A moto de Akira revela o mercado paralelo dos “Legos proibidos”

Há kits que a Lego nunca vai vender. Felizmente, existe um mercado paralelo para atender a essa demanda.

Modelo vermelho da moto de Kaneda, do filme Akira, construído com cerca de 2,2 mil blocos.
A moto de Kaneda criada por Clement para a Eastern Brick tem cerca de 2,2 mil peças e mede 50 centímetros. Crédito: Eastern Brick/ Divulgação

Jesus Diaz 10 minutos de leitura
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O filme Akira, de Katsuhiro Otomo, lançado em 1988, não apenas redefiniu os animes. Também foi uma das principais forças de design responsáveis por moldar toda a linguagem visual do movimento cyberpunk.

E nenhum elemento do filme é mais reconhecível do que a moto de Kaneda. Quase quatro décadas depois de Akira explodir na cultura pop ocidental — e justamente quando volta aos cinemas brasileiros em 27 de agosto, em versão remasterizada em 4K —, esse ícone finalmente foi transformado em um modelo de blocos à altura do filme.

É enorme. É belíssimo. E é exatamente o tipo de coisa que a Lego jamais venderia.

“A moto de Kaneda é violenta demais para a Lego, e eles nunca vão produzi-la por causa de sua política family-friendly”, afirma a Eastern Brick, empresa que está transformando a moto em um kit totalmente funcional e montável. “Os temas cyberpunk são realistas demais ao mostrar armas e violência. Somos apenas fãs querendo criar algo para outros fãs adultos.”

Kaneda observa sua motocicleta vermelha em uma ilustração promocional do filme Akira.
A moto vermelha de Kaneda é um dos elementos mais reconhecíveis de Akira e da estética cyberpunk. Crédito: ©1988 MASH・ROOM/AKIRA COMMITTEE. Divulgação/Sato Company

Eles têm razão. Todo o universo ultraviolento de Akira representa uma transgressão aos valores centrais da Lego, que desenvolve produtos voltados para públicos de todas as idades.

Embora restrinja armas realistas, uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo licencia os blasters de Star Wars, os super-heróis da Marvel e as armas de Indiana Jones. Conflitos fictícios são aceitáveis porque a violência fantasiosa vende.

No entanto, uma diretriz publicada pela própria empresa em 2010 deixa claro o limite quando o assunto são conflitos realistas: “O objetivo básico é evitar armas realistas e equipamentos militares que as crianças possam reconhecer em zonas de conflito ao redor do mundo, além de não mostrar situações violentas ou assustadoras na comunicação sobre produtos Lego.”

Essa fronteira ficou evidente em 2020, quando a empresa cancelou sua versão do Bell Boeing V-22 Osprey. Embora o modelo fosse apresentado como uma aeronave de busca e salvamento, o veículo real era usado exclusivamente por forças militares. A decisão veio após críticas de um grupo pacifista alemão e esbarrou na política da Lego de não produzir veículos militares reais.

Portanto, não surpreende que a violência crua e reconhecidamente humana de Neo-Tóquio — com gangues de motociclistas, drogas e golpes militares — fique definitivamente do outro lado dessa linha.

Isso significa que qualquer coisa relacionada a Akira, assim como história militar realista, terror e inúmeros outros temas adultos, nunca teve chance de chegar ao Lego Ideas, programa que transforma projetos criados por fãs em produtos oficiais.

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E, como sempre acontece quando algo é proibido, outras pessoas surgem para vender a mercadoria, tal qual Al Capone fazia com o uísque no começo do século 20. O apetite por kits de Lego com temas adultos é tão grande que deu origem a toda uma indústria paralela.

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A INDÚSTRIA QUE A LEGO CRIOU AO DIZER NÃO

É assim que esse mercado paralelo funciona. Na cultura dos fãs de blocos, um modelo original criado por um fã é chamado de MOC, sigla para my own creation — em português, “minha própria criação” —, em oposição a um produto oficial da Lego.

O designer de um MOC faz o trabalho mais difícil: projeta o modelo, testa sua estrutura e aprimora a lista de peças. Depois, uma empresa reúne os blocos e as instruções e vende o resultado como um kit para o consumidor.

Algumas dessas empresas comercializam apenas instruções digitais. Outras adquirem peças genuínas da Lego e as embalam em kits completos. Há ainda aquelas que fabricam suas próprias peças compatíveis, como capacetes militares ou mísseis para caças, e enviam conjuntos inteiros sem a supervisão da marca dinamarquesa.

Essas empresas podem reunir peças e instruções para vender suas próprias criações. No entanto, não podem apresentar os produtos como kits oficiais da Lego nem usar indevidamente a marca em suas embalagens.

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A moto de Kaneda é o exemplo perfeito de um subproduto dessa política.

“O projeto foi criado por um designer chamado Clement. Ele trabalha neste MOC desde o início do ano”, conta por e-mail um porta-voz da Eastern Brick.

O kit reproduz o design original da baixa e alongada máquina vermelha de Kaneda, tão icônica para o cyberpunk quanto a Millennium Falcon é para a ópera espacial. Além disso, transforma a motocicleta em uma peça de exposição para adultos que cresceram com a Neo-Tóquio de Otomo.

Seu formato característico — uma motocicleta chopper com carenagem aerodinâmica e uma cobertura curva de vidro — está todo ali. Até o motor traseiro funciona, com uma corrente articulada que movimenta a roda.

Segundo a empresa, o modelo é composto por cerca de 2,2 mil peças e mede 50 centímetros de comprimento.

“Esta é a maior moto futurista que qualquer fã de ficção científica pode montar e exibir”, acrescenta a Eastern Brick.

“Temos um novo Creator Set a caminho, que estamos chamando de ‘Neo Bikes’”, informa a empresa. “A ideia é permitir a criação de motos em escala 1:5 de qualquer estilo, mas vamos começar com cinco modelos específicos que Clement vem desenvolvendo intensamente. Revelaremos os designs em breve.”

Ao contrário de outros vendedores de MOCs, a Eastern Brick usa blocos alternativos, ou “alt”: peças compatíveis com Lego fabricadas na China, em vez de componentes genuínos da marca. A companhia se apresenta como uma espécie de infraestrutura para toda uma classe de criadores.

“A Eastern Brick desempenha o papel de tornar a construção com blocos mais acessível. Ajudamos designers a transformar seus MOCs em kits que os fãs podem montar usando blocos alternativos”, afirma.

“Há muitas marcas e designers criando aquilo que a Lego não produz, por vários motivos, como temas que não estão alinhados às diretrizes da empresa. É o caso da Cobi, com seus kits militares.”

QUEM VENDE OS KITS QUE A LEGO NÃO PRODUZ

A indústria de kits MOC abrange todo um espectro, desde empresas premium que embalam peças genuínas da Lego até fabricantes completos de blocos alternativos.

No segmento mais sofisticado está a BuildaMOC, que representa a categoria de luxo. Ela adquire blocos autênticos da Lego, embala as peças e instruções de MOCs originais e paga royalties aos designers participantes.

“Usamos componentes genuínos em todos os kits”, afirma a empresa em seu site. Assim, transforma modelos criados por fãs em kits prontos para comprar e montar, com o plástico verdadeiro dentro da caixa.

A MOCBoxing, a StudBee e a MadeOfBrick atuam no mesmo mercado de peças genuínas.

Modelo cinza de um caça militar construído com blocos de montar.
Empresas como a BuildaMOC transformam projetos independentes em kits completos, reunindo peças, instruções e modelos criados por fãs. Crédito: BuildaMOC/ Divulgação

Há também a Brickmania, empresa que construiu um negócio exclusivamente em torno dos temas militares que a Lego se recusa a abordar, usando blocos da própria marca.

“A Brickmania é a principal produtora mundial de kits personalizados de Lego com temática histórico-militar”, afirma a empresa.

Os temas abrangem a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra do Vietnã, a Guerra Fria e equipamentos militares modernos.

Seus kits, segundo a companhia, “são compostos por peças Lego novas e produtos de qualidade de nossa própria criação, além de itens selecionados de fornecedores terceirizados premium”. Isso inclui armas e acessórios desenvolvidos e fabricados pela própria empresa.

Também existem fabricantes de blocos alternativos que atendem a esses nichos. A Cobi, empresa polonesa que produz seus blocos na Polônia, é uma das maiores marcas do planeta dedicadas a modelos militares no estilo Lego. Sua linha inclui tanques, aeronaves, navios e peças de artilharia da Segunda Guerra Mundial, vendidos como réplicas históricas.

A alemã BlueBrixx também comercializa kits militares com blocos compatíveis, incluindo um bunker da Segunda Guerra Mundial com artilharia antiaérea, além de veículos modernos.

A chinesa CaDA e a MedievalBrick ocupam nichos que vão de modelos de engenharia à fantasia e à arquitetura histórica.

Réplica de um tanque Panzer V Panther feita com blocos compatíveis, acompanhada por duas minifiguras.
A alemã BlueBrixx comercializa modelos militares produzidos com blocos compatíveis. Crédito: BlueBrixx/ Divulgação

A expiração das patentes do principal mecanismo de encaixe e dos tubos internos dos blocos Lego, no fim da década de 1970, abriu caminho para o mercado de peças compatíveis. Isso, porém, não significa que essas fabricantes estejam livres de qualquer disputa judicial.

A Lego ainda pode agir contra o uso indevido de suas marcas, direitos autorais, designs e outras propriedades intelectuais, além de práticas capazes de confundir os consumidores.

Quando perguntado sobre a concorrência desse universo de blocos alternativos, um porta-voz da Lego respondeu que, para a empresa, o mais importante é garantir que os consumidores não sejam enganados.

“Quando compram um produto Lego, eles recebem um produto de qualidade impecável, que atende aos mais rigorosos padrões de segurança. É exatamente isso que podem e devem esperar”, afirmou por e-mail.

“Acolhemos a concorrência justa a qualquer momento. Mas, se alguém fizer uso indevido de nossa marca, de nossa propriedade intelectual ou da confiança dos consumidores, tomaremos todas as medidas necessárias para proteger os consumidores e nossos direitos intelectuais.”

Somando tudo, o catálogo do que é “proibido” é enorme: equipamentos militares realistas, cultura pop adulta, animes, arquitetura religiosa, terror sombrio e temas de nicho para colecionadores.

Em resumo, tudo aquilo que uma marca voltada para todas as idades não consegue absorver acaba sendo fabricado e vendido por empresas que não pertencem a ela.

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A LEGO TAMBÉM FICOU COM UMA FATIA DO BOLO

Há ainda a BrickLink, o maior marketplace desse universo. Durante anos, ela foi o grande mercado não oficial dos blocos: um bazar criado por fãs para peças, kits e minifiguras, no qual colecionadores adultos davam as cartas.

Desde 31 de janeiro de 2026, porém, o marketplace da BrickLink não permite que contas localizadas no Brasil realizem compras ou vendas. O restante da plataforma, incluindo o catálogo e as ferramentas de criação, continua disponível.

Nave espacial branca e laranja criada com blocos por um designer independente.
A BrickLink funciona como um grande mercado de peças, kits e projetos desenvolvidos por fãs. Crédito: BrickLink/ Divulgação

Então, em novembro de 2019, a Lego percebeu que precisava fazer algo em relação àquele negócio surpreendentemente grande e — ora, surpresa — comprou a empresa.

“A Lego Group anunciou hoje que adquiriu a BrickLink Ltd. para fortalecer sua conexão com sua importante base de fãs adultos”, declarou a companhia na época.

Na ocasião, a então diretora de marketing Julia Goldin destacou que “a BrickLink nos oferece uma oportunidade empolgante de nos conectarmos com nossos fãs adultos por meio de novos canais e experiências interessantes”.

Claro. Mas o que os fãs adultos também ganharam foi contenção.

A BrickLink continua sendo um marketplace, mas agora está dentro da Lego Group e segue as regras da empresa. Seu Designer Program mostra que a Lego reconhece o apetite por modelos criados por fãs e voltados para adultos.

O programa funciona como um caminho com curadoria, no qual projetos selecionados são financiados coletivamente e produzidos como kits oficiais de edição limitada, “criados por fãs da Lego para construtores experientes”.

Mas tudo acontece nos termos da empresa: seu processo de seleção, seus limites de produção e suas diretrizes de marca. Qualquer tema que entre em conflito com essas regras simplesmente desaparece do fluxo oficial.

Felizmente, existem empresas como a Eastern Brick e as demais. Assim, por mais que o Coronel Shikishima da Lego queira controlar Neo-Tóquio, Akira sempre ressurge das cinzas para nos cegar com seu poder cósmico de criar blocos.

Em breve, se tudo correr bem, poderemos comprar a moto icônica projetada por Otomo e perfeitamente recriada por Clement.

Só espero que ela venha com luzes de LED, para que eu possa correr com ela à noite pelo chão de casa, gritando “TETSUUOOOO!!!”, enquanto meu filho responde aos berros: “KANEDAAAA!!!”.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais