Como projetar edifícios para usos que ainda não existem

Em um complexo de seis torres na China, a arquitetura modular transforma a incerteza sobre o futuro dos espaços em uma solução de design

fachada que se adapta conforme o tipo de uso do prédio
Créditos: Studio SZ/Justin Szeremeta/ KPF

Nate Berg 5 minutos de leitura
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Em um empreendimento de uso misto, o projeto Westlake 66, em Hangzhou, na China, levou a ideia de misturar funções a outro patamar.

Como acontece em muitos projetos dessa categoria, o empreendimento foi concebido inicialmente para reunir escritórios, lojas, hotéis e espaços públicos, integrando diferentes usos em um conjunto de seis torres e vários blocos que ocuparia mais de 185 mil metros quadrados.

Mas, entre o início do projeto, em 2018, e sua conclusão, no início deste ano, a combinação exata de usos mudou várias vezes. Assim, os arquitetos da Kohn Pedersen Fox (KPF), escritório sediado em Nova York responsável pelo projeto, transformaram essa incerteza na principal característica do empreendimento.

Todo o embasamento do complexo recebeu uma fachada de células modulares que pode ser reconfigurada de acordo com o que acontece no interior do prédio.

O sistema permite criar diferentes configurações externas: de grandes janelas, que deixam a luz entrar em um showroom de uma boutique a janelas estreitas e escurecidas para um bar com iluminação baixa, além de aberturas com venezianas que permitem a ventilação dos sistemas mecânicos do edifício. Se os usos internos mudarem ao longo do tempo, a fachada poderá ser ajustada para acompanhá-los.

Projetar para usos ainda indefinidos faz parte da realidade de quem assume grandes empreendimentos de uso misto, segundo Jeff Kenoff, diretor de design da KPF.

fachada que se adapta conforme o tipo de uso do prédio
Crédito: Studio SZ/Justin Szeremeta/ KPF

“Em determinado momento, é um hotel; em outro, um espaço de alimentação e bebidas, um átrio ou alguma outra coisa. Isso mudou constantemente ao longo do processo de projeto e até mesmo durante a etapa de locação”, afirma Kenoff.

“Um dos prédios seria destinado à hotelaria, mas uma universidade apareceu e disse que queria criar um prédio urbano como parte de seu sistema universitário. De repente, o que seria um prédio de escritórios se transformou em uma escola e um laboratório. Isso exige respostas muito diferentes da fachada”, acrescenta Kenoff.

PROJETAR PARA A INCERTEZA

Para desenvolver um projeto sujeito a tantas mudanças de uso, os arquitetos da KPF buscaram inspiração em algo que também está em constante transformação: a natureza.

“Observamos a biologia e as estruturas celulares, pensando em como poderíamos desenvolver isso em um sistema de paredes capaz de mudar ao longo do processo de projeto e, depois, durante toda a vida útil do edifício”, diz Kenoff.

A ideia levou à criação do sistema de fachada reconfigurável da KPF, composto por células de aproximadamente 1,8 metro de altura, que podem assumir diferentes formas para atender a diferentes funções.

desenho esquemático de fachada que se adapta conforme o tipo de uso do prédio
Crédito: KPF

Não é o primeiro sistema de fachada modular desenvolvido pela KPF ou por outros escritórios de arquitetura, mas ele se destaca pela capacidade de adaptação.

A disposição e a composição das células foram determinadas, em grande parte, pelos usos previstos para o interior do empreendimento. A KPF também realizou uma análise detalhada da localização de cada célula, levando em conta o contexto urbano e as condições ambientais. O estudo identificou mais de 2,8 mil situações que as células precisariam acomodar.

Em vez de fabricar 2,8 mil tipos de células, a equipe de design computacional da KPF concluiu que seria possível atender a todas essas condições com um sistema modular composto por apenas sete tipos de abertura, combinados com uma orientação cuidadosamente planejada para cada parte do prédio.

As sete aberturas variam de formatos estreitos a configurações totalmente abertas. Para que pudessem ser intercambiáveis, o projeto precisava ser o mais modular possível. Por isso, todas as células têm as mesmas dimensões gerais e podem ser montadas a partir de um catálogo de apenas 21 componentes.

Algumas dessas peças são revestimentos coloridos de terracota, que acrescentam profundidade e sombreamento às células. O material também faz referência à indústria local de terracota, cuja história remonta ao século 14.

fachada que se adapta conforme o tipo de uso do prédio
Crédito: Studio SZ/Justin Szeremeta/ KPF

Os arquitetos identificaram as cinco cores de terracota mais presentes na cidade e as reproduziram no edifício. As mesmas cores também foram utilizadas para orientar os visitantes: as mudanças de tonalidade indicam diferentes áreas do empreendimento.

Outra vantagem do sistema de paredes celulares modulares é que as dimensões reduzidas de cada célula – 1,8 metro por 90 centímetros – permitem que elas sejam fabricadas como peças retilíneas, mas instaladas na fachada formando uma curva suave.

fachada que se adapta conforme o tipo de uso do prédio
Crédito: Studio SZ/Justin Szeremeta/ KPF

Segundo Kenoff, isso possibilitou criar uma fachada mais expressiva, com saliências e reentrâncias no nível da rua. “Você começa realmente a criar espaços públicos nas ruas. Surgem praças, áreas de chegada e entradas”, afirma.

A fachada reconfigurável funciona como um elemento de interesse visual e também como um atrativo para os ocupantes dos prédios. Entre eles estão a universidade, lojas, uma academia e um hotel de luxo. O conjunto inclui ainda um parque sobre o embasamento, que conecta as seis torres.

fachada que se adapta conforme o tipo de uso do prédio
Crédito: Blackstation/ KPF

Pelo menos, essa é a configuração atual do empreendimento. Os usos mistos podem mudar – e provavelmente mudarão. A fachada poderá acompanhar essas transformações, embora Kenoff observe que uma reconfiguração desse tipo seria mais provável durante a substituição de um grande locatário.

“A capacidade de preparar o edifício para o futuro está justamente no fato de que não sabemos o que vai acontecer daqui a cinco anos”, afirma.

jardins de conjunto de prédios comerciais projetado com fachadas adaptáveis
Crédito: Studio SZ/Justin Szeremeta/ KPF

Para a KPF, porém, a fachada celular representa uma lição sobre como se pode projetar levando em conta as incertezas inerentes a empreendimentos de uso misto, ou a qualquer construção que precise evoluir ao longo de sua vida útil.


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais