Moda é arte? Os looks do Met Gala podem ter a resposta (ou não)

Protestos contra patrocinadores colocam o MET Gala 2026 no centro de um debate sobre poder, dinheiro e influência na moda

Crédito: Fast Company Brasil

Beatrice Dupuy 5 minutos de leitura

Do lado de fora das paredes do museu, a arte ganha movimento e forma: famosos da música, do cinema e das artes sobem, com estilo, os degraus do Metropolitan Museum of Art (Museu Metropolitano de arte de Nova York, o MET) para apresentar suas leituras criativas do dress code do Met Gala 2026: “moda é arte”.

A discussão sobre se moda é arte acompanha o setor há décadas. Mas, à medida que bilionários da tecnologia ampliam sua presença no mainstream, o evento já vira manchete (antes mesmo de começar) não por quem é o mais bem vestido, mas por quem está financiando a festa.

Realizado na primeira segunda-feira de maio, o Met Gala é um evento beneficente apenas para convidados, que arrecada fundos para o Costume Institute do museu. Ao longo do tempo, a festa se consolidou como símbolo de status e moda, com sua organizadora, Anna Wintour, reunindo celebridades e convidados ricos o suficiente para bancar ingressos que chegam a US$ 100 mil.

Mas, nas semanas que antecederam a edição deste ano – que acontece nesta segunda-feira (4 de maio) – integrantes do grupo ativista britânico Everyone Hates Elon foram às ruas de Nova York para protestar contra os principais patrocinadores do Met Gala 2026: Lauren Sánchez e Jeff Bezos.

Pela cidade, diversas peças publicitárias foram “hackeadas” pelo grupo. Em um ponto de ônibus, por exemplo, um anúncio agora diz: “O Met Gala de Bezos convida você a festejar como se fosse 1939.”

Abaixo, há uma imagem de Bezos erguendo uma taça de champanhe, numa referência ao filme "O Grande Gatsby", com Leonardo DiCaprio, com um código de vestimenta sugerido: “ignorância deliberada”.

Em outro anúncio, desta vez dentro de um vagão de metrô, um pôster com a identidade visual vermelha do Met afirma: “Jeff Bezos apresenta orgulhosamente o Met x apoio ao ICE” – uma referência ao órgão de imigração dos EUA, que utiliza serviços de nuvem da AWS, da Amazon.

Uma instalação pop-up em frente ao museu também chama atenção. À distância, parece uma sinalização comum de segurança de eventos, acompanhada por um cesto com garrafas plásticas vazias – uma alusão a um processo coletivo movido por motoristas da Amazon, que alegaram ter sido forçados a urinar em garrafas durante o trabalho.

A placa, intitulada “Banheiro VIP do Met Gala”, afirma que a instalação é uma homenagem a Bezos. “Vá em frente, é bom o suficiente para os funcionários dele”, diz o texto.

protesto contra bilionários no evento MET Gala
Crédito: Reprodução/ Instagram

Os protestos criativos chegaram até o interior do museu. Na loja oficial do Met, o grupo ativista posicionou produtos satíricos, incluindo pratos decorativos com o nome “The Bezos Met Gala”, acompanhados de frases como “a crise de meia-idade mais cara do mundo” e “do homem cujos servidores alimentam o ICE”.

A Fast Company procurou o Met e representantes dos Bezos, por meio do Bezos Earth Fund, para comentar o caso.

Os ativistas não são os únicos a criticar o evento deste ano. Embora nem todos mencionem publicamente os patrocinadores controversos como motivo, várias celebridades devem ficar de fora, entre elas Zendaya, Bella Hadid e até o prefeito da cidade, Zohran Mamdani.

MET GALA 2026 E A RELAÇÃO ENTRE MODA E ARTE

O código de vestimenta do estrelado evento beneficente pede que os convidados “expressem sua relação com a moda como uma forma de arte incorporada ao corpo”.

A moda sempre dialogou com a arte e referências não faltam para quem quiser traduzir essa conexão no tapete vermelho. Resta saber se os convidados vão recorrer a peças de arquivo ou apostar em criações sob medida feitas por grandes maisons.

Peças de acervo se tornaram febre nos tapetes vermelhos, graças a celebridades antenadas em busca de peças raras da história da moda.

vestido com estampa  de lagosta, da estilista Elsa Schiaparelli

Em 1937, a designer Elsa Schiaparelli colaborou com o artista espanhol Salvador Dalí para criar um vestido de seda branca com uma lagosta estampada na parte frontal.

Anos depois, Yves Saint Laurent apresentou, em 1965, seus icônicos vestidos inspirados nos blocos de cor de Piet Mondrian. Mais recentemente, em 2002, Marc Jacobs uniu forças com o artista Takashi Murakami para reinventar os padrões da Louis Vuitton.

O tapete desta segunda também abre espaço para performances autorais.

O falecido designer Alexander McQueen é frequentemente reverenciado como artista. No desfile de primavera de 1999, ele encerrou a apresentação com uma performance marcante: máquinas borrifaram tinta preta e amarela sobre o vestido branco de Shalom Harlow enquanto ela posava sobre uma plataforma giratória.

braços mecânicos espalham tinta em vestido branco em desfile da coleção de Alexander McQuenn em 1999
Crédito: Guy Marineau/ Getty Images

Nos anos anteriores, o Met Gala já homenageou estilistas e buscou inspiração na literatura. Em 2024, o foco foi a arte da alfaiataria, com o tema “sob medida para você”.

O evento arrecada fundos para o Costume Institute do museu, e, a cada edição, o dress code dialoga com a exposição de primavera da instituição. Nesta temporada, a mostra “Costume Art” se propõe a “examinar a centralidade do corpo vestido”.

MODA E ARTE, INSPIRAÇÃO CRUZADA

A relação entre moda e arte, porém, nem sempre foi consenso. A historiadora e autora Nancy Hall-Duncan lembra, no livro "Art X Fashion: Fashion Inspired by Art" (Arte x moda: moda inspirada pela arte, em tradução livre), que no século 19 a arte era vista como clássica, enquanto a moda era tratada como algo frívolo.

Quando Yves Saint Laurent protagonizou a primeira exposição de moda do MET, em 1983, a iniciativa enfrentou forte resistência. Desde então, o museu realizou inúmeras mostras do gênero, movimento seguido por instituições pelo mundo. O Museu do Louvre, por exemplo, apresentou sua primeira exposição de moda, “Louvre Couture”, no ano passado.

vestidos das marcas Balenciaga, Dior e Gaultier em mostra no Museu do Louvre
Balenciaga, Dior e Gaultier na mostra Louvre Couture (Crédito: Museu do Louvre)

Para Hall-Duncan, o dress code definido por Anna Wintour e pelo curador do Costume Institute, Andrew Bolton, funciona como o selo definitivo de que moda é, sim, arte. “Não é mesmo um grande passo?”, disse. “Isso vai, de fato, mudar percepções.”

O espetáculo do tapete vermelho poderá ser acompanhado online, pelo canal da revista Vogue dos EUA, a partir das 19h (hora de Brasília). A Associated Press também transmite, a partir das 17h30, a saída das celebridades de hotéis em Nova York rumo ao evento, pelo site APNews.com e no YouTube.


SOBRE A AUTORA

Beatrice Dupuy é repórter da Associated Press. saiba mais