.

AEROPORTOS COM DESIGN VERSÁTIL

Essa flexibilidade traz implicações arquitetônicas. Jeff Mechlem, líder do setor aeroportuário na empresa de arquitetura e engenharia Stantec, diz que projetos recentes priorizam grandes áreas abertas ao longo de todo o fluxo de segurança.

“Buscamos reduzir o número de colunas e paredes fixas que limitam tanto a adoção de novos equipamentos quanto a configuração das filas”, afirma.

Essa abordagem está sendo colocada à prova agora. Um dos projetos recentes da Stantec é a requalificação do Terminal E internacional do Aeroporto Intercontinental George Bush, em Houston.

desembarque do Aerporto Intercontinental George Bush em Houston, Texas
Aerporto Intercontinental George Bush em Houston, Texas (Créditos: Stantec/ Grimshaw)

O terminal, que atualmente opera com cerca de metade de sua capacidade enquanto mais companhias se preparam para se instalar, registra tempos de espera de aproximadamente duas horas na segurança.

Assim como outros em andamento em outro terminal de Houston e no Aeroporto Internacional de Denver, o projeto foi pensado para aliviar esse tipo de situação rara, criando espaço na área central de processamento para que as filas se espalhem sem afetar o despacho de bagagens e o check-in, explica Mechlem.

Aeroporto Internacional de Denver, nos EUA
Aeroporto Internacional de Denver, Colorado (Crédito: Stantec)

Áreas de respiro entre cada setor permitem que as filas ultrapassem seu espaço habitual. Em condições normais, esses espaços se integram ao lado terra do aeroporto, como corredores amplos.

Há também banheiros próximos e áreas de apoio para funcionários que podem ajudar passageiros. “Estamos planejando esses espaços não apenas como divisórias, mas como áreas que podem ser efetivamente usadas na operação durante picos de fila”, diz.

A ARTE DE DISTRAIR OS PASSAGEIROS

“É inevitável que haja algum tempo de espera e filas, então estamos buscando formas de usar a arquitetura para tornar essa experiência mais agradável e menos estressante”, afirma Mechlem.

Mas, quando as filas crescem demais, há um limite para o que plantas flexíveis ou grandes vãos livres conseguem resolver. “Diretores de aeroportos também estão buscando formas de distrair o passageiro”, diz Osbaugh. A arte é uma dessas estratégias.

Ao longo da parede do ponto de checagem de segurança do Terminal 1 do JFK, um grande painel criado pelo estúdio Pentagram, em parceria com a empresa de engenharia Arup, exibe obras visuais em estilo lo-fi com paisagens e ícones de Nova York.

aeroporto John F. Kennedy, em Nova York
Novo Terminal 1 do aeroporto John F. Kennedy, em Nova York (Crédito: Arup)

No Terminal E de Houston, uma grande escultura de vidro soprado paira sobre a área de inspeção. Já no aeroporto Love Field, em Dallas (um projeto recente da Corgan), a fila serpenteia sob um enorme mosaico de flores silvestres.

A ideia é oferecer ao menos algum nível de distração diante da monotonia de esperar na fila, seja por minutos ou horas. Para Massey, porém, há um limite para o que o design pode resolver. Filas extremas são menos um problema de arquitetura e mais uma questão de pessoal e equipamentos para dar conta do recado.


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais