Este mouse fica dentro da boca e é controlado pela língua

MouthPad transparente com trackpad dourado e circuitos eletrônicos adaptado ao formato da arcada dentária.
Instalado junto ao céu da boca, o MouthPad transforma movimentos da língua e da cabeça em comandos para computadores e celulares.

Jesus Diaz 13 minutos de leitura
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O MouthPad se parece com um aparelho ortodôntico removível. Mas o dispositivo, instalado junto ao céu da boca, permite controlar computadores, celulares e tablets com movimentos da língua e da cabeça.

A tecnologia foi criada por Tomás Vega depois de uma passagem pela Neuralink, empresa fundada por Elon Musk. Ele trabalhava no desenvolvimento de interfaces entre humanos e máquinas capazes de ampliar a autonomia de pessoas com deficiência, mas deixou a companhia porque não queria esperar pelos avanços dos implantes cerebrais.

Vega, que gagueja desde criança, acredita que interfaces cérebro-computador implantáveis e inteligência artificial transformarão a vida de pessoas com deficiência no futuro. Mas queria criar algo capaz de ajudar agora — e sem cirurgia.

“Eu não podia deixar meus amigos que vivem com tetraplegia esperando tanto tempo”, afirma. Ele voltou à pós-graduação no MIT Media Lab com o objetivo de desenvolver uma interface “tão expressiva quanto um implante, mas sem todas aquelas restrições”.

Foi assim que criou o MouthPad na Augmental, ao lado do cofundador Corten Singer.

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UM MOUSE QUE DESAPARECE DENTRO DA BOCA

O MouthPad se encaixa junto ao palato e aos molares posteriores. No centro, há um trackpad capacitivo dourado. Pressionar a língua contra ele produz um clique com o botão esquerdo. Fazer um movimento de sucção aciona o botão direito.

No modo de controle pela língua, a posição do toque funciona como um joystick virtual. Também é possível movimentar o cursor com a cabeça, por meio dos giroscópios internos, e usar a língua para acionar botões virtuais de rolagem vertical e horizontal.

O dispositivo não tenta reproduzir de forma mais barata ou discreta a ambição da Neuralink. Em vez disso, questiona a premissa de que uma interface humano-computador capaz de oferecer autonomia precise começar por uma cirurgia — ou que uma tecnologia assistiva tenha de ficar visível no rosto do usuário.

O MouthPad procura aproveitar as capacidades que o corpo ainda preserva. Sua proposta mais provocadora é que a melhor tecnologia assistiva talvez seja aquela que oferece controle sem obrigar seu usuário a parecer que está usando uma tecnologia assistiva.

Basicamente, é um mouse que desaparece dentro da boca.

“Nós, da Augmental, colocamos as pessoas em primeiro lugar”, diz Vega. “A tecnologia deve desaparecer para que você enxergue o ser humano envolvido.”

O LONGO CAMINHO ATÉ A LÍNGUA

O período de Vega na Neuralink ajudou a definir sua abordagem, mas não foi onde ela nasceu. As raízes da ideia remontam à época em que tinha cinco anos e começou a gaguejar.

Segundo ele, o teclado e o mouse o ajudaram a contornar limitações que enfrentava na fala. “Fiquei obcecado por dispositivos de entrada”, conta.

Vega começou a programar aos 11 anos e, durante o ensino médio, trabalhou com pessoas com esclerose múltipla. Mais tarde, estudou cérebro e computação na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Ele experimentou eletrodos no couro cabeludo, eletrooculografia, eletromiografia e interfaces de voz. Chegou até a raspar a cabeça todos os dias para usar um sistema baseado em eletrodos. Essas tecnologias podiam render demonstrações impressionantes, diz, mas não eram úteis o bastante no cotidiano.

“Quanto mais eu entendia como o cérebro e o corpo funcionavam, mais conseguia investigá-los e encontrar maneiras de explorá-los”, recorda. “E melhores eram as interfaces que eu conseguia projetar para ampliar as capacidades humanas.”

Depois de deixar a Neuralink, Vega partiu de uma questão prática: que parte do corpo ainda oferece amplitude, precisão e resistência extraordinárias para pessoas que não conseguem usar as mãos?

“Pensando a partir de princípios fundamentais, qual é a região mais expressiva do corpo?”, lembra. “É a língua.”

O primeiro protótipo foi um pirulito cheio de sensores chamado “Chupetín” — diminutivo de chupeta, em espanhol. O objetivo era testar a experiência de usar uma interface entre a língua e o computador.

“Funcionou muito bem”, afirma Vega. “Era intuitivo. Eu não precisava pensar.”

Daí nasceu a Augmental, que, segundo ele, começou em um porão em Somerville, Massachusetts.

UM MOUSE CONSTRUÍDO COMO APARELHO ORTODÔNTICO

O MouthPad é feito sob medida a partir de um escaneamento intraoral da boca do usuário. O dispositivo precisa ficar rente ao palato, onde é tocado pela língua, e, ao mesmo tempo, permitir que a pessoa fale.

Parte interna do MouthPad mostra o trackpad dourado e o circuito eletrônico integrado à estrutura transparente.
O MouthPad reúne um trackpad capacitivo e circuitos flexíveis em uma estrutura feita sob medida a partir de um escaneamento da boca.

A Augmental começou usando moldes, mas migrou para o escaneamento óptico intraoral depois de identificar erros nas impressões físicas.

Construir o hardware exigiu preparar o dispositivo para um ambiente particularmente hostil. O MouthPad utiliza uma técnica de microfabricação em formato serpentino aplicada a componentes eletrônicos flexíveis.

Com isso, um mesmo projeto eletrônico pode se alongar ou se comprimir para acomodar diferentes formatos e tamanhos de boca. Uma ponte atravessa o plano no qual os dentes se encontram, criando um canal protegido para evitar que uma mordida destrua os circuitos.

A primeira versão usava filmes sensíveis à pressão. Segundo Vega, eles se deformavam e afetavam o sinal de referência. Agora, a empresa utiliza sensores capacitivos — a mesma técnica fundamental empregada em celulares e trackpads de notebooks — para detectar a posição da língua.

Uma pequena câmara de ar e um barômetro registram variações de pressão, permitindo que o MouthPad diferencie um toque da língua de um movimento de sucção.

Essa é a interface física. A parte mais difícil é fazer com que ela se comporte como uma interface, e não como um experimento científico.

O algoritmo do MouthPad analisa os dados dos sensores para deduzir a intenção do usuário e identificar a posição da língua apesar da saliva. Vega compara o problema a tentar usar uma tela sensível ao toque em um dia chuvoso.

O dispositivo se conecta como um mouse convencional. Os usuários podem apontar, clicar com os botões esquerdo e direito e rolar a tela por meio de gestos da língua. Quem consegue controlar a interface com a cabeça pode movimentar o cursor dessa maneira e reservar a língua para outras funções.

ALÉM DE APONTAR E CLICAR

Mouses são ferramentas limitadas. É por isso que computadores modernos dependem de atalhos de teclado, comandos contextuais, pequenos alvos de clique e ações repetitivas que podem se tornar desgastantes para alguém obrigado a fazer tudo usando apenas um ponteiro.

A resposta da Augmental é um aplicativo complementar que acrescenta perfis e atalhos acionados por gestos à interface básica do mouse.

Sua principal forma de interação é um menu radial contextual, que pode ser aberto ao reconfigurar o gesto de sucção. Quando o menu aparece, o usuário seleciona botões virtuais de acordo com o ponto tocado pela língua.

Isso pode tornar operações cotidianas menos cansativas. O menu pode oferecer atalhos como copiar e colar sem obrigar alguém a mirar em uma pequena opção dentro de um menu aberto com o botão direito.

Vega afirma que a Augmental também já demonstrou recursos de ditado e comandos destinados a agentes de inteligência artificial.

A ideia não é transformar a língua em um teclado convencional. É permitir que o mesmo gesto tenha significados diferentes conforme o contexto.

Em um perfil para jogos de tiro em primeira pessoa, por exemplo, o movimento da cabeça controla a mira, enquanto os toques da língua geram comandos de movimento. Em um perfil para programas de desenho auxiliado por computador, o menu contextual pode acionar atalhos para deslocamento, órbita e zoom.

A Augmental define o sistema como um controle de computador com cinco graus de liberdade: dois provenientes do movimento do ponteiro pela cabeça e três dos gestos da língua.

Mais do que chegar a um número atraente para o marketing, a empresa tenta recuperar parte da amplitude expressiva que as mãos oferecem à computação por meio de controle contínuo, pressão, sequências e contexto.

O QUE DIZEM OS TESTES

Um relatório elaborado pela própria Augmental e ainda não submetido à revisão por pares afirma que a empresa trabalhou com aproximadamente 150 pessoas durante quase dois anos de acesso antecipado.

O conjunto de dados de apontar e clicar inclui 58 pessoas com limitações no uso das mãos que concluíram um jogo de seleção em grade com duração de um minuto. O grupo reunia pessoas com lesões na medula espinhal, tetraplegia, esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla, distrofia muscular, lesões por esforço repetitivo e outras condições.

No teste, 44 pessoas controlaram o cursor movimentando a cabeça e usando o MouthPad com a língua. A empresa afirma que a pontuação típica foi de 3,43 bits por segundo — uma medida técnica da rapidez e da precisão com que alguém consegue selecionar alvos em uma tela.

Trinta e quatro pessoas fizeram o teste no primeiro dia de uso. A pontuação mediana foi de três bits por segundo, e cinco pessoas superaram cinco bits por segundo. Segundo a Augmental, os usuários geralmente aprenderam os fundamentos em menos de duas horas.

Mas os números têm limitações.

O teste pedia que as pessoas clicassem em alvos dispostos em uma grade na tela. Não avaliava a velocidade de digitação, a fadiga, a capacidade de usar o aparelho de forma independente nem sua utilidade ao longo de um dia normal de trabalho.

A Augmental afirma que seu usuário mais rápido superou os usuários mais rápidos dos outros sistemas incluídos na comparação. Também diz que 45,45% dos usuários do modo de controle pela cabeça obtiveram pontuação superior ao melhor resultado do estudo sobre interfaces cérebro-computador citado pela empresa.

A companhia não incluiu os resultados públicos da Neuralink nessa comparação porque eles não foram revisados por pesquisadores independentes.

Isso não significa que um aparelho bucal esteja derrotando uma interface cérebro-computador implantada. É uma evidência de que um sistema não invasivo pode oferecer controle significativo a pessoas que preservam os movimentos da língua e, em alguns casos, da cabeça.

A própria análise da empresa reconhece que o rastreamento da cabeça por câmera e o rastreamento ocular podem apresentar desempenho superior ao MouthPad em algumas comparações.

Mas nem todos os usuários têm condições físicas de controlar um dispositivo com a cabeça. Esse método também pode ser desconfortável para quem está deitado de costas ou gerar sinais instáveis dentro de um veículo em movimento.

Além disso, o MouthPad é praticamente invisível.

A DEFESA DA INVISIBILIDADE

Homem segura um pequeno MouthPad transparente diante da câmera.
O MouthPad foi projetado para permanecer praticamente invisível durante o uso e reduzir o estigma associado a algumas tecnologias assistivas.

Para Vega, instalar o hardware dentro da boca não é apenas uma questão de elegância. É também uma questão social.

“Muitos dos nossos usuários utilizam interfaces que ficam no rosto, como joysticks e outros dispositivos”, afirma. “Isso gera muito estigma.”

O MouthPad é uma interface assistiva que não se coloca entre seu usuário e as outras pessoas no ambiente. Isso não significa que tecnologias assistivas visíveis sejam inferiores nem que todo usuário queira esconder sua tecnologia.

Mas a invisibilidade pode ser uma forma importante de controle — mais uma decisão que pertence à pessoa que utiliza o dispositivo.

A boca também é útil porque preserva a fala. Segundo Vega, essa era uma exigência do projeto desde o início. A fala continua sendo uma das maneiras mais rápidas de produzir texto para quem consegue utilizá-la, mas controles de voz convencionais podem ser barulhentos, públicos e pouco confiáveis em lugares com muito ruído.

Foi por isso que a Augmental criou o Vox, seu próximo produto. Vega o descreve como um “microfone semelhante a um estetoscópio”, otimizado para captar a voz que se propaga para dentro do corpo.

“Ele escuta você, não o mundo”, afirma.

O Vox surgiu como um recurso para usuários do MouthPad que podem ter capacidade pulmonar reduzida, comprometimento do diafragma, traqueostomia, alterações na fonação ou falta de privacidade ao utilizar interfaces de voz convencionais.

A empresa o descreve como um microfone desenvolvido para captar, mesmo em ambientes ruidosos, a fala em baixo volume conduzida pelo corpo.

Juntos, os dois produtos procuram fechar o ciclo: o MouthPad pode iniciar ou interromper o ditado, enquanto o Vox fornece o sinal de voz. A Augmental define a dupla como uma possível substituta para mouse e teclado, embora ainda não tenha publicado um estudo formal de desempenho sobre o fluxo de trabalho combinado.

Para Vega, esse caso de uso também é pessoal.

“Quando sussurro, gaguejo menos”, diz.

Ele também afirma que o Vox lhe permitiu trabalhar enquanto caminhava, duplicando sua média diária de passos, de 8 mil para 16 mil.

“Recuperei uma hora sob o sol”, afirma. “E acho isso lindo.”

QUANTO CUSTA O MOUTHPAD

Vega diz que a Augmental já enviou 180 dispositivos e tem mais de 120 usuários. Como a bateria dura cerca de sete horas, algumas pessoas compraram uma segunda ou terceira unidade para cobrir dias mais longos ou manter um aparelho de reserva.

O MouthPad custa US$ 1.400 e está disponível nos Estados Unidos. O escaneamento intraoral necessário para produzir o aparelho não está incluído e costuma custar entre US$ 50 e US$ 150.

Mão segura o pequeno MouthPad transparente entre os dedos.
Cada MouthPad é produzido sob medida a partir de um escaneamento intraoral e custa US$ 1.400 nos Estados Unidos.

A empresa trabalha com centros de reabilitação e terapeutas ocupacionais, mas o produto ainda não é coberto por seguradoras.

Vega diz esperar que, após uma eventual autorização da FDA, agência reguladora de medicamentos e produtos de saúde dos Estados Unidos, parte do valor passe a ser reembolsada.

O Vox está em fase beta, custa US$ 200 e tem os primeiros envios previstos para o fim de 2026.

A intenção é expandir a presença da empresa para a Europa, o Japão e outros mercados, ao mesmo tempo que o preço do MouthPad se aproxima da faixa dos eletrônicos de consumo convencionais.

No futuro, Vega acredita que os dois dispositivos poderão chegar ao mercado de massa. Mas não quer apressar esse movimento.

Ao citar os fracassos da Humane e da Rabbit como alertas contra a ampliação da produção de hardware antes que ele esteja pronto, ele diz: “Vamos avançar rápido. Vamos iterar. Vamos lançar novas versões a cada trimestre. Vamos aprender. E, quando o mercado clamar por isso, ativamos essa expansão.”

Essa talvez seja a diferença mais reveladora entre o MouthPad e a fantasia de ficção científica associada às interfaces cerebrais.

A fantasia começa com um futuro sobre-humano e pede às pessoas que esperem por ele. O projeto de Vega começa com quem precisa de uma interface hoje.

Sua proposta não começa com a perfuração de um crânio. Começa com uma capacidade que muitas pessoas ainda preservam: uma língua que se move contra o céu da boca ou um microfone oculto que capta um sussurro através da carne e dos ossos.

São dispositivos pequenos o bastante para desaparecer e úteis o suficiente para fazer grandes problemas desaparecerem.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais