Novo Mapa mundi aprovado pela ONU corrige tamanho do Sul Global

Nova representação apoiada pela ONU reduz distorções de área e mostra países e continentes em proporções mais próximas de suas dimensões reais.

Créditos: Reprodução

Isabella Lura 4 minutos de leitura
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Nas escolas, aprendemos a ler o mapa do mundo de uma determinada maneira: a Europa centralizada, a Groenlândia aparentemente enorme e países próximos aos polos ocupando uma área muito maior do que aqueles localizados na região do Equador. Essa imagem, presente em livros, salas de aula e mapas digitais há décadas, agora está no centro de uma discussão sobre como representamos o planeta.

Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que incentiva a adoção de projeções cartográficas que representem de forma mais proporcional o tamanho dos territórios, como a Equal Earth, ou “Terra Igual”, em tradução livre. A proposta, liderada pelo Togo em nome do Grupo Africano e apoiada pela União Africana, busca reduzir distorções e tornar mais evidente a dimensão real de países e continentes.

A mudança não significa que o planeta tenha sido redesenhado ou que os países tenham aumentado ou diminuído de tamanho. O que muda é a maneira como a superfície terrestre é representada em um plano. Como a Terra é esférica, toda projeção cartográfica precisa lidar com algum nível de distorção. A diferença está nas características que cada modelo escolhe preservar.

POR QUE O MAPA QUE CONHECEMOS DISTORCE OS TAMANHOS?

Criada em 2018 por uma equipe de cartógrafos, a Equal Earth pertence ao grupo das projeções equivalentes, que procuram preservar a proporção entre as áreas dos territórios.

Mapa-múndi na projeção de Mercator mostra Groenlândia, Canadá e Rússia visualmente ampliados
A projeção de Mercator preserva direções úteis à navegação, mas amplia visualmente os territórios próximos aos polos.

Enquanto a projeção de Mercator foi desenvolvida para preservar características importantes para a navegação, a Equal Earth prioriza a comparação entre as áreas. Por isso, quando os dois modelos são colocados lado a lado, as diferenças ficam evidentes: a Groenlândia deixa de ocupar uma área desproporcional, enquanto África e América do Sul ganham uma representação mais próxima de suas dimensões reais.

O Brasil, que já é o quinto maior país do mundo em extensão territorial, também aparece visualmente mais compatível com seu tamanho em relação aos demais territórios.

O QUE MUDA COM A EQUAL EARTH?

Na Equal Earth, regiões próximas à Linha do Equador ganham maior destaque visual, enquanto áreas localizadas perto dos polos deixam de parecer tão extensas. É o caso da Groenlândia, Rússia, Canadá e Alasca.

A mudança é especialmente significativa para a África. Com aproximadamente 30 milhões de quilômetros quadrados, o continente é muito maior do que sua representação em mapas baseados na projeção de Mercator pode sugerir. A nova projeção busca diminuir essa discrepância e facilitar a comparação entre as dimensões dos territórios.

Dois mapas colocados lado a lado mostram diferenças na representação do tamanho e do formato da África
Diferentes projeções cartográficas alteram a percepção sobre o tamanho e o formato dos territórios.

O mesmo vale para a América do Sul. Embora nenhum país tenha alterado sua área real, a representação oferece uma percepção mais proporcional de seu tamanho no planeta.

MAIS DO QUE UMA QUESTÃO DE CARTOGRAFIA

A campanha, chamada Correct the Map (“Corrija o Mapa”), argumenta que a representação historicamente utilizada contribuiu para uma percepção desproporcional entre diferentes regiões do planeta. A resolução classifica a revisão das representações cartográficas como uma questão de “justiça cognitiva” e “reparação memorial”, partindo da ideia de que os mapas também influenciam o imaginário coletivo e a percepção sobre a importância de diferentes regiões.

Isso não significa, porém, que a projeção de Mercator tenha sido criada com o objetivo de diminuir a África. Seu propósito original era facilitar a navegação. A distorção resulta da própria dificuldade de transformar uma superfície curva em um plano.

A Equal Earth também não elimina todas as deformações possíveis. Sua principal diferença está na prioridade dada à preservação proporcional das áreas, em vez de características como a direção e os ângulos, fundamentais para determinadas aplicações da Mercator.

SERÁ O FIM DO MAPA DE MERCATOR?

A resolução aprovada pela ONU não tem caráter obrigatório e não determina que todos os mapas do mundo passem imediatamente a utilizar a Equal Earth. A proposta é incentivar governos, escolas, organizações internacionais e empresas de tecnologia a adotarem representações que mostrem de maneira mais proporcional o tamanho dos territórios, especialmente em contextos educacionais e institucionais.

A Mercator, por sua vez, continua tendo utilidade em determinadas aplicações, principalmente na navegação, justamente pela característica que tornou essa projeção importante historicamente.

A discussão, portanto, vai além de decidir qual mapa deve substituir outro. Ela questiona quais imagens do mundo estamos acostumados a considerar naturais. Durante séculos, diferentes projeções ajudaram a construir nossa percepção sobre o tamanho e a posição dos países. Ao oferecer uma representação mais proporcional das áreas, a Equal Earth propõe não um novo planeta, mas uma nova maneira de olhar para ele.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais