O celular criado para fazer você usar menos telas

Com teclado físico e sistema minimalista, aparelho quer reduzir notificações, ansiedade e vício em aplicativos

celular flip com botões e sem tela sensível ao toque
Crédito: Light

Jesus Diaz 5 minutos de leitura

O designer responsável pelo icônico Motorola Razr está de volta com um celular flip criado para desafiar a economia da atenção. Batizado de Light Flip, o aparelho aposta em um design baseado no conceito de “atrito intencional” para ajudar uma geração a abandonar o doomscrolling, o excesso de notificações e o hábito compulsivo de verificar aplicativos.

Na cor preta, o novo aparelho lembra o monólito do filme "2001: Uma Odisseia no Espaço". A diferença é que ele se abre ao meio. Fechado, mede apenas 11cm por 5,8cm. O corpo de plástico fosco, com linhas retas, tem certificação IP54, oferecendo proteção contra poeira (em quantidade limitada) e respingos de água, mas não é à prova d'água nem pode ser submerso.

O design do Light Flip parte da ideia de que usar o celular deve exigir uma decisão consciente. Ao abrir o aparelho, não há tela sensível ao toque. Toda a navegação é feita por um conjunto de botões físicos com direcional (D-pad), teclas de função e o clássico teclado T9.

A interface personalizada, chamada LightOS, aparece em uma tela OLED fosca de 2,8 polegadas, que fica escondida até que o usuário decida abrir o aparelho. Segundo os cofundadores da Light, Kaiwei Tang e Joe Hollier, isso reforça a ideia de guardar a “caixa de ferramentas” quando ela não está sendo usada.

O aparelho preserva recursos considerados essenciais atualmente, como câmera traseira de 50 megapixels (que produz fotos de 12 megapixels por meio de processamento de imagem), porta USB-C, entrada para fones de ouvido e conexão 5G.

Em compensação, elimina o excesso de aplicativos e estímulos visuais. Ainda assim, há funções equivalentes às de aplicativos, como e-mail e mensagens.

Junto com o lançamento do Light Flip, a empresa também disponibiliza um kit de desenvolvimento que permite adicionar recursos úteis, como cartões de embarque via QR Code, mas impede monetização, redes sociais e qualquer tipo de rolagem infinita.

É COMO PARAR DE FUMAR

O Light Flip se posiciona como a alternativa às propostas da Apple e do Google. “Se todos concordamos que o vício em redes sociais é uma dependência que precisa ser tratada ou reduzida, carregar no bolso justamente a fonte desse vício não parece a melhor solução”, afirma Tang.

Para ele, querer abandonar maus hábitos digitais enquanto se passa o dia inteiro com um smartphone nas mãos é como tentar parar de fumar carregando um maço de cigarros fechado no bolso.

Tang e Hollier fundaram a Light justamente para enfrentar esse problema. O hardware da empresa evoluiu de um aparelho secundário, pensado inicialmente para pais sobrecarregados, para um dispositivo principal voltado a pessoas que rejeitam os tradicionais retângulos de vidro que dominam o mercado.

O lançamento acontece em um momento no qual cresce o ceticismo em relação à obsessão do Vale do Silício por incorporar inteligência artificial a praticamente qualquer dispositivo.

Segundo Hollier, integrantes das gerações Y e Z estão cansados da perda de atenção, da erosão da privacidade e da sensação constante de serem monitorados por algoritmos.

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Tang conhece bem o prazer quase físico de fechar um aparelho para encerrar uma interação. Seu primeiro projeto profissional, logo após concluir a pós-graduação em 2005, foi justamente o Motorola Razr original.

O Light Flip resgata esse espírito ao eliminar completamente a tela sensível ao toque e apostar em um direcional físico, teclado T9 e uma dobradiça que permite literalmente fechar o mundo digital.

NÃO É NOSTALGIA

Apesar da aparência retrô, Hollier diz que o objetivo não é promover uma regressão tecnológica. A proposta é separar as coisas, de modo que o celular volte a ocupar um papel secundário na vida das pessoas.

Segundo ele, muitos usuários descobrem um inesperado senso de autonomia ao conviver com mais atrito tecnológico. Nos primeiros modelos da Light, por exemplo, algumas pessoas reaprenderam a se orientar pela própria cidade e conversar com desconhecidos antes que um aplicativo de mapas fosse incorporado ao sistema.

celular flip com botões em vez de tela touchscreen
Crédito: Light

O hardware foi pensado como um martelo ou uma régua: você abre a caixa de ferramentas, resolve o problema e a guarda novamente, sem ser sugado para duas horas de distração digital.

Mas uma caixa de ferramentas ainda precisa de ferramentas. É aí que entra o novo programa de desenvolvimento em código aberto do LightOS.

Alguns usuários queriam recuperar funções específicas dos smartphones tradicionais, como a leitura de QR Codes. Outros chegaram a desenvolver adaptações por conta própria. Tang e Hollier perceberam que havia espaço para aplicativos extremamente específicos.

O design do Light Flip parte da ideia de que usar o celular deve exigir uma decisão consciente.

“Nunca haverá nada infinito”, diz Hollier, acrescentando que a empresa estabelece uma linha inegociável: nada de navegadores, feeds de notícias ou aplicativos baseados em publicidade.

Em vez disso, milhares de desenvolvedores voluntários estão criando utilitários bastante específicos para eliminar pequenos atritos do dia a dia, como destravar um carro alugado ou liberar o uso de bicicletas compartilhadas.

Tang afirma que a empresa não quis criar uma economia baseada em aplicativos. Quem desejar uma nova funcionalidade poderá simplesmente baixar aplicativos gratuitos e de código aberto por meio do painel do LightOS, acessado pelo computador, onde também é possível gerenciar configurações e recursos do aparelho.

celular flip com botões e sem tela sensível ao toque
Crédito: Light

A Light também está lançando o programa Flip Your Life, uma publicação online acompanhada de uma newsletter quinzenal que funciona como uma espécie de treinador de bem-estar digital, oferecendo sugestões de atividades no mundo real para ajudar usuários a lidar com o vazio – muitas vezes assustador – de ganhar até oito horas livres por dia.

No fim das contas, romper a ligação neurológica criada com esses retângulos luminosos exige muito mais do que simplesmente apagar um aplicativo. Exige uma mudança completa de estilo de vida.

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O Light Flip pretende oferecer justamente isso: uma alternativa concreta, elegante e menos viciante para quem está exausto das exigências permanentes da economia da atenção.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais