Daft Punk vai virar Lego – e os fãs ajudaram a criar o primeiro set
Os capacetes sem rosto da dupla e as minifiguras clássicas da Lego compartilham uma ideia: deixar espaço para a imaginação do público

A Lego anunciou recentemente que Daft Punk, a dupla francesa de música eletrônica que encerrou suas atividades em 2021, está entrando no universo da marca em uma parceria que abrange “produtos, conteúdo e experiências de marca”.
Que história é essa, você pergunta? Mais um maldito acordo de licenciamento, agora absurdamente misturado a uma banda de música eletrônica que nem existe mais?
Por mais que eu não goste da dependência da Lego em relação ao licenciamento de propriedade intelectual, essa parceria faz todo o sentido do ponto de vista da filosofia criativa. Depois de conversar com os líderes criativos do Daft Punk e da Lego, acho que esta é uma candidata a melhor colaboração da história da Lego.
O primeiro lançamento será uma réplica do palco em formato de pirâmide usado na turnê Alive 2007, da dupla. Por enquanto, a Lego não informa quanto o conjunto vai custar, qual será seu tamanho nem quando chegará às lojas.
Segundo Samuel Liltorp Johnson, responsável pela criação do projeto na Lego, o design ainda está em desenvolvimento, em conjunto com a equipe do Daft Punk e Patrick Harboun, um pai de família de Luxemburgo que enviou a ideia à Lego Ideas, a plataforma na qual os fãs da Lego votam nos melhores modelos criados por outros fãs para que se transformem em conjuntos comerciais de verdade.
Por enquanto, há apenas um curta-metragem em que duas minifiguras de robôs seguem um tijolo vermelho luminoso até uma mesa de DJ, ao som de “Voyager” e “Human After All”, além da promessa de novidades em 2027.
Cédric Hervet, diretor criativo do Daft Punk, conta que a equipe da dupla procurou a Lego quando a banda ainda estava em atividade, mas o momento não era adequado.
“Para mim, o fim da banda nunca significou o fim dos robôs”, diz ele. “Um legado continua vivo por meio das pessoas que o assumem.” Segundo Hervet, foram os fãs que tornaram a parceria possível, votando na proposta da pirâmide publicada na Lego Ideas.
Para Hervet, essa “talvez seja a melhor vida que os robôs poderiam ter” depois do fim da banda. Isso porque a combinação vai muito além de produtos licenciados. Trata-se de filosofias criativas e de design que se encaixam tão perfeitamente quanto o próprio Nile Rodgers e o Daft Punk.
ROSTOS SORRIDENTES E CAPACETES SEM FACE
Quando a primeira minifigura criada pelo designer da Lego Jens Nygaard Knudsen entrou em produção, em 1978, ela tinha o rosto mais simples que se poderia imaginar: dois pontos pretos e um sorriso pintado em uma cabeça amarela. Isso foi intencional.
“Sexo, raça e papel social não deveriam fazer parte da figura – essas características seriam determinadas pela imaginação e pelas brincadeiras da criança”, explicou a Lego em 2003.
A mesma cabeça sorridente podia ser a de um policial, um cavaleiro ou um astronauta, dependendo do chapéu e da história que a criança inventasse. O rosto nunca mudava, então todo o trabalho ficava por conta da imaginação infantil.
A maioria das minifiguras atuais vem com expressões e características específicas dos personagens. Uma minifigura zangada fica condenada a estar zangada para sempre, enquanto o sorriso clássico funcionava como um espaço neutro a ser preenchido pela imaginação.
O Daft Punk construiu sua identidade com uma ideia semelhante à de Knudsen, mas substituiu o rosto por um ícone.
Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo passaram o fim dos anos 1990 escondidos atrás de máscaras e sacos na cabeça. Em 2001, com o álbum "Discovery", revelaram seus capacetes de robô. O de Bangalter era prateado; o de Homem-Christo, dourado. Ambos foram desenvolvidos com a ajuda de Tony Gardner, designer de efeitos especiais, e equipados com telas de LED.
trocar peças entre figuras é “um pouco como fazer sampling na música. Você pega um elemento, coloca em outro lugar e ele se transforma em algo novo".
Nas duas décadas seguintes, aqueles dois robôs se tornaram o Daft Punk. Os capacetes mudaram um pouco ao longo dos anos; as telas de LED diminuíram e, por fim, se apagaram. Mas os robôs nunca envelheceram, nunca tiveram um dia de cabelo ruim e nunca mostraram um rosto humano.
Os robôs se tornaram personagens fixos, sem rosto e, com o tempo, verdadeiros totens. Era exatamente esse o papel da minifigura de 1978 para uma geração de crianças.
Os capacetes permitiram que dois franceses se transformassem em ninguém. Eles apagaram as pessoas que estavam por trás das máscaras e converteram a dupla em uma tela em branco sobre a qual o público podia projetar suas próprias ideias.
“Os capacetes deixavam todo o espaço para os fãs; cada um podia projetar neles o que quisesse”, diz Hervet. “E, sem os capacetes, talvez os robôs nunca tivessem entrado no universo da Lego.”

Uma minifigura usando um capacete do Daft Punk reúne dois dos rostos mais famosos e, ao mesmo tempo, mais vazios da cultura pop: uma pessoa de plástico sem identidade definida dentro de uma estrela da música sem identidade visível.
Essa sobreposição é justamente o objetivo, segundo Hervet. O que o Daft Punk sempre protegeu, afirma ele, “não foi o acesso aos robôs, mas a integridade deles”.
A Lego também é a metáfora física perfeita para a banda. Hervet diz que trocar peças entre figuras é “um pouco como fazer sampling na música. Você pega um elemento, coloca-o em outro lugar e ele se transforma em algo novo”.

A parceria chegou até a remixar uma das faixas da dupla, “Human After All”, transformando-a no slogan da colaboração: “Builders After All” (algo como “construtores, afinal”).
Em meio à tempestade de peças de Lego que envolve licenciamentos de filmes e roupas e quadrinhos, considere esta colaboração uma rara parceria baseada em propriedade intelectual. Ela parece menos uma marca estampando seu logotipo em outra e mais o encontro, há muito esperado, entre duas antigas ideias de design.


