Ninguém decreta a unidade
Um filme para ver antes do segundo turno

O filme "Anniversary", que no Brasil se chama "O Aniversário", mostra uma família norte-americana reunida à mesa para comemorar 25 anos de casamento, com os quatro filhos presentes, quando o único filho homem chega com a noiva, ex-aluna da mãe na Universidade Georgetown, e entrega a ela de presente um livro chamado "The Change" (A Mudança).
O livro nasce de um trabalho universitário em que a noiva defendia um partido único para a unidade nacional e sua ideologia é vaga o bastante para servir a qualquer lado. Em poucos anos o livro vira best-seller e o movimento se torna o pensamento dominante.
Na leitura da mãe, que é professora e tinha contestado aquele trabalho publicamente, o movimento atropela a Constituição, de modo que criticar o governo em público começa a ter um preço e o direito de protestar encolhe.
O diretor Jan Komasa volta à mesma data durante cinco anos, e o que acompanho nesse tempo é a violência psicológica de um país entrando numa casa e desmontando uma família por dentro.
O que mais me impactou no filme são as perdas pequenas e seguidas: o assunto que deixa de ser tocado à mesa e o olhar que cada um troca antes de responder, até o ponto em que todos ouvem um "meça suas palavras" que ninguém chegou a pronunciar.
A cada aniversário há menos gente falando as verdades de verdade; o receio de dizer alguma coisa errada vai ocupando o lugar da conversa.
Na saída da primeira festa, a noiva diz à mãe do noivo que já não tem mais medo dela. Essa fala resume o filme para mim, porque o medo passa de uma pessoa para a outra e todos na casa passam a se comportar de forma contida, cautelosa.
Algumas horas de insônia depois do filme mostraram uma inquietação que já estava ali antes mesmo da cena do reencontro da professora e da aluna.
Assista a esse filme antes do segundo turno. Ele está no Prime Video e eu o recomendo com toda a força que um ensaio permite, porque uma sessão diante daquela mesa e daquelas pessoas mostra o processo por dentro. Quem já mediu as próprias palavras em um jantar de família reconhece cada cena.
Aquela mesa existe no Brasil. Desde 2018 ela se repete em muitas casas. Agora, a poucos dias do segundo turno (em 25 de outubro), volta a ser posta com assuntos combinados de antemão, com o grupo de família no WhatsApp que ficou mudo ou barulhento demais e no almoço de domingo em que ninguém comenta o noticiário ou os comentários já engatam discussões.
No primeiro turno (em 4 de outubro), Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos e Lula 45,16%, a menor diferença desde a redemocratização. Essa divisão passa por dentro das famílias.
Na Alemanha, a AfD – sigla de Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita – venceu duas eleições estaduais. No Reino Unido, o Reform UK – legenda populista de Nigel Farage – ficou 15 meses na frente das pesquisas até o Partido Trabalhista, que governa, trocar de primeiro-ministro, em julho.
Por baixo de toda disputa política existe uma sensação anterior a ela: a de que há um eu aqui dentro e uma ameaça lá fora.
Na Itália, o Parlamento aprovou em 8 de outubro, por 227 votos a 164, a lei eleitoral de Giorgia Meloni – líder do Irmãos da Itália e de uma coalizão de direita –, que garante maioria de cadeiras a quem passar de 42% dos votos. A oposição a considera inconstitucional e desenhada para favorecer o governo de direita.
A Hungria tirou do poder através de votação, em abril, o nacionalista Viktor Orbán, que governava desde 2010. A participação popular foi a maior desde a transição democrática.
Na Espanha, onde o socialista Pedro Sánchez convocou eleição antecipada para 29 de novembro, as pesquisas de 9 de outubro dão ao PP, o conservador Partido Popular, e ao Vox, de ultradireita, somados, entre 198 e 200 cadeiras – acima das 176 necessárias para a maioria, o que tiraria Sánchez do cargo.
Nos Estados Unidos, a Junta Eleitoral de Washington pediu limites à Guarda Nacional depois de queixas de soldados postados junto a urnas.Em 8 de outubro, em Nova York, um agente do ICE (a polícia de imigração dos EUA) atirou em um motorista de 28 anos que estava com uma criança de cinco anos no carro.
A polícia da cidade conta que um dos federais disparou sete vezes. O prefeito Zohran Mamdani apontou que eles usavam máscaras e coletes de obra, o que impedia de saber quem eram. A CNN informou no mesmo dia que os agentes foram orientados a aumentar as prisões diárias com as eleições de meio de mandato próximas.

No Rio de Janeiro, esse papel tem outro nome. Mais de quatro milhões de pessoas vivem na região metropolitana sob o domínio de grupos armados, milícias entre eles, segundo o mapa do Fogo Cruzado (dados de 2024). Fico imaginando essa lógica em escala nacional, a do homem armado a quem ninguém pergunta nada.
Volto ao filme por um detalhe que interessa a quem trabalha com empresas e tecnologia: o livro do movimento "The Change", que defende o partido único, é patrocinado por uma corporação, a Cumberland. O roteiro não diz o que ela ganha com isso.
No Brasil, o segundo turno já chegou ao TSE por causa da Meta. A campanha de Lula acusou a empresa de restringir o alcance de suas publicações e de tolerar uma rede de perfis automatizados. A Meta falou em falha técnica e diz que seus algoritmos não favorecem ninguém. Os critérios que definem o alcance de cada publicação continuam dentro da empresa.
Leia mais: Pode não haver um segundo aviso
Por baixo de toda disputa política existe uma sensação anterior a ela: a de que há um eu aqui dentro e uma ameaça lá fora. O medo alimenta essa sensação a cada notícia que chega. O movimento Change, descrito no filme responde a ela oferecendo unidade. Quem não se integrar ao movimento paga com a exclusão, já que esse grupo passa a ser vigiado e punido.
O filme nunca dá ao movimento um rótulo de esquerda ou de direita, mas o que ele faz tem nome conhecido: o poder concentrado num partido só, que vigia e silencia quem discorda, é fascismo em ação. Essa unidade só dura enquanto houver alguém para apontar como inimigo.
A consciência já se reconhece inteira, porque nada fica fora dela. A atenção que lê esta página é a mesma que acompanha o noticiário e a que confirma o voto na urna no dia 25. Essa atenção não está localizada na cabeça de ninguém – nem na minha, nem na de quem pensa diferente de mim.
Não há dois e ainda assim há um voto a dar e uma família que continua se sentando à mesa. A decisão de cada um acontece dentro dessa mesma atenção.
O almoço de domingo continua marcado.