Fricção é solução sim
A cultura da conveniência quer eliminar o atrito da nossa vida. Só que algumas das nossas melhores capacidades humanas nascem justamente dele.

A primeira vez que ouvi esta palavra foi na infância, quando descobri que alguns carrinhos ganhavam propulsão ao serem arrastados para trás. Ela era um componente anímico para meus brinquedos e, sempre que eu ganhava um presentinho com rodas, ficava na expectativa de que viesse com esse recurso.
Os tempos se aceleraram, e a fricção agora é uma inimiga a ser eliminada. A cultura antifricção se tornou um requisito no desenvolvimento de produtos e serviços: experiências que entregam tudo ao consumidor em um piscar de olhos — comida, transporte, entretenimento, hospedagem, transações financeiras e até mesmo o próximo par romântico.
É um catálogo infinito de possibilidades, no qual o tempo de espera precisa ser reduzido continuamente. Qualquer milissegundo conta para não gerar distração em quem está do outro lado da tela. Nós, desumanamente batizados de “usuários”, como uma premonição das doses de dopamina que viriam a ser oferecidas pelas rolagens infinitas.
Nossa percepção do tempo vai sendo redefinida. Então, nós nos submetemos a uma venda casada: a cada aplicativo que instalamos no smartphone, atualizamos também nosso próprio sistema operacional com um novo plugin de ansiedade. Queremos tudo instantâneo, resumido, como uma pílula a ser ingerida.
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NEM TODA FRICÇÃO É RUIM
Precisamos distinguir a fricção que desperdiça energia daquela que transforma esforço em experiência e aprendizado.
Agora, com o acesso de bolso à inteligência artificial, vamos aos poucos permitindo que nossa cognição seja terceirizada. Desatentos, não percebemos quando trocamos o esforço de pensar pela facilidade de receber respostas. E aceitamos trocar nossa agência humana por conveniência.
Usar IA não necessariamente diminui nossa capacidade de pensar. A tecnologia pode ser uma aliada para ampliar nosso raciocínio, descobrir pontos cegos, explorar possibilidades e chegar mais longe. Mas precisamos estar atentos ao que abrimos mão quando deixamos de realizar o esforço cognitivo que antecede uma resposta.
O problema é que nem toda fricção é ruim. Precisamos distinguir aquela que desperdiça energia daquela que transforma esforço em experiência e aprendizado.
Na superfície, a cultura antifricção parece oferecer facilidade. Sob uma lente mais criteriosa, porém, podemos perceber algo menos confortável: algumas das habilidades que mais valorizamos nos seres humanos se desenvolvem exatamente quando existe alguma dificuldade.
Criatividade demanda tentativa e erro. Resiliência precisa de frustração. Pensamento crítico pede repertório. Aprendizagem acontece com esforço e tempo.
Ou seja, há coisas que só conseguimos desenvolver quando a fricção faz parte do caminho.
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AS HABILIDADES QUE O ATRITO DESENVOLVE
Não por acaso, essas mesmas capacidades aparecem entre as competências que o Fórum Econômico Mundial considera essenciais para o trabalho nos próximos anos.
E são exatamente elas que atrofiam quando deixamos de exercitá-las. Quando uma IA continuamente nos bajula, seguimos preparados para lidar com a divergência de outra pessoa? Ao terceirizarmos o pensamento para uma máquina, ainda treinamos nossa capacidade de analisar diferentes cenários?
O hábito da leitura oferece um sinal dessa perda de disposição para sustentar o esforço.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostra que 53% dos brasileiros não leram sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento de 2024. Em quatro anos, o país perdeu 6,7 milhões de leitores. Entre os não leitores, 13% dizem que não leem porque simplesmente não têm paciência.
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UMA ACADEMIA PARA A COGNIÇÃO
Nos últimos meses, tenho participado de encontros de sensibilização com lideranças de diferentes empresas. Em todos eles, percebo a mesma inquietação quanto ao papel do humano em tempos de eficiência e adoção da IA.
O desafio agora é construir, com intencionalidade, nosso lugar em uma nova lógica organizacional. Isso significa exercitar a agência humana em um ambiente de trabalho compartilhado por pessoas e agentes de IA.
Nesse cenário, nosso diferencial está justamente onde a eficiência encontra seus limites: na capacidade de questionar, interpretar o que não está explícito, perceber contradições, imaginar o que ainda não existe, sustentar uma dúvida e mudar de ideia diante de um novo contexto.
Para as máquinas, será cada vez mais fácil produzir respostas. Nossa tarefa será não confundir resposta com pensamento.
Essa reação ganhou até um nome em 2026: friction maxxing.
A ideia é escolher deliberadamente momentos em que vale a pena fazer as coisas no próprio tempo, com menos atalhos, mais olho no olho e mais profundidade. Criar atrito intencional, como uma academia para uma mente em risco de atrofia. Talvez precisemos reaprender a dificultar algumas coisas.
Não para voltar ao passado, mas para lembrar que uma vida sem nenhum atrito pode ser extremamente eficiente e, ao mesmo tempo, esvaziada.
As empresas também vão precisar dessa academia. Se existe ginástica laboral para o corpo, falta um equivalente para a cognição: um espaço reservado na rotina, de propósito, para que todos, do estagiário ao C-level, possam pensar devagar, com atrito, antes de recorrer ao atalho da IA.
É disso que sinto saudades: dos tempos em que meus carrinhos ganhavam vida com a fricção. Assim como nós, seres humanos.