Como Nike e Adidas criam uniformes para suportar o calor da Copa

Novos tecidos, testes em câmaras térmicas e referências culturais orientaram a criação das camisas de seleções como Brasil, França e EUA

Uniformes criados pela Nike para a Copa do Mundo reduzem a sensação de calor dos atletas
Crédito: Adidas/ Nike

Claire Rush 3 minutos de leitura

O calor. A umidade. O orgulho nacional.

Esses foram os principais fatores considerados pela Nike ao desenvolver os uniformes da Copa do Mundo de 2026 para seleções como Brasil, França, Estados Unidos e Canadá, este último ao lado dos norte-americanos como país sede do torneio.

Em uma competição marcada por pelo menos um jogo interrompido por tempestade e temperaturas próximas de 32°C em algumas cidades, a prioridade foi garantir desempenho e conforto aos jogadores.

A empresa trabalhou em conjunto com atletas, treinadores e federações para entender como os uniformes influenciam o desempenho dentro de campo, explica Phil McCartney, diretor de inovação, design e produtos da Nike.

"Também conversamos com os torcedores. O que significa vestir a camisa do Uruguai? O que significa representar a França? O que significa jogar pelo Canadá?", conta o executivo. "Reunimos essas percepções com ciência e inovação para criar designs bonitos."

A Adidas, responsável pelos uniformes da atual campeã Argentina, do México e da Colômbia, também apresentou peças desenvolvidas para ajudar no resfriamento dos atletas durante a competição. Já a Puma criou os uniformes de Portugal, além de Marrocos e Senegal, finalistas da última Copa Africana de Nações.

Embora essas três empresas sejam responsáveis pela maioria das camisas da competição, algumas seleções usam uniformes produzidos por outras fabricantes de artigos esportivos.

CÂMARAS TÉRMICAS E MANEQUINS ROBÓTICOS

O laboratório de pesquisas esportivas da Nike fica localizado nos arredores de Portland, nos EUA. É ali que os uniformes ganharam forma, por meio de inúmeros experimentos.

O espaço conta com uma pista coberta de 200 metros, um campo de futebol reduzido e uma quadra de basquete, monitorados por centenas de câmeras de captura de movimento. Há também câmaras térmicas capazes de reproduzir condições extremas de calor e umidade, tanto em pessoas quanto em manequins robóticos.

Uniformes criados pela Nike para a Copa do Mundo reduzem a sensação de calor dos atletas
Uniformes em exposição na sede da Nike (Crédito: Claire Rush/ AFP)

"Usamos captura de movimento para observar como os atletas se deslocam usando o uniforme e como o tecido responde a esses movimentos", explica McCartney. "Também utilizamos as câmaras térmicas para testar a respirabilidade do material, além da capacidade de absorver e dissipar o suor."

Para a Copa do Mundo, a Nike desenvolveu um novo tecido que, segundo a empresa, "respira" melhor e é produzido integralmente com materiais reciclados. A malha recebeu áreas específicas com tramas abertas, permitindo maior circulação de ar e proporcionando "a regulação térmica que todos os jogadores vinham pedindo", segundo o executivo da Nike.

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Apesar da extensa bateria de testes, o lançamento dos uniformes enfrentou alguns contratempos. Em partidas realizadas no início do ano, foram observadas saliências nas costuras dos ombros das camisas de seleções como França e Uruguai, conforme noticiou o jornal "The Guardian".

Segundo a Nike, eles conseguiram identificar o problema antes do início da Copa e trabalharam junto às federações "para garantir que os uniformes fossem apresentados conforme o planejado".

DESIGN INSPIRADO NA IDENTIDADE DE CADA PAÍS

Se as características técnicas são fundamentais para os atletas, a aparência dos uniformes tem peso semelhante para os torcedores, que querem se sentir representados quando vestem a camisa de sua seleção.

"Buscamos inspiração em muitos lugares: no passado, na arte, na música e na cultura. Tudo o que nos conecta ao país é algo que queremos incorporar", diz McCartney.

O uniforme reserva da França, por exemplo, é verde-claro para remeter à pátina da Estátua da Liberdade, monumento presenteado pela França aos Estados Unidos no fim do século 19. Na etiqueta interna aparece a palavra "Liberté" dentro da silhueta da coroa da estátua.

A camisa principal da França ganhou uma gola, assim como a do Uruguai. Segundo a Nike, a escolha partiu das próprias federações: os franceses quiseram reforçar a tradição do país como referência mundial em moda, enquanto os uruguaios buscaram um visual mais clássico. Em décadas passadas, golas eram comuns nos uniformes de futebol.

Os símbolos nacionais também orientaram o desenvolvimento das camisas dos Estados Unidos e do Canadá. O uniforme principal dos EUA traz listras horizontais vermelhas e brancas que lembram uma bandeira do país ondulando ao vento. Já a camisa canadense destaca uma grande folha de bordo, principal emblema nacional.

"Especialmente em um evento como a Copa do Mundo, buscamos valorizar ao máximo o orgulho nacional", afirma McCartney.


SOBRE A AUTORA

Claire Rush é repórter da Associated Press. saiba mais