O que o ChatGPT fez (e não fez) na criação da jaqueta da Dendezeiro para o AFROPUNK
Inspirada na pioneira do rap Sharylaine, a peça combina referências afro-brasileiras e experimentações com IA. Mas transformar imagens em roupa exigiu modelagem, materiais e decisões humanas.

Antes de ganhar forma em uma jaqueta, a combinação de jeans, couro e referências do rap brasileiro foi experimentada em imagens geradas com inteligência artificial. Mas, para os estilistas Hisan Silva e Pedro Batalha, da marca baiana Dendezeiro, havia uma diferença importante entre visualizar a peça na tela e conseguir produzi-la.
“O ChatGPT cria uma imagem artificial. [...] Para passar para o real, é na parte da modelagem, é na parte do corte, é na parte da aplicação que, de fato, a gente vai ver se aquela peça funcionou”, explica Batalha.
O processo deu origem a uma jaqueta de edição limitada desenvolvida em colaboração com a OpenAI, criadora do ChatGPT, e o AFROPUNK Brasil. Apresentada na São Paulo Fashion Week (SPFW), em outubro, a peça será exibida durante o festival AFROPUNK Brasil, realizado neste fim de semana, dias 7 e 8 de novembro, no Parque de Exposições, em Salvador.
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A jaqueta combina jeans com gola e punhos de couro marrom. Nas costas, grafismos associados ao festival dividem espaço com uma homenagem à rapper Sharylaine, uma das pioneiras do rap feminino brasileiro.
A colaboração também mostra como uma ferramenta de IA pode participar de diferentes etapas do desenvolvimento de uma roupa, desde a pesquisa de referências até a visualização de acabamentos, sem assumir o trabalho de quem precisa transformar essas ideias em uma peça física.
A REFERÊNCIA VEIO DO RAP, NÃO DE UM PROMPT
Antes de recorrer à tecnologia, Hisan Silva e Pedro Batalha já tinham um repertório definido. Fundada em Salvador, a Dendezeiro combina elementos do streetwear com a alfaiataria e utiliza referências à memória, ao pertencimento e à cultura afro-brasileira em suas coleções.

A inspiração para a jaqueta surgiu da pesquisa realizada para “Oração de Barbearia”, projeto em que os estilistas investigaram a história do hip-hop brasileiro e sua relação com identidade e contestação de padrões sociais.
Uma das referências foi Sharylaine, pioneira do rap feminino no Brasil. Seu penteado, os bantu knots, conhecidos como coquinhos, aparece representado na estampa das costas, ao lado de grafismos do AFROPUNK.
Em um vídeo publicado no Instagram, Batalha explica que a escolha é uma homenagem à trajetória da artista.
“A jaqueta em específico tem uma referência muito direcionada com o hip-hop e o rap feminino, onde a gente referencia a Sharylaine, que é uma rapper da década de 80”, afirma.
A pesquisa cultural, portanto, já fazia parte do trabalho da dupla. O papel da inteligência artificial foi ajudar a experimentar maneiras de transformar essas referências em uma peça de roupa.
COMO O CHATGPT ENTROU NO ATELIÊ DA DENDEZEIRO
O uso do ChatGPT começou antes da parceria formal com a OpenAI.
Batalha já utilizava a ferramenta em seu processo criativo para desenvolver ideias e visualizar possibilidades. Foi durante um café com Christian Rôças, conhecido como Crocas, head de Comunidade, Criadores e Talentos da OpenAI para a América Latina, que o estilista compartilhou algumas dessas experiências.
Segundo Christian, a conversa revelou um uso da tecnologia que já fazia parte do cotidiano da marca e acabou dando origem à colaboração.
Um dos exemplos envolvia o desenvolvimento de lavagens e texturas em jeans.
Batalha fotografava uma textura que queria experimentar e utilizava o ChatGPT para gerar uma imagem de como aquele acabamento poderia aparecer em uma calça ou jaqueta. Depois, enviava a simulação ao fornecedor responsável pela lavagem.
A imagem não era uma especificação técnica pronta, mas uma referência visual que ajudava o estilista a comunicar o resultado que desejava alcançar.
“Ele experimentou umas texturas diferentes, então ele faz a foto da textura que ele queria, pede [para] a imagem gerar como seria aquela peça, uma calça, uma jaqueta com aquela lavagem nessa textura, e mandava para o fornecedor dele de lavagem”, conta Christian.
A ferramenta permitia comparar alternativas antes de começar a produção, sem a necessidade de confeccionar uma nova peça a cada mudança de cor, textura ou acabamento.
Na avaliação de Batalha, esse tipo de experimentação amplia as possibilidades de escolha durante a criação.
“O ChatGPT entra para ampliar nossas escolhas e o nosso olhar criativo”, afirma.
O QUE A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NÃO CONSEGUE COSTURAR
Para desenvolver a jaqueta do AFROPUNK, os estilistas testaram no ChatGPT diferentes materiais, acabamentos, bordados, cores e lavagens.
As experimentações resultaram em imagens que antecipavam a aparência da peça pela frente e pelas costas, permitindo comparar possibilidades antes da confecção.
Mas visualizar uma combinação de materiais não significa saber se ela funcionará quando sair da tela.
A imagem gerada por IA não resolve sozinha questões como modelagem, corte, encaixe dos materiais ou aplicação dos acabamentos. Essas decisões continuam dependendo do conhecimento técnico dos profissionais envolvidos na produção.
É nessa passagem da imagem para a roupa que Batalha identifica uma das principais limitações da ferramenta.
A direção criativa também permaneceu com os estilistas. Foram Hisan e Pedro que definiram as referências culturais, selecionaram as propostas que faziam sentido para a peça e orientaram as experimentações com imagens, croquis, paletas de cores e especificações de materiais.
O caso mostra uma aplicação da inteligência artificial como ferramenta de visualização e comunicação entre profissionais, e não como substituta do processo de criação e confecção.
DA JAQUETA À FORMAÇÃO DE OUTROS CRIADORES
A colaboração entre Dendezeiro, OpenAI e AFROPUNK Brasil também se estendeu a uma iniciativa educativa.
No dia 5 de novembro, uma masterclass realizada no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, reuniu os estilistas Pedro Batalha e Hisan Silva e o artista visual Del Nunes para discutir o uso de inteligência artificial em processos criativos.
Segundo Christian, o encontro recebeu mais de 500 inscrições.

A proposta não era apresentar uma sequência de comandos para reproduzir os resultados da Dendezeiro, mas compartilhar como cada profissional incorporou a tecnologia à própria maneira de criar.
“Vamos mostrar a lógica de raciocínio de três super talentos: como é que eles usam, como eles raciocinam isso e, a partir daí, cada um toma o seu próprio rumo”, afirmou Christian.
A jaqueta também recebeu uma etiqueta numerada com um QR code que direciona para uma página com vídeos, bastidores e conteúdos sobre o processo de criação.
A iniciativa integra a plataforma Feito junto com o ChatGPT, que reúne materiais para profissionais interessados em experimentar a ferramenta em seus projetos.
Para Batalha, testar novos caminhos tecnológicos não significa abandonar a identidade que orienta o trabalho da Dendezeiro.
“Não é a gente deixar de ser a gente, mas a gente enxergar uma forma de ser a gente melhor ainda”, afirma o estilista.