Um mofo pode ajudar a construir cidades mais resilientes
Inspirada na inteligência de um organismo unicelular, uma nova ferramenta ajuda urbanistas a projetar redes de transporte mais eficientes e resistentes a desastres.

Em um experimento clássico realizado há mais de uma década, pesquisadores no Japão forneceram a um slime mold (um organismo unicelular conhecido por formar redes eficientes) um "mapa" das cidades ao redor de Tóquio. Eles representaram cada município com um floco de aveia — o alimento favorito do organismo — e observaram enquanto ele criava uma rede surpreendentemente semelhante à malha ferroviária japonesa.
A conclusão foi clara: o slime mold é surpreendentemente eficiente na criação de trajetos complexos e eficazes. Uma startup chamada Mireta Urban Dynamics está agora utilizando essa mesma abordagem básica em um software voltado para planejadores urbanos.
"Logo no início da minha graduação em arquitetura, fiquei fascinado pelas estratégias que a natureza e a biologia desenvolveram para solucionar desafios", diz Raphael Kay, cofundador da Mireta. Os seres humanos projetam redes de transporte há milhares de anos, mas alguns organismos "vêm resolvendo desafios análogos há centenas de milhões, se não bilhões, de anos", afirma ele.

Em vez de treinar uma IA com base no slime mold, o software replica a maneira básica como o organismo cresce. "Essa já é uma forma de inteligência que evoluiu ao longo de um grande número de ciclos evolutivos", diz Kay.
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Em seguida, o software incorpora várias outras camadas de informação. Por exemplo, um planejador urbano que analisa uma rede de metrô pode adicionar detalhes sobre a distribuição populacional da cidade — fazendo com que a ferramenta priorize certas áreas — e um mapa de inundações que a ajuda a evitar outras regiões. (A IA pode auxiliar na criação desses outros recursos, embora o núcleo da ferramenta baseie-se na inteligência biológica, e não na IA.)
REDE DE MOFO CRIA CIDADES MAIS EFICIENTES
A ferramenta pode ser utilizada tanto para projetar redes de transporte do zero quanto para sugerir pequenas alterações em redes já existentes. A Mireta começou a colaborar com escritórios de projetos em algumas iniciativas, que vão desde uma rede viária em um campus universitário até uma nova rede de metrô. Até o momento, esses projetos ainda estão na fase de proposta aos clientes, embora Kay espere que avancem.
Já existem evidências de que a ferramenta funciona. Nos projetos-piloto, a empresa afirma que a ferramenta criou redes de 20% a 30% mais resilientes, mantendo o mesmo custo unitário das alternativas. Nesse contexto, a resiliência significa que, se um desastre interromper parte de uma rede de transporte, as pessoas ainda terão outras formas de se locomover. Esse é um desafio que os mixomicetos (fungos mucosos) sabem enfrentar.
“Existe um equilíbrio fascinante, moldado pela evolução natural, entre custo e resiliência — algo que a biologia teve de resolver, já que a morte acarreta um preço altíssimo”, afirma Kay. “Eles desenvolveram estratégias de redundância estratégica.”
À medida que as mudanças climáticas elevam o risco de desastres — de incêndios florestais a inundações —, planejadores buscam maneiras de incorporar mais resiliência aos projetos.
“Só recentemente houve uma mudança de cenário, com municípios começando a realmente prestar atenção e investir em soluções de resiliência a longo prazo”, diz Kay. “O que se percebeu é a falta de ferramentas e abordagens quantitativas para atender à demanda por planejamento de resiliência e projeto de redes. O mais fascinante é que esses organismos vêm resolvendo esse desafio há muito tempo.”