Biblioteca troca sistema Dewey por lógica de livraria – e volta a ficar cheia

A mudança na organização do acervo aumentou os empréstimos, reduziu pedidos de ajuda e triplicou as solicitações de carteirinhas

novo design torna experiência de explorar biblioteca mais interessante
Crédito: Kevin Scott/Miller Hull Partnership

Patrick Sisson 4 minutos de leitura
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As bibliotecas evoluíram nas últimas décadas à medida que ampliaram seu papel como centros de aprendizado e convivência comunitária. Mas, apesar de todas as mudanças, a maioria ainda organiza seus livros de acordo com a Classificação Decimal de Dewey (CDD), um sistema desenvolvido em 1873 que, segundo seus críticos, ainda carrega concepções sociais ultrapassadas do século 19.

Esse tipo de classificação também é usado no Brasil, embora não seja o único. Por aqui, também é bastante utilizado o Sistema de Classificação Decimal Universal (CDU), que foi desenvolvido a partir do sistema de Dewey.

Em Deschutes, no Oregon(EUA), o sistema de bibliotecas local não apenas disse “abaixo o Dewey”, como também repensou a maneira como os livros deveriam ser classificados e apresentados.

O condado reformulou todas as suas unidades de uma só vez, o que permitiu à equipe realizar um experimento para repensar como as bibliotecas podem se relacionar com os leitores hoje.

A nova Biblioteca Central Stevens Ranch, uma unidade de nove mil metros quadrados projetada pelos arquitetos do Miller Hull Partnership, adota uma nova filosofia de organização e interação com os usuários.

Além de novas estantes projetadas para criar uma sensação mais próxima à de uma livraria, os livros foram organizados de acordo com o sistema proprietário Wayfinder, criado pelas bibliotecas.

“A pesquisa que fizemos mostrou que a maioria dos usuários das bibliotecas, na verdade, está ali para explorar”, diz Emily O’Neal, bibliotecária que ajudou a desenvolver o novo sistema. “Nós abraçamos a ideia de tornar essa experiência de explorar o acervo o mais divertida, estimulante e inesperada possível.”

O QUE VEM DEPOIS DO DEWEY

No método Dewey, os livros recebem números que correspondem à sua posição dentro de 10 grandes categorias de três dígitos. Dentro de cada categoria, os números vão ficando mais específicos. Por exemplo, 500 corresponde a ciências em geral; 570, a ciências da vida; 590, a animais.

Para cada livro, esse número é seguido por um ponto decimal e uma sequência maior de dígitos que corresponde a subdivisões e permite uma classificação mais específica.

novo design torna experiência de explorar biblioteca mais interessante
Crédito: Kevin Scott/ Miller Hull Partnership

O Wayfinder elimina a dependência dos números do Dewey e organiza os livros em grandes categorias e subcategorias. Um livro sobre o cultivo de tomates, por exemplo, ficaria na categoria Artes e Ofícios, dentro da subcategoria jardinagem.

Na Classificação Decimal de Dewey, um livro sobre jardinagem poderia estar em qualquer um dos quatro lugares do sistema que contêm conteúdo relacionado ao tema. Com o Wayfinder, todos ficam no mesmo lugar.

Nesse sentido, os arquitetos da Miller Hull tinham em mente uma experiência melhor de exploração do acervo quando projetaram as novas estantes e os sistemas de exposição dos livros.

Todas as bibliotecas tendem a ter um grande espaço aberto que pode ser expandido ou reduzido de acordo com o tamanho do acervo, diz Ruth Baleiko, arquiteta e sócia da Miller Hull.

Mas, como o sistema Wayfinder permite categorias mais concisas, os livros puderam ser distribuídos em espaços mais intimistas, criando o que ela chama de “pequenos redemoinhos”, em vez de grades rígidas e blocadas.

REORGANIZAÇÃO DO ACERVO

A Miller Hull projetou um sistema de estantes modulares personalizadas sobre rodas, todas mais baixas do que as estantes convencionais, para facilitar o acesso aos livros e permitir uma reorganização mais simples.

O conjunto é formado por quatro formatos, incluindo uma estante retangular convencional e módulos curvos em formato de tacos de hóquei, que podem ser combinados em diferentes configurações.

esquema de nova distribuição de estantes de bibliotecas públicas
Crédito: Miller Hull Partnership

Estantes de exposição mais altas, em formato de U, foram projetadas sob medida, com iluminação integrada e prateleiras ajustáveis que permitem exibir os livros de frente, deixando as capas voltadas para o público.

A equipe de design buscou criar flexibilidade, diz Baleiko, para que os funcionários pudessem alterar a disposição do espaço e criar uma sensação de descoberta capaz de fazer as pessoas voltarem.

Combinadas a um sistema melhor de organização por temas, as novas estantes foram projetadas para facilitar que os visitantes permaneçam no espaço e encontrem uma leitura inesperada e estimulante.

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Crédito: Kevin Scott/Miller Hull Partnership

O sistema de bibliotecas de Deschutes reorganizou o acervo de acordo com o Wayfinder em 2023, em um processo que exigiu o treinamento da equipe, a troca das etiquetas dos livros e das estantes e a atualização do sistema informatizado. O trabalho levou cerca de duas semanas em cada unidade.

Após a mudança no sistema de organização, a circulação de livros aumentou. Em vez de uma média de cerca de 20% do acervo emprestado a qualquer momento, as bibliotecas passaram a registrar quase 30% dos livros emprestados graças ao Wayfinder.

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O’Neal descobriu que a reorganização e o novo sistema de estantes significam menos espaço para livros no salão, mas o aumento da circulação ajuda a compensar a redução do espaço de exposição.

A melhora foi ainda mais significativa entre os livros de não ficção para adultos, cuja circulação saltou de 15% para 27%. Além disso, a biblioteca passou a receber menos pedidos de ajuda no balcão de atendimento e registrou um aumento de três vezes no número de solicitações de carteirinhas de biblioteca desde a inauguração.

Com informação da redação da Fast Company Brasil


SOBRE O AUTOR

Patrick Sisson é colaborador da Fast Company e cobre o setor de desenvolvimento urbano e mercado imobiliário para o ranking anual Most... saiba mais