Biblioteca troca sistema Dewey por lógica de livraria – e volta a ficar cheia
A mudança na organização do acervo aumentou os empréstimos, reduziu pedidos de ajuda e triplicou as solicitações de carteirinhas

As bibliotecas evoluíram nas últimas décadas à medida que ampliaram seu papel como centros de aprendizado e convivência comunitária. Mas, apesar de todas as mudanças, a maioria ainda organiza seus livros de acordo com a Classificação Decimal de Dewey (CDD), um sistema desenvolvido em 1873 que, segundo seus críticos, ainda carrega concepções sociais ultrapassadas do século 19.
Esse tipo de classificação também é usado no Brasil, embora não seja o único. Por aqui, também é bastante utilizado o Sistema de Classificação Decimal Universal (CDU), que foi desenvolvido a partir do sistema de Dewey.
Em Deschutes, no Oregon(EUA), o sistema de bibliotecas local não apenas disse “abaixo o Dewey”, como também repensou a maneira como os livros deveriam ser classificados e apresentados.
O condado reformulou todas as suas unidades de uma só vez, o que permitiu à equipe realizar um experimento para repensar como as bibliotecas podem se relacionar com os leitores hoje.
A nova Biblioteca Central Stevens Ranch, uma unidade de nove mil metros quadrados projetada pelos arquitetos do Miller Hull Partnership, adota uma nova filosofia de organização e interação com os usuários.
Além de novas estantes projetadas para criar uma sensação mais próxima à de uma livraria, os livros foram organizados de acordo com o sistema proprietário Wayfinder, criado pelas bibliotecas.
“A pesquisa que fizemos mostrou que a maioria dos usuários das bibliotecas, na verdade, está ali para explorar”, diz Emily O’Neal, bibliotecária que ajudou a desenvolver o novo sistema. “Nós abraçamos a ideia de tornar essa experiência de explorar o acervo o mais divertida, estimulante e inesperada possível.”
O QUE VEM DEPOIS DO DEWEY
No método Dewey, os livros recebem números que correspondem à sua posição dentro de 10 grandes categorias de três dígitos. Dentro de cada categoria, os números vão ficando mais específicos. Por exemplo, 500 corresponde a ciências em geral; 570, a ciências da vida; 590, a animais.
Para cada livro, esse número é seguido por um ponto decimal e uma sequência maior de dígitos que corresponde a subdivisões e permite uma classificação mais específica.

O Wayfinder elimina a dependência dos números do Dewey e organiza os livros em grandes categorias e subcategorias. Um livro sobre o cultivo de tomates, por exemplo, ficaria na categoria Artes e Ofícios, dentro da subcategoria jardinagem.
Na Classificação Decimal de Dewey, um livro sobre jardinagem poderia estar em qualquer um dos quatro lugares do sistema que contêm conteúdo relacionado ao tema. Com o Wayfinder, todos ficam no mesmo lugar.
Nesse sentido, os arquitetos da Miller Hull tinham em mente uma experiência melhor de exploração do acervo quando projetaram as novas estantes e os sistemas de exposição dos livros.
Todas as bibliotecas tendem a ter um grande espaço aberto que pode ser expandido ou reduzido de acordo com o tamanho do acervo, diz Ruth Baleiko, arquiteta e sócia da Miller Hull.
Mas, como o sistema Wayfinder permite categorias mais concisas, os livros puderam ser distribuídos em espaços mais intimistas, criando o que ela chama de “pequenos redemoinhos”, em vez de grades rígidas e blocadas.
REORGANIZAÇÃO DO ACERVO
A Miller Hull projetou um sistema de estantes modulares personalizadas sobre rodas, todas mais baixas do que as estantes convencionais, para facilitar o acesso aos livros e permitir uma reorganização mais simples.
O conjunto é formado por quatro formatos, incluindo uma estante retangular convencional e módulos curvos em formato de tacos de hóquei, que podem ser combinados em diferentes configurações.

Estantes de exposição mais altas, em formato de U, foram projetadas sob medida, com iluminação integrada e prateleiras ajustáveis que permitem exibir os livros de frente, deixando as capas voltadas para o público.
A equipe de design buscou criar flexibilidade, diz Baleiko, para que os funcionários pudessem alterar a disposição do espaço e criar uma sensação de descoberta capaz de fazer as pessoas voltarem.
Combinadas a um sistema melhor de organização por temas, as novas estantes foram projetadas para facilitar que os visitantes permaneçam no espaço e encontrem uma leitura inesperada e estimulante.

O sistema de bibliotecas de Deschutes reorganizou o acervo de acordo com o Wayfinder em 2023, em um processo que exigiu o treinamento da equipe, a troca das etiquetas dos livros e das estantes e a atualização do sistema informatizado. O trabalho levou cerca de duas semanas em cada unidade.
Após a mudança no sistema de organização, a circulação de livros aumentou. Em vez de uma média de cerca de 20% do acervo emprestado a qualquer momento, as bibliotecas passaram a registrar quase 30% dos livros emprestados graças ao Wayfinder.
Leia mais: Este livro foi impresso inteiro de uma vez só em 3D
O’Neal descobriu que a reorganização e o novo sistema de estantes significam menos espaço para livros no salão, mas o aumento da circulação ajuda a compensar a redução do espaço de exposição.
A melhora foi ainda mais significativa entre os livros de não ficção para adultos, cuja circulação saltou de 15% para 27%. Além disso, a biblioteca passou a receber menos pedidos de ajuda no balcão de atendimento e registrou um aumento de três vezes no número de solicitações de carteirinhas de biblioteca desde a inauguração.
Com informação da redação da Fast Company Brasil


