Essa startup cultiva as cores das roupas

Estúdio de Neri Oxman desenvolve tecnologia que faz tecidos "cultivarem" suas próprias cores inspiradas na natureza

processo de tingimento de tecidos usando bactérias em vez de corantes sintéticos
Crédito: Nicholas Calcott

Elizabeth Segran 4 minutos de leitura
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No estúdio de design OXMAN, em Nova York, quatro capas chamam a atenção. Pendem de um manequim em dobras suaves, todas tricotadas com fios de seda.

A coloração é irregular. Tons intensos de índigo se acumulam nas saliências do tecido; o preto aparece nas reentrâncias; o azul forma linhas levemente tortas.

O pigmento parece desgastado e marcado pelo tempo, de modo que nenhuma parte é igual à outra. Em uma tinturaria industrial, isso seria considerado um defeito e a peça seria descartada. Mas ali, essa imperfeição é justamente o objetivo.

A cor do tecido não foi obtida por meio de tintura; é resultado de um processo que imita a maneira como a natureza colore frutas, flores e animais.

Ao longo de 24 horas, bilhões de bactérias E. coli, modificadas geneticamente pela equipe de designers e cientistas da OXMAN, "cultivaram" os pigmentos diretamente nas fibras do tecido.

Para Neri Oxman, ex-professora do MIT Media Lab e fundadora da OXMAN em 2020, esse projeto, chamado Vigils, representa uma alternativa radical ao modelo tradicional de tingimento da indústria da moda.

Mais do que isso, propõe uma reflexão sobre a lógica predominante do setor, baseada na extração e exploração da natureza. Oxman quer imaginar um futuro em que a moda trabalhe ao lado da natureza, cocriando soluções benéficas tanto para as pessoas quanto para o planeta.

"Existe um amplo espectro de relações entre design e natureza, que vai da extração à geração", diz Oxman. "Você pode extrair corantes de flores para usar em tecidos ou reproduzir exatamente o código genético responsável por aquela cor em uma bactéria, para que ela a produza."

A indústria tradicional de tinturaria é altamente tóxica e poluente. O tingimento e o acabamento de tecidos respondem por até 20% da poluição industrial da água no mundo, despejando o equivalente a cerca de 3,8 trilhões de litros de água contaminada nos oceanos.

Embora diversas empresas de biotecnologia já tenham desenvolvido corantes mais sustentáveis – substituindo produtos químicos por alternativas menos agressivas dentro das tinturarias –, a proposta de tingimento biológico da OXMAN repensa todo o processo desde a origem, tratando corantes e tecidos como organismos vivos capazes de crescer.

Embora o projeto Vigils ainda esteja em fase experimental, o objetivo de longo prazo é comercializar e escalar essa tecnologia, transformando o futuro da moda.

UM LABORATÓRIO QUE TRABALHA A FAVOR DA NATUREZA

Depois de cinco anos operando discretamente, Oxman abriu seu novo estúdio no ano passado. Ao lado do marido, Bill Ackman, gestor do fundo Pershing Square, ela já investiu mais de US$ 100 milhões no laboratório. Hoje, cerca de duas dezenas de pesquisadores trabalham em projetos que unem engenharia, ciência de dados, biotecnologia e design.

Em uma sala, o laboratório recria as condições atmosféricas de Nova York em um dia específico de 1864. Em outra, cientistas monitoram uma antiga floresta de carvalhos e tulipeiros para investigar como ecossistemas ancestrais poderiam ser restaurados.

processo de tingimento de tecidos usando bactérias em vez de corantes sintéticos
Crédito: Nicholas Calcott

"Você consegue sair de um robô, ir para um computador e depois pegar uma pipeta em apenas 30 segundos", diz Oxman. Segundo ela, a missão do laboratório é colocar a natureza no centro do processo de criação, tratando-a como colaboradora, e não como um recurso a ser explorado.

Oxman tem fascínio pelas bactérias, que considera plataformas criativas para engenharia biológica. Segundo ela, é possível programar o código genético desses microrganismos para fabricar praticamente qualquer coisa.

No caso do Vigils, sua equipe inseriu genes capazes de fazer a E. coli produzir duas classes de pigmentos: índigos e melaninas, as mesmas moléculas responsáveis pelo azul do jeans e pelos tons castanhos e pretos dos cabelos e da pele. "A bactéria é o grande cavalo de batalha da biologia sintética", afirma.

processo de tingimento de tecidos usando bactérias em vez de corantes sintéticos
Crédito: Oxman

"Se você observar como a natureza colore os seres vivos, verá que isso acontece de dentro para fora", explica Marcus Walker, biólogo sintético que trabalhou no projeto de tingimento biológico.

As listras de um tigre ou os desenhos de uma impressão digital não são pintados sobre a superfície. Cada célula interpreta sua posição no organismo e produz exatamente o pigmento que deve gerar.

Inspirada nessa lógica, a equipe do Vigils aplica às fibras um composto químico que pode ser detectado pelas bactérias. Depois, pulveriza toda a peça com uma cultura bacteriana. O pigmento surge apenas nas regiões onde essas fibras tratadas foram tricotadas, permitindo criar padrões diretamente no tecido.

processo de tingimento de tecidos usando bactérias em vez de corantes sintéticos
Crédito: Nicholas Calcott

A ideia do tingimento biológico é fazer a cor crescer sobre o material, em vez de saturar o material com pigmento. Como consequência, o processo preserva as variações e irregularidades características das cores produzidas pela natureza.

REPENSANDO TODO O SISTEMA

A fundadora da OXMAN acredita que o processo de pigmentação bacteriana pode ser comercializado e incorporado pela indústria da moda. Para isso, ainda será necessário avançar na pesquisa científica. Mas um desafio talvez ainda maior seja convencer empresas e fábricas a repensar a forma como operam.

A cadeia de suprimentos da moda – incluindo o processo industrial de tingimento – funciona praticamente da mesma maneira há décadas, quando não há séculos. A proposta de Oxman não é aperfeiçoar esse modelo gradualmente, mas reinventá-lo por completo.

Nada disso vai acontecer rapidamente. Ela estima que levará décadas para que essa visão se torne realidade. Ainda assim, acredita que as próximas gerações passarão a exigir que a fabricação de roupas seja muito menos baseada na extração de recursos naturais e na geração de poluição.


SOBRE A AUTORA

Elizabeth Segran, Ph.D., é colunista na Fast Company. Ela mora em Cambridge, Massachusetts. saiba mais