Entre flores e espinhos: o teste de resiliência dos relacionamentos modernos

Projeto "Desarranjos" usa espinhos descartados para refletir sobre os desafios dos relacionamentos na era do cansaço, da tecnologia e da gratificação instantânea.

Casal se abraça enquanto segura um buquê de espinhos em instalação artística sobre relacionamentos e resiliência emocional.
O projeto Desarranjos usa espinhos descartados para refletir sobre os desafios dos relacionamentos na era da gratificação instantânea.

Sofia Bolina 3 minutos de leitura

É 12 de junho; dentre as primeiras imagens, senão a primeira, que vêm à mente ao pensar nessa data, está o buquê de rosas vermelhas, o mais tradicional dos presentes. O  projeto Desarranjos, lançado pelo estúdio botânico Mesa & Flor e pelo estúdio criativo independente Papoco, tem como intenção contestar essa associação clássica, e faz uso justamente daquilo que é podado e descartado nas flores de Dia dos Namorados: os espinhos. 

Em Desarranjos, são cinco as esculturas criadas a partir de espécies cujos espinhos, desenvolvidos evolutivamente na botânica por necessidade de sobrevivência em meio à hostilidade, estresse ou escassez ambiental, dialogam com as armaduras psicológicas e emocionais que construímos para nos protegermos. 

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As esculturas foram concebidas e montadas por André Chaves, fundador do Mesa & Flor, e pelo florista e paisagista Tanus Saab. As criações foram fotografadas em estúdio e usadas como base para um curta-metragem de cerca de noventa segundos, dirigido por Kazuo Kubo, disponível no site do projeto e no YouTube

Feitos com acácia, eryngium, espinheiro, cacto, e bougainvillea, os buquês não murcham por causa de sua estrutura lenhosa e através de um processo de cura natural ao qual algumas das espécies desidratadas foram submetidas. A partir dessas estruturas,  o projeto explora os espinhos “humanos”- as diferentes maneiras como resistimos: as situações em que entramos em atrito com o outro, os momentos em que levantamos barreiras à nossa volta, e a decisão de mesmo assim nos mantermos dentro de uma relação. 

O projeto Desarranjos usa espinhos descartados para refletir sobre os desafios dos relacionamentos contemporâneos.
Crédito: Divulgação

“Hoje é tão difícil, né? Hoje você ter um namorado, uma namorada, é um teste de resiliência, porque é complicado unir com a rotina agitada… enfim, todo mundo chega cansado em casa, é exaustivo”, compartilha Chaves. Os desgastes vindos do cansaço, do diálogo custoso por conta de divergências, do contato quase ininterrupto com e através das tecnologias e suas conveniências… tudo isso torna estar em relação com o outro (e com seus traumas, sejam eles elaborados ou não), um grande desafio contemporâneo, que desperta nossos mecanismos de defesa.

TESTES DE RESILIÊNCIA DO AMOR 

Na etapa de criação dos arranjos físicos, a maior dificuldade enfrentada pela equipe foi ter acesso aos espinhos em si, que não são comercializados e nem podem ser facilmente encomendados em cooperativas como flores e sementes. Para Kubo, que trabalhou com ferramentas de IA generativa no projeto cinematográfico, o desafio era  se certificar de que as metáforas não ficassem complexas demais. A intenção era que o texto poético declamado no filme conversasse de forma mais clara com as imagens. 

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“Penso que, quando complicamos demais, a mensagem acaba ficando muito dependente da interpretação de cada pessoa. Isso tudo bem até certo ponto, mas não no fundamento da ideia, que precisa ser claro. Então, os desafios foram justamente esses: encontrar signos óbvios e, ao mesmo tempo, visualmente interessantes", diz ele. Além disso, houve uma grande preocupação da equipe em assegurar a verossimilhança das imagens geradas por IA com os arranjos botânicos físicos.

Na plataforma interativa de Desarranjos, há ainda um jogo que funciona como teste de resiliência: o usuário precisa pressionar o espinho digital ininterruptamente. Quem aguentar por mais tempo, ganha uma das cinco esculturas físicas. Até o momento de publicação desta matéria, o líder do ranking ultrapassa a marca das duas horas e quinze minutos. 

Por trás disso, a ideia é gerar fricção, palavra temida tanto na vida real quanto no Vale do Silício, onde a gratificação instantânea faz parte dos princípios de desenvolvimento de novas tecnologias. Essa filosofia do design, a frictionless UX (interface sem fricção, em inglês) é questionada,trazendo no jogo o desconforto que, nas relações interpessoais, precisa ser sustentado. 

Yuri Faccioli, cofundador da Papoco, elabora sobre como isso se aplica ao projeto como um todo: “Obviamente, a gente não é obrigado a aceitar todas as dificuldades que um relacionamento traz, algumas coisas são discutíveis. Você conseguir abraçar esses espinhos, ter essa resiliência de entender quais são os espinhos que te doem e os que ferem o outro. E, mesmo assim, conseguir encontrar caminhos para fazer com que esse relacionamento aconteça e floresça.”


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais