Nike quer outro Air Force 1 para voltar ao jogo
Com ações quase 80% abaixo do pico, empresa reúne inovação, design e produto e volta a trabalhar perto dos atletas para desenvolver seu próximo ícone

A Nike está em busca de seu próximo Air Force 1 — aquele produto capaz de combinar pesquisa científica, design popular e um momento cultural. Em outras palavras: uma inovação que ajude a recolocar a companhia no jogo.
“Nosso portfólio de inovações em desenvolvimento não estava tão forte quanto gostaríamos alguns anos atrás”, afirmou Phil McCartney, chefe de inovação, design e produto da Nike, durante a 12ª edição do Innovation Festival da Fast Company, em Nova York.
Criado em 1982 para as quadras de basquete, o Air Force 1 incorporou a tecnologia de amortecimento Nike Air e ganhou as ruas na década seguinte. O modelo atravessou o esporte, a música e a moda até se transformar em um dos produtos mais reconhecidos da marca.
A Nike gostaria de repetir esse percurso em um momento delicado. Desde o pico alcançado em 2021, suas ações perderam quase 80% do valor. Em setembro, a companhia também perdeu seu lugar no S&P 100, índice que reúne algumas das maiores empresas dos Estados Unidos.
No ano fiscal de 2026, a receita total caiu 2%, em moeda constante, para US$ 46,4 bilhões. No último trimestre, o recuo foi de 1%. As vendas na Grande China diminuíram 17%, enquanto a categoria de sportswear registrou queda de dois dígitos, de acordo com o balanço da empresa e informações da Reuters.
Os resultados mostraram que a recuperação iniciada pelo CEO Elliott Hill ainda avança de forma desigual.
Durante o Innovation Festival, o editor-chefe da Fast Company, Brendan Vaughan, perguntou a McCartney se a retomada estava demorando mais do que deveria. O executivo respondeu apontando a aceleração de novas ideias e do desenvolvimento de produtos, indicadores que, segundo ele, aparecem antes dos resultados financeiros.
“Os melhores dias da Nike estão por vir”, afirmou.
COMO NASCE UM ÍCONE
O Air Force 1 entrou na conversa quando Vaughan perguntou como uma estratégia voltada ao desempenho esportivo poderia produzir objetos de desejo.

McCartney lembrou que o modelo nasceu para resolver uma necessidade do basquete e só depois conquistou as ruas. A mesma lógica, disse, está presente no Nike Free, desenvolvido a partir da experiência de correr descalço, e na própria tecnologia Nike Air.
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O trabalho com o maratonista Eliud Kipchoge é um exemplo mais recente. A tentativa de romper a barreira das duas horas na maratona levou ao desenvolvimento de soluções que depois foram incorporadas a outros produtos da empresa.
“Em vez de tentar correr atrás do que é cool, acho que nossa melhor aposta é permanecer autênticos”, afirmou McCartney.
A estratégia consiste em começar pelas necessidades dos atletas e permitir que o produto encontre outros públicos posteriormente.
O QUE MUDA NO DESENVOLVIMENTO
Para acelerar esse processo, a Nike reuniu inovação, design e produto em uma única estrutura, formada por cerca de quatro mil profissionais das marcas Nike, Jordan e Converse.
A orientação combina uma cobrança feita pelo ex-jogador Kobe Bryant — que queria encontrar as criações mais ousadas da empresa sempre que visitava a sede — com a obsessão do cofundador Bill Bowerman por melhorar o desempenho dos atletas.
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A equipe adotou como lema a frase “Create epic shit, make athletes better” — algo como “criem coisas épicas e melhorem o desempenho dos atletas”.
O processo começa com problemas apresentados pelos atletas, passa pelos laboratórios e avança para as etapas de criação, prototipagem e testes.
“Os atletas nos pressionam a ser melhores”, afirmou McCartney. Segundo ele, os parceiros da marca pedem mudanças, descartam propostas e cobram mais velocidade das equipes.
Sabrina Ionescu, jogadora do New York Liberty, contou que precisou aprender o que a tecnologia poderia oferecer enquanto participava do desenvolvimento de seu primeiro tênis, o Sabrina 1.
Agora, ela também escuta pessoas que usam o produto longe das quadras profissionais — da enfermeira que encontra pelas ruas de Nova York à criança que pede mais modelos azuis. Esse retorno ajuda a mostrar como um produto criado para atletas pode conquistar uma comunidade mais ampla.
OS PRÓXIMOS TESTES
Entre as frentes em desenvolvimento, McCartney citou as pesquisas em neurociência associadas à linha Nike Mind. A empresa estuda como trabalhar com o sistema nervoso por meio de produtos que podem incluir calçados, roupas e outras categorias.
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Outro foco são os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028. O executivo contou que havia revisado protótipos na semana anterior ao evento e que cinco ou seis ainda não estavam no nível esperado.
McCartney também lembrou testes de tênis de corrida que deram errado antes de produzir uma solução melhor.
“Foram fracassos espetaculares que levaram a um grande avanço”, afirmou.
A meta agora é reduzir o intervalo entre testar uma ideia, descobrir o que não funciona e tentar novamente. Depois de anos nos quais sua capacidade de inovação perdeu força, a Nike tenta reconstruir justamente o processo que criou seus produtos mais importantes.
“Não vamos sair dessa só na conversa”, afirmou McCartney. “Temos de fazer o trabalho.”
