Uma bicicleta que traduz o preço do metro quadrado no pedal
Dispositivo do artista e cientista Justin Blinder altera a resistência de uma Citi Bike conforme varia a acessibilidade do aluguel em Nova York.

Enquanto pedalo pelo perímetro do Prospect Park, no Brooklyn, em uma tarde ensolarada de agosto, as pedaladas fluem sem esforço. Na Citi Bike, atravesso tranquilamente todo o Park Slope e boa parte de Windsor Terrace. Mas, ao chegar a Prospect Lefferts Gardens, também conhecida como Flatbush, a resistência aumenta. Quando entro no parque pela Lincoln Avenue, onde começa Flatbush, minha capacidade de avançar muda radicalmente. O impacto é desconcertante, e sou obrigada a descer da bicicleta. É assim que o peso do aluguel em Nova York se torna físico.
Estou pedalando com um dispositivo acoplado à bicicleta elétrica que manipula os freios conforme o grau de acessibilidade dos aluguéis no bairro atravessado. O aparelho é uma obra de arte chamada Ground Truth, a criação mais recente de Justin Blinder e parte de uma exposição de mesmo nome, encerrada em 2 de agosto.
Blinder é pesquisador, ciclista, cientista e, em sua expressão mais vibrante, artista. A exposição investiga a crise de acessibilidade à moradia em Nova York e, por meio do dispositivo, faz com que as desigualdades sejam sentidas fisicamente. Embora o aparelho não esteja disponível ao público, ele foi criado para bicicletas convencionais e elétricas da Lyft. Blinder já percorreu mais de 56 quilômetros (35 milhas) pela cidade de Nova York com o equipamento instalado.
O trabalho foi viabilizado com recursos da Idle Hands, programa de incubação artística fundado em 2025 por Linden Renz e Gabrielle Sirkin. Blinder foi o primeiro vencedor do prêmio de incubação da organização e recebeu US$ 10 mil, além de amplo apoio profissional, para tirar a Ground Truth do papel.
O dispositivo usa dados da American Community Survey, pesquisa do U.S. Census Bureau, sobre bairros onde o aluguel compromete uma parcela elevada da renda. Acoplado a qualquer Citi Bike da Lyft, ele combina GPS e dados sobre a acessibilidade da moradia para criar resistência física em áreas onde os custos pesam mais no orçamento. Em bairros mais acessíveis, a resistência diminui. Considera-se que um morador tem a renda comprometida pelo aluguel quando destina 30% ou mais de seus ganhos mensais a essa despesa.

Blinder teve a ideia da Ground Truth quando trabalhava como entregador de comida de bicicleta e enfrentava dificuldades para fechar as contas. Chamou sua atenção o contraste brutal entre as realidades financeiras de pessoas que viviam tão próximas umas das outras em Nova York.
“Havia muitos extremos dentro de áreas pequenas. Para mim, esse é um aspecto fascinante da crise”, diz Blinder. “Você pode estar em um quarteirão onde o aluguel compromete muito menos a renda das pessoas e passar para outro onde a história é completamente diferente.”
Não é a primeira vez que Blinder traduz dados em uma experiência física. Nos primeiros anos da pandemia de Covid-19, ele criou um malware chamado Pandemic Pulse, que reduzia a velocidade da CPU de seu computador na mesma proporção das taxas locais de infecção e escurecia a tela de acordo com o índice de mortes na região.
“Lembro que, todas as manhãs, eu acessava a página inicial do The New York Times e via as taxas de infecção por Covid. Eram basicamente gráficos e um mapa. Mas toda aquela informação, no fim das contas, representa pessoas... Todas elas têm familiares. Há uma história por trás de cada uma”, afirma Blinder. Nos dias em que os números estavam especialmente altos, o malware interrompia seu trabalho e tornava mais difícil enxergar a tela ou até mesmo usar o computador.
Há mais de uma década, Blinder investiga como as tecnologias dominantes moldam a compreensão pública da desigualdade — e a Ground Truth não é exceção. Ao sentir essa resistência enquanto pedalam por diferentes bairros de Nova York, os ciclistas incorporam a tensão ao próprio corpo. Ela pode simbolizar a dificuldade econômica refletida nos dados do censo, o conflito entre quem apenas atravessa os bairros e quem vive neles ou o esgotamento de todos os inquilinos nova-iorquinos diante da alta dos custos de moradia. Seja qual for a interpretação, Blinder transformou estatísticas abstratas em uma experiência concreta e sensorial. “Um aspecto central é a enorme variação na acessibilidade”, diz ele. Ao pedalar por bairros com moradias da New York City Housing Authority (NYCHA), por exemplo, o dispositivo não criou a tensão que ele esperava, o que tornou o trajeto mais fácil.

“Isso mostra que as moradias da NYCHA estão, de certa forma, funcionando. Elas não são necessariamente mais acessíveis para quem vive ali, mas ao menos esse aspecto é atenuado por políticas adequadas”, afirma Blinder.
Em 2025, no mesmo mês em que o Brooklyn foi eleito a melhor cidade de grande porte para andar de bicicleta, o distrito anunciou que retiraria três quarteirões dos quase 3,2 quilômetros (2 milhas) de ciclovias protegidas que atravessam Bedford-Stuyvesant, ou Bed-Stuy. A decisão veio após reclamações de moradores de que ciclistas estavam atropelando crianças. A ciclovia protegida original havia sido instalada menos de um ano antes, depois de uma década de mobilização dos ciclistas.
Bed-Stuy abriga a comunidade negra mais antiga do Brooklyn. Apesar de décadas de gentrificação, moradores negros continuam sendo o maior grupo racial do bairro e representam 38% da população. As ciclovias foram e continuam sendo um importante foco de controvérsia em Bed-Stuy.
Depois de ler as atas das reuniões do Community Board 3 de Bed-Stuy, Blinder percebeu que não se tratava de uma falha da prefeitura, mas do resultado da resistência de moradores que não queriam ciclovias em seus bairros.
Historicamente, as ciclovias têm sido associadas ao avanço da gentrificação, à alta dos aluguéis e à especulação imobiliária. De rodovias a ciclovias, o desenvolvimento da infraestrutura de transporte e o deslocamento de moradores têm caminhado lado a lado ao longo da história. Estudos mostram que a “gentrificação verde” — quando um bairro recebe uma nova infraestrutura aparentemente sustentável, como ciclovias — leva ao deslocamento de moradores de baixa renda. Parte da população também pode não utilizar essa infraestrutura por diferentes razões, seja pela preferência por outros meios de transporte, seja pelo custo.
A Lyft — proprietária e operadora da Citi Bike em Nova York, da Capital Bikeshare em Washington, D.C., da Divvy em Chicago, da Bay Wheels na Califórnia, entre outros serviços — é a única grande operadora de sistemas de compartilhamento de bicicletas dos Estados Unidos e tem financiamento corporativo. Embora a Lyft ofereça assinaturas mensais de US$ 5 da Citi Bike para moradores de habitações públicas e beneficiários do SNAP, Blinder argumenta que a falta de informação e os entraves burocráticos podem dificultar o acesso ao programa. “Muitas vezes, as ciclovias servem para as pessoas atravessarem um bairro sem investir nele. Talvez elas apenas passem pela comunidade e aproveitem essa infraestrutura, enquanto o bairro não recebe nenhum outro benefício”, afirma.
Blinder queria que o dispositivo obrigasse as pessoas a parar em bairros frequentemente tratados como rotas de passagem, e não como destinos. Segundo ele, seu trabalho foi concebido para estimular o diálogo. A expectativa é que a Ground Truth apresente uma crítica à crise de acessibilidade tanto na moradia quanto na micromobilidade, à medida que continuam subindo os preços do aluguel de bicicletas elétricas.
“A ideia não é exatamente fazer as pessoas falarem sobre um problema que nunca discutiram, mas oferecer outra perspectiva sobre uma questão muito presente. Neste caso, a acessibilidade”, diz Blinder. “O que imaginamos que seja uma moradia acessível e como essa realidade pode ser muito mais complexa. Muitas vezes, não fazemos ideia de como ela realmente se apresenta.”
Esta reportagem foi publicada originalmente em parceria pela Next City, veículo jornalístico sem fins lucrativos que cobre soluções para cidades mais igualitárias, e pela Hyperallergic, uma das principais vozes sobre perspectivas contemporâneas de arte e cultura.