Daft Punk vai virar Lego – e os fãs ajudaram a criar o primeiro set

Os capacetes sem rosto da dupla e as minifiguras clássicas da Lego compartilham uma ideia: deixar espaço para a imaginação do público

Daft Punk vai virar Lego
Crédito: Lego

Jesus Diaz 5 minutos de leitura
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A Lego anunciou recentemente que Daft Punk, a dupla francesa de música eletrônica que encerrou suas atividades em 2021, está entrando no universo da marca em uma parceria que abrange “produtos, conteúdo e experiências de marca”.

Que história é essa, você pergunta? Mais um maldito acordo de licenciamento, agora absurdamente misturado a uma banda de música eletrônica que nem existe mais?

Por mais que eu não goste da dependência da Lego em relação ao licenciamento de propriedade intelectual, essa parceria faz todo o sentido do ponto de vista da filosofia criativa. Depois de conversar com os líderes criativos do Daft Punk e da Lego, acho que esta é uma candidata a melhor colaboração da história da Lego.

O primeiro lançamento será uma réplica do palco em formato de pirâmide usado na turnê Alive 2007, da dupla. Por enquanto, a Lego não informa quanto o conjunto vai custar, qual será seu tamanho nem quando chegará às lojas.

Segundo Samuel Liltorp Johnson, responsável pela criação do projeto na Lego, o design ainda está em desenvolvimento, em conjunto com a equipe do Daft Punk e Patrick Harboun, um pai de família de Luxemburgo que enviou a ideia à Lego Ideas, a plataforma na qual os fãs da Lego votam nos melhores modelos criados por outros fãs para que se transformem em conjuntos comerciais de verdade.

Por enquanto, há apenas um curta-metragem em que duas minifiguras de robôs seguem um tijolo vermelho luminoso até uma mesa de DJ, ao som de “Voyager” e “Human After All”, além da promessa de novidades em 2027.

Cédric Hervet, diretor criativo do Daft Punk, conta que a equipe da dupla procurou a Lego quando a banda ainda estava em atividade, mas o momento não era adequado.

“Para mim, o fim da banda nunca significou o fim dos robôs”, diz ele. “Um legado continua vivo por meio das pessoas que o assumem.” Segundo Hervet, foram os fãs que tornaram a parceria possível, votando na proposta da pirâmide publicada na Lego Ideas.

Para Hervet, essa “talvez seja a melhor vida que os robôs poderiam ter” depois do fim da banda. Isso porque a combinação vai muito além de produtos licenciados. Trata-se de filosofias criativas e de design que se encaixam tão perfeitamente quanto o próprio Nile Rodgers e o Daft Punk.

ROSTOS SORRIDENTES E CAPACETES SEM FACE

Quando a primeira minifigura criada pelo designer da Lego Jens Nygaard Knudsen entrou em produção, em 1978, ela tinha o rosto mais simples que se poderia imaginar: dois pontos pretos e um sorriso pintado em uma cabeça amarela. Isso foi intencional.

“Sexo, raça e papel social não deveriam fazer parte da figura – essas características seriam determinadas pela imaginação e pelas brincadeiras da criança”, explicou a Lego em 2003.

A mesma cabeça sorridente podia ser a de um policial, um cavaleiro ou um astronauta, dependendo do chapéu e da história que a criança inventasse. O rosto nunca mudava, então todo o trabalho ficava por conta da imaginação infantil.

A maioria das minifiguras atuais vem com expressões e características específicas dos personagens. Uma minifigura zangada fica condenada a estar zangada para sempre, enquanto o sorriso clássico funcionava como um espaço neutro a ser preenchido pela imaginação.

O Daft Punk construiu sua identidade com uma ideia semelhante à de Knudsen, mas substituiu o rosto por um ícone.

Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo passaram o fim dos anos 1990 escondidos atrás de máscaras e sacos na cabeça. Em 2001, com o álbum "Discovery", revelaram seus capacetes de robô. O de Bangalter era prateado; o de Homem-Christo, dourado. Ambos foram desenvolvidos com a ajuda de Tony Gardner, designer de efeitos especiais, e equipados com telas de LED.

trocar peças entre figuras é “um pouco como fazer sampling na música. Você pega um elemento, coloca em outro lugar e ele se transforma em algo novo".

Nas duas décadas seguintes, aqueles dois robôs se tornaram o Daft Punk. Os capacetes mudaram um pouco ao longo dos anos; as telas de LED diminuíram e, por fim, se apagaram. Mas os robôs nunca envelheceram, nunca tiveram um dia de cabelo ruim e nunca mostraram um rosto humano.

Os robôs se tornaram personagens fixos, sem rosto e, com o tempo, verdadeiros totens. Era exatamente esse o papel da minifigura de 1978 para uma geração de crianças.

Os capacetes permitiram que dois franceses se transformassem em ninguém. Eles apagaram as pessoas que estavam por trás das máscaras e converteram a dupla em uma tela em branco sobre a qual o público podia projetar suas próprias ideias.

“Os capacetes deixavam todo o espaço para os fãs; cada um podia projetar neles o que quisesse”, diz Hervet. “E, sem os capacetes, talvez os robôs nunca tivessem entrado no universo da Lego.”

Daft Punk vai virar Lego
Crédito: Lego

Uma minifigura usando um capacete do Daft Punk reúne dois dos rostos mais famosos e, ao mesmo tempo, mais vazios da cultura pop: uma pessoa de plástico sem identidade definida dentro de uma estrela da música sem identidade visível.

Essa sobreposição é justamente o objetivo, segundo Hervet. O que o Daft Punk sempre protegeu, afirma ele, “não foi o acesso aos robôs, mas a integridade deles”.

A Lego também é a metáfora física perfeita para a banda. Hervet diz que trocar peças entre figuras é “um pouco como fazer sampling na música. Você pega um elemento, coloca-o em outro lugar e ele se transforma em algo novo”.

Daft Punk vai virar Lego
Crédito: Lego

A parceria chegou até a remixar uma das faixas da dupla, “Human After All”, transformando-a no slogan da colaboração: “Builders After All” (algo como “construtores, afinal”).

Em meio à tempestade de peças de Lego que envolve licenciamentos de filmes e roupas e quadrinhos, considere esta colaboração uma rara parceria baseada em propriedade intelectual. Ela parece menos uma marca estampando seu logotipo em outra e mais o encontro, há muito esperado, entre duas antigas ideias de design.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais