Na China, quanto espaço sobra para a espontaneidade?

Entre galerias monumentais e antigas fábricas, distritos artísticos revelam tensões entre liberdade de criação, turismo e valorização imobiliária

fomento às artes na China
Créditos: Siyuan/ Xuelin Huang/ Unsplash

Carlos Henrique Vilela 3 minutos de leitura
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Estive recentemente na China por pouco mais de um mês, pesquisando iniciativas de tecnologia, varejo e cultura. A escala das cidades, a infraestrutura e a sensação de segurança impressionavam.

Ao buscar referências para a viagem, descobri os distritos artísticos: concentrações de galerias, ateliês e negócios culturais que chegam a ocupar um bairro inteiro. Visitei o 798 Art District, em Pequim, e o M50 Creative Park, em Xangai.

Chegar ao 798 foi encontrar algo próximo de uma utopia. Ruas limpas e organizadas, esculturas gigantes entre antigas fábricas, galpões de pé-direito altíssimo convertidos em salas de exposição.

Jovens de roupas e cabelos coloridos circulavam por um cenário quase cinematográfico. A arte parecia ter encontrado ali as condições para prosperar.

Vi obras de enorme qualidade estética, mas senti falta de provocação em tudo o que visitei.

Mesmo desconhecendo muitas referências locais, minha impressão era de uma produção pouco disposta a confrontar. Quanto disso vinha do regime político? Quanto das escolhas de quem administra e financia aqueles espaços?

fomento às artes na China
Crédito: Carlos Henrique Vilela

Quis entender seu funcionamento. Por 10 anos, trabalhei com curadoria e criação de experiências de marcas no HackTown, que ajudei a fundar. Conectar diferentes circuitos culturais fazia parte dessa atuação e continua no centro do que faço.

Hoje, à frente do Creative Scenes Network, mapeio ecossistemas criativos pelo mundo e desenvolvo estratégias e projetos que aproximam marcas dessas comunidades.

O 798 e o M50 cresceram com a chegada de artistas a instalações industriais desativadas: de equipamentos eletrônicos em Pequim e de tecidos em Xangai. Ateliês e galerias deram projeção aos endereços, que ganharam reconhecimento institucional e gestão profissional.

Atualmente, a operadora do 798 integra um grupo estatal e atua com administração de espaços, propriedade intelectual e serviços digitais.

fomento às artes e aos artistas na China
Crédito: Carlos Henrique Vilela

Outros distritos nasceram planejados. Em Shenzhen, o grupo OCT começou a transformar fábricas no polo criativo OCT Loft em 2004. São exemplos de um universo de centenas de parques culturais e criativos espalhados pelo país.

À medida que entendia o modelo, a utopia perdia força. Em um estudo de 2021, Basile Michel descreve a crescente orientação do M50 ao turismo e ao consumo cultural, questionando o poder de decisão dos artistas.

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Crédito: Carlos Henrique Vilela

No 798, uma pesquisa de 2015 registra que parte dos criadores precisou buscar aluguéis mais baratos conforme chegavam galerias de maior projeção e estabelecimentos comerciais. A valorização dificultava a permanência de quem tornara o endereço atraente.

Michel também examina as restrições à expressão dissidente: além da pressão dos custos, há limites políticos sobre o que pode ser apresentado.

Saí das visitas pensando que aquele modelo poderia ser replicado pelo mundo: reunia espaço, infraestrutura e público, recursos que faltam a tantos projetos culturais. Ao conhecer melhor sua operação, comecei a questionar o preço desse acesso.

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Crédito: Carlos Henrique Vilela

Aproximar arte e mercado faz parte do meu trabalho, e acredito que essa relação pode sustentar a criação. Mas, quando a expectativa de retorno molda o que será produzido, quanto espaço resta para experimentar?

Passei a olhar com mais atenção para outras coisas que vi na China. A capacidade de realizar impressiona, mas nem sempre deixa à vista as condições de quem participa desses resultados.

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Nos distritos artísticos, encontrei uma estrutura que gostaria de ver em muitos lugares e limites que não havia imaginado. Até que ponto esse modelo consegue oferecer segurança para criar sem exigir que a própria criação se torne segura?


SOBRE O AUTOR

Carlos Henrique Vilela é estrategista criativo e executivo, com mais de duas décadas de trajetória entre tecnologia, cultura, comporta... saiba mais