Casas projetadas para viver mais: por que a longevidade virou tendência na arquitetura

Conceito de "arquitetura da longevidade" ganha força entre clientes de alta renda e leva princípios da medicina preventiva para dentro de casa

por que a longevidade virou tendência na arquitetura
Crédito: master1305/ Getty Images

Patrick Sisson 5 minutos de leitura

A arquitetura voltada à longevidade promete aos clientes a visão de uma vida mais longa, saudável e monitorada constantemente, em sintonia com a busca atual por otimizar a saúde.

À frente dessa tendência está Kas Bordier, fundadora da Mavi, um novo escritório de arquitetura e consultoria que oferece aos proprietários uma avaliação completa da residência.

A inspeção de 24 horas leva em conta 129 critérios e é capaz de analisar a casa "da mesma forma que uma clínica de longevidade interpreta seus exames de sangue". O diagnóstico inclui desde a qualidade da água até os níveis de ruído e as concentrações de dióxido de carbono.

"Os incorporadores querem mostrar que é possível construir prédios melhores", diz Bordier, que já trabalhou em projetos residenciais no Reino Unido e nos Estados Unidos. "Mas, acima de tudo, eles querem ganhar vantagem competitiva."

Desde sua primeira reforma residencial, em 2024, Bordier vem acumulando projetos em Londres e Los Angeles. Até agora, cinco casas foram concluídas e outras duas estão em desenvolvimento.

Seus clientes, em geral pessoas de alta renda que já contam com personal trainer, nutricionista e médicos particulares, buscam investir em longevidade ou procuram soluções após descobrir problemas como mofo e outros fatores que afetam a saúde dentro de casa.

Apenas a etapa inicial – uma análise de duas semanas para elaborar um plano de melhorias – custa US$ 18 mil.

LONGEVIDADE COMO UM BEM DE LUXO

Segundo Tammy Fahmi, vice-presidente sênior de atendimento global e estratégia da Sotheby's International Realty, o aumento da expectativa de vida, aliado ao desejo de compradores de alto padrão de ficar em suas casas quando envelhecerem, está transformando desde o design até a escolha da localização dos imóveis e a dinâmica do mercado imobiliário de luxo.

Os defensores dos chamados edifícios saudáveis afirmam que a pandemia ampliou a conscientização sobre como o ambiente doméstico influencia a saúde, ao mesmo tempo em que a ciência do bem-estar avançou consideravelmente.

Pesquisas do International WELL Building Institute (IWBI), organização dedicada à promoção de edifícios saudáveis, mostram que características como mais áreas verdes, melhor qualidade do ar e ventilação, design biofílico, ampliação dos espaços externos e uso de materiais naturais aumentam o valor dos imóveis para locação, reduzem afastamentos por doença e melhoram a concentração e o foco dos ocupantes.

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Edifício no número 262 da Quinta Avenida, em Nova York (Crédito: Hayes Davidson)

"Uma parte importante desse contexto é que a longevidade passou a ser vista como o novo bem de luxo", afirma Rachel Hodgdon, CEO e presidente do IWBI.

"Existe essa busca por viver para sempre, a ideia de que autocuidado, experiências de qualidade, atenção plena e bem-estar podem prolongar não apenas nossa expectativa de vida, mas também o período em que continuaremos saudáveis."

No mercado corporativo, cresce a pressão para incorporar o bem-estar como um diferencial de projeto. Grandes escritórios de arquitetura vêm adotando materiais como madeira engenheirada em larga escala, áreas voltadas à prática de exercícios e estratégias para atender aos padrões da certificação WELL.

A MODA DOS "EDIFÍCIOS SAUDÁVEIS" COMEÇA A GANHAR IMPULSO

O pesquisador Bill Browning transformou a consultoria Terrapin Bright Green, da qual é cofundador, em uma referência do setor. Hoje, a empresa presta serviços para clientes como o Bank of America.

Na Inglaterra, o Long Lane, um novo clube privado localizado na zona rural nos arredores de Londres, está convertendo uma antiga propriedade rural em um espaço voltado ao bem-estar, com inauguração prevista para este ano.

Jim Kersey, gerente de marketing da TGP, agência especializada em hospitalidade responsável pelo projeto, afirma que consumidores e incorporadores comerciais vêm demonstrando interesse crescente por iniciativas ligadas ao bem-estar e à longevidade.

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Long Lane Club (Crédito: Divulgação)

"As pessoas não procuram apenas estética ou uma sensação superficial de bem-estar. Elas querem entender como tudo isso funciona na infraestrutura, na operação e também na geração de receita", afirma.

Em nova York, os novos apartamentos do edifício de 52 andares localizado na Quinta Avenida acabam de chegar ao mercado e grande parte da estratégia de divulgação destaca amplos recursos voltados ao bem-estar, incluindo sistemas de filtragem de ar, piso aquecido, recirculação de ar fresco a cada hora e sistemas que permitem um controle preciso de fatores ambientais.

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Vista interna de apartamento no 262 da Quinta Avenida, em Nova York (Crédito: Hayes Davidson)

Em Coral Gables, na região de Miami, o Cora Merrick Park – um projeto residencial de alto padrão – vai contar com características voltadas à longevidade, incluindo sistemas de purificação de ar e eletrificação completa.

Segundo Eduardo Otaola, incorporador do projeto, isso vai elevar o custo de conclusão da obra em cerca de 10%. Mas, após a inauguração, em 2028, ele prevê uma valorização de 25% a 30% no preço em comparação com uma unidade equivalente que não ofereça esse foco na saúde.

ABORDAGEM CENTRADA NO INDIVÍDUO

Para Hodgdon, a arquitetura da longevidade representa uma evolução dos princípios da construção sustentável, mas com foco mais direto nos benefícios individuais.

Segundo ela, dizer às pessoas que precisam abrir mão de algo para ajudar o meio ambiente costuma ser menos convincente do que mostrar que mudanças na casa podem melhorar sua saúde, bem-estar e desempenho.

Ela lembra que os conceitos de construção sustentável começaram com iniciativas voltadas à eficiência energética e, hoje, se sobrepõem a esforços para melhorar a qualidade do ar interno.

arquitetura da longevidade
Cora Merrick Park, em Coral Gables, na Flórida (Crédito: Divulgação)

Para muitos proprietários, a arquitetura da longevidade representa uma forma de assumir o controle sobre a própria saúde. Se mudanças em escala social parecem difíceis de alcançar, resta ao indivíduo adaptar o ambiente onde vive.

Hodgdon acredita que esse movimento não deve ser reduzido à ideia de pessoas ricas pagando para morar em uma espécie de spa. Para ela, trata-se de uma abordagem baseada em evidências científicas, que aplica pesquisas para melhorar casas, escritórios e espaços de hospitalidade.

No fim das contas, é uma versão arquitetônica do "luxo discreto": um conceito em que o verdadeiro símbolo de status deixa de ser a ostentação e passa a ser a pontuação de saúde do ambiente onde se vive.


SOBRE O AUTOR

Patrick Sisson é colaborador da Fast Company e cobre o setor de desenvolvimento urbano e mercado imobiliário para o ranking anual Most... saiba mais