Bom gosto não vai salvar os designers da inteligência artificial
Na disputa com a tecnologia, a vantagem dos profissionais criativos estará menos em reconhecer o que é bom e mais em apostar no que pode ser bom antes que os outros concordem

“O bom gosto será o principal diferencial.”
“O gosto é algo que a inteligência artificial não consegue substituir.”
“O gosto será nossa vantagem competitiva.”
Quantas vezes você ouviu alguma dessas afirmações no último ano?
Sempre que a tecnologia — especialmente a inteligência artificial — entra na conversa, surge um argumento recorrente: à medida que a execução se torna mais fácil, os designers precisam se afastar da operação e passar a ser valorizados pelo pensamento e pelo discernimento.
Nesse cenário, o bom gosto aparece como uma espécie de proteção para o futuro da profissão.
Não descarto completamente essa ideia. Ainda assim, essa narrativa começa a parecer conveniente demais.
A INCERTEZA DOS DESIGNERS
Os designers estão compreensivelmente inseguros.
Mesmo alguém como eu, com algumas décadas de profissão, teria de estar escondido debaixo de uma pedra para não perceber a instabilidade atual. Muitas competências que levamos anos para desenvolver — o olhar para uma boa execução, o domínio técnico e o conhecimento do ofício — estão se tornando acessíveis a praticamente qualquer pessoa.
Quando uma comunidade se sente ameaçada, costuma procurar alguma coisa capaz de protegê-la. Neste momento, a indústria do design escolheu o bom gosto.
Mas será que ele é realmente nossa última defesa contra a inteligência artificial? Ou queremos acreditar nisso porque se trata de algo que já passamos a carreira inteira desenvolvendo?
Existe um conforto evidente na ideia de que aquilo que nos salvará é uma capacidade que já possuímos. Assim, não seria necessário mudar profundamente: as respostas já estariam conosco.
Esse é justamente o risco.
Quando transformamos o bom gosto em herói, ele pode se tornar apenas mais uma história reconfortante usada para proteger nossa sensação de valor — e evitar que sejamos obrigados a evoluir.
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SEMPRE PRECISAMOS DE UM VILÃO
Esta não é a primeira vez que os designers se sentem ameaçados por uma mudança tecnológica.
Somos muito bons em encontrar vilões. Quando nos sentimos sob pressão, procuramos alguém ou alguma coisa para onde direcionar nossa indignação.
Em 2010, o Fiverr destruiria o design. Depois, seria o Canva. Em seguida, as redes sociais. Agora, a inteligência artificial vem buscar nossos empregos.
Essas tecnologias realmente mudaram a indústria, e muitas preocupações são justificadas. Novas ferramentas desafiam o status quo, reduzem o valor de algumas competências e podem fazer desaparecer modelos inteiros de negócio. Serviços pelos quais as pessoas pagavam se tornam mais baratos e acessíveis.
O que chama a atenção é que, diante de cada “apocalipse criativo”, procuramos uma nova faixa de terra segura que a tecnologia supostamente não conseguiria alcançar. Hoje, essa ilha é o bom gosto.
A execução ficou mais fácil e, por isso, saber o que deve ser executado certamente ganhou importância. Ainda assim, isso não parece suficiente.
BOM GOSTO, SOZINHO, É PASSIVO
Existe um problema bastante evidente em transformar o gosto em nossa principal barreira de proteção: sozinho, ele não faz nada.
Durante décadas — provavelmente séculos —, existiram pessoas com um senso estético extraordinário que não deixaram nenhuma contribuição relevante para a sociedade ou para a cultura.
Elas sabiam reconhecer o que parecia bom, identificavam rapidamente aquilo que consideravam ruim e provavelmente comentavam tudo isso com os amigos. Mas não faziam nada a respeito.
Todos conhecemos alguém que diz “eu já tinha pensado nisso” sempre que uma ideia nova aparece. Pode ser verdade ou não. O que importa é que essa pessoa não transformou a ideia em ação.
O gosto pode ajudar alguém a reconhecer algo valioso. Sem contribuição, risco ou iniciativa, porém, continua sendo apenas conversa.
Talvez estejamos concentrados na qualidade errada. A verdadeira vantagem pode não ser o gosto, mas a convicção diante da incerteza: a disposição para apostar no próprio julgamento antes que outras pessoas reconheçam seu valor.
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A APOSTA DE DAVID BAILEY
Em janeiro de 1962, o fotógrafo britânico David Bailey, então com pouco mais de 20 anos, foi enviado a Manhattan para produzir um ensaio para a revista Vogue.
A editora de moda Lady Clare Rendlesham havia planejado o briefing, as locações e as modelos. Bailey, porém, tinha outras ideias.
Ele queria levar Jean Shrimpton, modelo britânica que era sua musa naquele período. Depois de alguma resistência, Rendlesham concordou.
Bailey não estava em uma posição confortável para impor sua vontade. Era sua primeira viagem aos Estados Unidos a serviço da revista e, segundo ele próprio, ainda atravessava uma espécie de período de avaliação.
Disseram a ele como deveria se vestir. Bailey ignorou. Também recebeu orientações sobre como as fotografias deveriam parecer. Ignorou novamente.
Foi a Nova York e improvisou.
Anos depois, o fotógrafo descreveu aquele ensaio:
“Clare Rendlesham chorava o tempo todo e Jean estava com muito, muito frio. Tremia fisicamente e seus olhos lacrimejavam. As roupas eram terríveis. Eu não achava que a Vogue gostaria do que Jean e eu estávamos fazendo. Eles já não gostavam de muita coisa que eu fazia. Eu não me importava. Apenas fiz o que fazia. E funcionou.”
A última parte resume o que significa apostar no próprio gosto: “Eu não me importava. Apenas fiz o que fazia. E funcionou.”

Bailey precisou demonstrar convicção em um momento de incerteza. Confiou no próprio julgamento antes que existisse um consenso de que estava certo.
Ao lado de Shrimpton, ajudou a registrar a cultura jovem que surgia nos anos 1960 e rompeu com o estilo rígido e conservador que predominava na fotografia de moda da Vogue.
Mais tarde, Bailey se tornaria um dos fotógrafos mais importantes de sua geração. Trabalharia durante toda a década para a revista e, em 1965, receberia uma edição praticamente dedicada ao seu trabalho.
É fácil observar essa trajetória retrospectivamente e concluir que alguém tão famoso poderia correr esses riscos. Naquele ensaio realizado durante um inverno rigoroso em Manhattan, porém, Bailey ainda era jovem e pouco conhecido. Poderia ter perdido a oportunidade e comprometido sua carreira.
Antes da reputação, da fama e da confirmação de que possuía bom gosto, ele fez uma aposta.
O DIFERENCIAL SERÁ AGIR SEM CONSENSO
Essa deverá ser uma das vantagens competitivas dos designers diante da inteligência artificial.
Não basta reconhecer uma boa ideia quando ela já foi aceita. Será preciso ter convicção para defendê-la quando ainda parecer estranha, arriscada ou até errada.
A IA pode ampliar referências, acelerar a execução e produzir inúmeras versões de uma mesma proposta. Também pode aprender padrões associados ao que já foi considerado bom.
O trabalho criativo, porém, frequentemente avança quando alguém decide romper esses padrões e sustentar uma escolha antes que existam dados, aprovação ou consenso suficientes para validá-la.
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O bom gosto continua importante. Ele ajuda a selecionar, editar e reconhecer qualidade em meio a uma quantidade crescente de resultados produzidos por máquinas.
Mas gosto sem ação é apenas opinião.
A vantagem estará na capacidade de transformar julgamento em escolha, assumir o risco dessa escolha e defendê-la quando ninguém mais estiver convencido.
A inteligência artificial não tornou essa capacidade necessária. Ela sempre foi. O que mudou é que, agora, ficou mais difícil ignorá-la.