Como um museu pretende traduzir a filosofia de Charles e Ray Eames

Instituto planeja transformar antigo complexo industrial em espaço dedicado ao legado do casal, mas enfrenta questionamentos sobre seu principal financiador

museu pretende traduzir a filosofia de Charles e Ray Eames
Crédito: Eames Institute

Patrick Sisson 5 minutos de leitura
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Quando o Instituto Eames de Curiosidade Infinita divulgou as imagens conceituais de seu novo museu, a intenção era mostrar como um complexo cultural poderia sintetizar o legado do casal de designers mais famoso do século 20, Charles e Ray Eames.

Liderado pelo escritório Herzog & de Meuron (referência em projetos de museus), em parceria com o escritório local EHDD e a empresa de arquitetura paisagística Field Operations, o projeto do museu pretende ser mais uma celebração das filosofias e ideias dos Eames do que um parque temático dedicado ao casal.

O instituto, uma organização filantrópica sem fins lucrativos fundada em 2019 para perpetuar o legado de Ray e Charles, integra uma rede de entidades já dedicadas ao trabalho do casal, entre elas a Fundação Eames, criada em 2004, e o Eames Office, responsável pela linha de móveis.

O projeto do novo museu prevê a reutilização adaptativa de uma área de 358 mil metros quadrados em Novato, na Califórnia. A proposta é transformar um armazém e um escritório construídos em 1964.

O conceito arquitetônico é apenas um exemplo de como o Instituto Eames busca traduzir os ideais e a visão do casal, incluindo seu princípio de oferecer “o melhor para o maior número de pessoas pelo menor custo possível”, além da valorização da estética de meados do século 20 e do reaproveitamento de materiais industriais.

A divulgação das imagens à tona discussões recentes e desconfortáveis sobre até que ponto uma pessoa ligada ao instituto reflete ou não aquilo que muitos consideram valores fundamentais associados ao nome Eames: um design democrático, contrário ao elitismo e acessível a todos, além do incentivo ao diálogo internacional e ao multiculturalismo.

O museu proposto é uma obra arquitetônica impressionante, que promete se tornar uma manifestação física importante do legado dos lendários designers. Mas é difícil ignorar o peso da participação de seu doador mais conhecido: o bilionário Joe Gebbia, cofundador do Airbnb.

Em uma entrevista à Fast Company em 2022, Gebbia falou com entusiasmo sobre os valores defendidos pelo casal e a influência que eles tiveram sobre sua trajetória. “Fiquei fascinado pelos valores e pela filosofia deles: criar o melhor design possível para o maior número de pessoas, pelo menor preço.”

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Crédito: Eames Institute

Nos últimos anos, Gebbia trabalhou para o governo Trump como chefe do National Design Studio, órgão voltado ao design no governo federal. Suas posições políticas assumiram um rumo de extrema direita, especialmente nas redes sociais, onde manifestou, entre outras coisas, opiniões contrárias à imigração.

Essas declarações alarmaram pessoas que normalmente se identificariam com a visão de mundo dos Eames – questões que o instituto evitou abordar diretamente até agora.

AS IDEIAS DOS EAMES GANHAM FORMA

Segundo John Cary, presidente e CEO fundador do instituto, ele próprio e Llisa Demetrios, curadora-chefe e neta do casal, “orientam 100% das decisões e da programação”.

Eles pretendem que essa programação evolua à medida que o museu toma forma. “Estamos aprendendo na prática, fazendo protótipos, aprimorando e repetindo o processo”, diz Demetrios. “Essa é a melhor maneira de honrar meus avós.”

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Crédito: Eames Institute

O museu vai ocupar um complexo corporativo de arquitetura modernista de meados do século 20, no condado de Marin, com um impressionante telhado em formato de coroa, em meio à paisagem bucólica da região da baía de São Francisco.

As novas imagens mostram um pátio de entrada acolhedor, com uma fonte, um amplo salão central, um espaço para criação e experimentação e áreas de convivência que integram ambientes internos e externos.

Elas oferecem uma visão mais concreta de como o instituto pretende receber atividades e exposições, incluindo mostras de móveis e outros objetos da coleção dos Eames.

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Crédito: Eames Institute

A extensa propriedade abrigou um armazém e escritórios da editora McGraw Hill e, mais tarde, pertenceu à Birkenstock. Seu telhado ondulado, feito de aço e concreto, lembra uma caixa de ovos com bordas pontiagudas.

Cary descreve o antigo armazém como um “edifício mítico”, que podia ser visto por quem passava pela rodovia. Segundo ele, o local oferece ao instituto a oportunidade de fazer muito mais do que seria possível em sua propriedade atual.

QUANTO VAI CUSTAR E QUEM VAI PAGAR

Os arquitetos responsáveis pelo projeto, do escritório Herzog & de Meuron, recorreram a algumas soluções que já fazem parte de seu repertório de projetos de museus para transformar o espaço.

Um grande salão central, com vãos de 11 metros de altura atravessados por uma ponte de aço inoxidável refletivo, vai criar uma enorme área interna para exposições e projetos.

“Muitas dessas abordagens dos Eames, esse mantra de tentar conseguir o máximo com o mínimo, são muito familiares para o nosso escritório”, diz Demeuse. “Definitivamente, descobrimos que temos uma afinidade com a maneira como os Eames trabalhavam.”

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Crédito: Eames Institute

A área externa, antes marcada por um conjunto mais austero de elementos corporativos modernistas – taludes, docas de carga e vias projetadas para o tráfego de caminhões –, será transformada em um conjunto de jardins, espaços lúdicos e assentos externos personalizados.

A Field Operations vai dividir a área em 10 zonas que representam a diversidade natural do condado de Marin, incluindo savanas de carvalhos, jardins costeiros e uma grande variedade de plantas nativas, que vão proporcionar diferentes paisagens ao longo do ano, conforme florescem.

a proposta dos Eames criar o melhor design possível para o maior número de pessoas, pelo menor preço.

Segundo Cary, as estimativas preliminares de custo do projeto estão perto de ser concluídas. Ele ainda não tem um valor final, mas acredita que será necessário um esforço significativo de captação de recursos para viabilizar o complexo.

Quando perguntei a Cary se as posições políticas de um financiador importam – especialmente quando contradizem diretamente aquilo que as pessoas entendem que Ray e Charles defendiam – ele respondeu que o instituto sempre "receberá de braços abertos pessoas que acreditam em nossa missão e no poder transformador do design".

“Não podemos fiscalizar todas as posições políticas de nossos doadores individuais, assim como não poderíamos fazer isso com nossos funcionários. E também acho que as posições políticas das pessoas evoluem com o tempo, algo que não teríamos condições de acompanhar de maneira eficaz.”


SOBRE O AUTOR

Patrick Sisson é colaborador da Fast Company e cobre o setor de desenvolvimento urbano e mercado imobiliário para o ranking anual Most... saiba mais