Christopher Nolan desafiou a IMAX. O resultado pode mudar o cinema

Exclusivo: criada para filmar "A Odisseia", a nova câmera Keighley é mais silenciosa, versátil e pode transformar a forma como Hollywood produz filmes em IMAX.

Christopher Nolan diante de uma ilustração de "A Odisseia", filme que estreia como o primeiro longa totalmente filmado com câmeras IMAX.
Créditos: Micha Huigen

John Pavlus 8 minutos de leitura

O prólogo de seis minutos de A Odisseia é uma experiência física, especialmente quando visto do local preferido do diretor Christopher Nolan: a fileira central da sala IMAX da AMC no Universal CityWalk, em Hollywood, onde Nolan revisava as imagens no início de abril, enquanto finalizava a pós-produção. Com a tela de aproximadamente 18 por 24 metros (58 por 79 pés) envolvendo completamente a visão periférica do espectador, as ondas quebram e as flechas atingem o alvo com uma força capaz de fazer o corpo vibrar.

A Odisseia, que estreia nos cinemas em 17 de julho pela Universal Pictures, é o primeiro longa-metragem em que todas as cenas foram filmadas com câmeras IMAX. Da sequência em que Odisseu, interpretado por Matt Damon, se esconde dentro do lendário Cavalo de Troia ao ataque dos guerreiros gregos usando capacetes de ferro, tudo foi registrado com equipamentos desenvolvidos especialmente para essa produção.

Nolan capturou muitos desses momentos usando uma nova câmera chamada Keighley, projetada para registrar tanto espetáculos visuais impressionantes quanto diálogos íntimos com a mesma vivacidade. "Conseguimos obter muitas cenas extremamente intensas e emocionantes com essa capacidade de imagem, algo que nunca tínhamos conseguido fazer antes", diz Nolan.

Cartaz oficial de "A Odisseia", filme de Christopher Nolan inteiramente filmado com câmeras IMAX.
A Odisseia será o primeiro longa-metragem totalmente filmado com câmeras IMAX, graças à nova câmera Keighley desenvolvida pela empresa. Crédito: Universal Pictures/ Divulgação

A câmera mais silenciosa e versátil que a IMAX já criou, a Keighley (batizada em homenagem a Patricia Keighley, a "guru da qualidade" da IMAX, e seu marido, David, o diretor de qualidade da IMAX de longa data que faleceu no ano passado), foi projetada para enviar uma mensagem a Hollywood: este formato não serve mais apenas para cenas de ação e documentários.

A IMAX aposta que a Keighley revelará o apelo — e os lucros — do cinema em grande formato para uma nova geração de diretores. Isso também pode tornar a empresa mais atraente para um possível comprador: segundo relatos, a IMAX está estudando uma venda.

A VANTAGEM DO SELO FILMADO PARA IMAX

2025 foi o maior ano da história da IMAX. A receita de bilheteria tem, de modo geral, ficado abaixo do esperado desde a pandemia, mas as exibições em IMAX geraram um recorde de US$ 1,28 bilhão em vendas de ingressos, graças a uma oferta variada de títulos (F1: O Filme, Zootopia 2), filmes internacionais lançados localmente (como o chinês Ne Zha 2) e produções que capturam o espírito do momento, como Sinners — que utilizou câmeras IMAX para registrar seu número musical imersivo que atravessa diferentes épocas. Este ano promete ser ainda maior, com Projeto Hail Mary, Resident Evil (de Zach Cregger) e Duna: Parte Três. Ingressos para as sessões IMAX de Duna: Parte Três chegaram a ser revendidos no eBay por US$ 4.500 cada em abril — oito meses antes da estreia, prevista para 18 de dezembro.

Conseguimos obter muitas cenas extremamente intensas e emocionantes, diz Nolan

A IMAX fica com 11% da arrecadação de bilheteria de filmes lançados ou remasterizados no formato IMAX. (Isso totalizou US$ 142 milhões em 2025, ou mais de um terço da receita total da empresa naquele ano; os outros US$ 268 milhões vieram principalmente de vendas, locações e manutenção de sistemas de projeção IMAX.) No entanto, a empresa vê os filmes que são filmados — e não apenas exibidos — com sua tecnologia como uma parte cada vez mais importante de seu modelo de negócios.

Para obter a certificação "Filmed for IMAX" (Filmado para IMAX) — que os estúdios podem exibir em materiais de divulgação de filmes como Supergirl e Star Wars: The Mandalorian and Grogu —, um filme precisa ser rodado com câmeras digitais certificadas pela IMAX (fabricadas por terceiros, como Arri e Sony) ou com as câmeras proprietárias da própria IMAX, que utilizam película de 65 mm. Estas últimas continuam sendo ferramentas exclusivas e raras, com diretores que vão de Michael Bay a Jordan Peele disputando a oportunidade de usá-las apenas em suas cenas mais visualmente impressionantes.

O projeto de Keighley, porém, representa uma jornada nova e muito mais ambiciosa para a IMAX: uma iniciativa que evoluiu a partir da parceria de quase duas décadas com Nolan.

Cartaz de "A Odisseia" mostra guerreiros em cena do novo filme dirigido por Christopher Nolan.
A produção estrelada por Matt Damon foi usada por Christopher Nolan para estrear a nova geração de câmeras IMAX. Crédito: Universal Pictures/Divulgação

O SONHO DE CHRISTOPHER NOLAN E A REALIDADE NO CINEMA

Nolan sonhava em filmar um longa-metragem de Hollywood inteiramente em IMAX desde os 16 anos. Em um parque de diversões Six Flags ao norte de Evanston, Illinois (subúrbio onde sua mãe cresceu e onde Nolan, nascido em Londres, passava os verões), ele assistiu a To Fly, um documentário IMAX sobre aviação. Durante uma tomada particularmente espetacular, filmada do ponto de vista de um avião em curva acentuada, Nolan recorda que seu amigo “me cutucou para olhar para a plateia — e ver as cabeças de todos inclinadas para um lado”, diz ele, sorrindo ao lembrar da cena em seu escritório de produção em Los Angeles.

Desde Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), quando se tornou o primeiro diretor a usar câmeras de filme IMAX em um longa-metragem de ficção, Nolan levou a tecnologia a novos patamares a cada projeto subsequente: combates aéreos em Dunkirk, lutas filmadas com câmera na mão em Tenet, closes tipo retrato em Oppenheimer. Mas essas cenas sempre se destacavam como exceções. As câmeras IMAX — cujo design não passava por reformulações há décadas — eram volumosas e barulhentas demais para viabilizar um filme inteiro, especialmente as cenas de diálogo.

Na primavera de 2024, conta Nolan, ele fez uma exigência — ou talvez um desafio — a Rich Gelfond, CEO da IMAX: “Olha, queremos nos comprometer a filmar nosso próximo longa inteiramente em IMAX. Se as câmeras estiverem prontas para isso, podemos ser os primeiros a usá-las”. A IMAX já trabalhava em uma nova câmera havia dois anos, mas o “bat-sinal” de Nolan alterou o cronograma.

O Rich me ligou e disse: 'Precisamos de um plano'", conta Mark Welton, presidente da IMAX Global Theatres. Um ano depois, a IMAX entregou a Keighley nas mãos de Nolan.

A principal solicitação de Nolan e de seu diretor de fotografia vencedor do Oscar, Hoyte van Hoytema, era tornar o equipamento mais silencioso. As câmeras IMAX são barulhentas por um motivo. Como qualquer câmera de película, elas expõem 24 quadros de filme a cada segundo.

Mas, no formato de 65 mm da IMAX, cada quadro tem aproximadamente o tamanho de um cartão de crédito — o que significa que a câmera precisa movimentar o filme diante da lente a uma velocidade superior a 1,6 metro por segundo e, simultaneamente, pará-lo 24 vezes por segundo, com precisão absoluta, para que a imagem possa ser capturada. "Há princípios físicos envolvidos que não dá para evitar", diz van Hoytema.

A carcaça de fibra de carbono e o mecanismo interno redesenhado da Keighley conseguiram tornar a câmera entre 15% e 20% mais silenciosa do que os modelos anteriores da IMAX — uma diferença comparável à que existe entre "um cortador de grama descontrolado" e "uma máquina de costura bem lubrificada", nas palavras de van Hoytema.

Para cenas de diálogo que exigiam silêncio total no set, a equipe de Nolan colocava suas câmeras IMAX dentro de um "blimp": uma caixa à prova de som de cerca de 109 kg, com o tamanho de um cofre de chão. No entanto, a Keighley também era silenciosa o suficiente para permitir a gravação de diálogos em locais onde o uso do blimp não era viável, como em um barco em mar agitado. "Como as pessoas projetavam a voz nessas cenas, a câmera não competia com o som", diz Nolan.

KEIGHLEY E A NOVA FROTA DA IMAX


Utilizar as câmeras Keighley em um filme com orçamento estimado em 250 milhões de dólares — o mais caro da carreira de Nolan — representou um importante voto de confiança. (Nolan as utilizou em conjunto com sua habitual bateria de câmeras IMAX mais antigas.)

Desde então, outros diretores também utilizaram a Keighley, incluindo Denis Villeneuve, que a empregou para filmar sequências de Duna: Parte Três. A IMAX fabricou quatro dessas câmeras até o momento; pode parecer pouco, mas, considerando que Nolan utilizou sete câmeras IMAX em rotação durante as filmagens de A Odisseia — duas Keighleys e cinco modelos mais antigos… …modelos — uma frota de câmeras ligeiramente maior significa que, pela primeira vez, vários filmes podem ser rodados em IMAX simultaneamente. "É um divisor de águas", diz Nolan.

A empresa acredita que a Keighley atrairá cineastas que talvez tenham se sentido desestimulados pelo modelo anterior, que parecia ter sido projetado para as missões Apollo. "Ela tem literalmente chaves de alavanca, como as do centro de controle de missões da NASA", diz Paul Constantinou, vice-presidente de hardware e engenharia da IMAX. A Keighley conta com uma tela LCD elegante e oferecerá recursos modernos, como Wi-Fi, Bluetooth e saída de vídeo 4K.

Nolan está ansioso para ver o que outros diretores farão com as novas câmeras. "Há toda uma geração de cineastas mais jovens do que eu que agora insiste em fazer cinema, insistindo na qualidade analógica, mas querendo inovar", diz ele.


SOBRE O AUTOR

John Pavlus é jornalista e cineasta especializado em ciência, tecnologia e design. Seus textos foram publicados em veículos como Wired... saiba mais